terça-feira, 7 de junho de 2016

DORINHA, UM SER MAIÚSCULO DE NOME DIMINUTIVO

DORINHA, UM SER MAIÚSCULO DE NOME DIMINUTIVO

Por mais vontade que se tenha ou maior esforço que se faça, há palavras impossíveis de serem ditas sob incontida e indisfarçável emoção. 

Se for assim - quando cérebros parecem diminuir ou neurônios se embotar, ao menor sinal de que sinapses esmaeceram, goelas se deram nós e línguas preferiram silenciar - resta tentar guardar as ideias e só as expressar se e quando resplandecer a poderosa e benfazeja luz da inspiração.

É esse o caso: no velório, não ousei falar, muito menos no sepultamento dela pude dizer alguma coisa. Ainda bem que a tristeza daquelas horas me inibiu e quem estava lá foi poupado da provável voz minha embargada, trêmula e inaudível, se é que eu teria conseguido abrir a boca.

Agora, nestas poucas letras eivadas de grande sentimento, é o momento de homenagear a quem eu tanto gostava.

Foi longa e insone a noite depois que meu cunhado - ao confirmar o grave prognóstico feito por ele hora antes - ligou de volta de Campinas e de pronto antecipou que não tinha boa notícia: ela falecera, o livro da vida terrena dela se fechara.

Aquele telefonema vindo do longínquo interior paulista trouxe chocante tristeza, é claro, mas logo fez disparar a recarga na minha memória só de coisas boas, de alegres momentos, de marcantes e inconfundíveis traços da destacada cunhada.

Exatamente de lá, duma nada comedida farra na noite campineira de muitos anos atrás com a amiga Onelice vieram fresquinhas lembranças da mulher idealista, pragmática e guerreira, que sonhou crescer a vida inteira, até mesmo já de cabeça esbranquiçada.

Dali, foi um pulinho até João Pessoa, aos dias e às tardes em que tive o privilégio de compartilhar com ela e Helena que se preparavam à ascensão na carreira professoral alguma intimidade minha  com as mais cabeludas equações matemáticas e com o vernáculo todo escorreito, duas eternas paixões nossas.

Desse jeito singular fui de fato apresentado a uma mulher de fibra, de luta e de coragem, vem daí a admiração por ela, à meia-idade e ávida por conhecimento: era o que saltava aos meus olhos, ela querendo tudo absorver do que ainda não dominava direito, do que ensinaria mais tarde decerto melhor do que aprendera, a velha e infalível receita da dedicação e do amor à mais nobre de todas as profissões, o magistério.

Esse gosto pelo acúmulo e transmissão do saber era recíproco e comum em nós dois, acho que por isso ela nunca economizava elogios falando de mim, outra inconteste prova da benquerença dela comigo, mais uma característica da sua enorme generosidade.

Num piscar, já me vi na casa dela em Itabaiana, um oásis no meio daquela poeirenta e pedregosa estrada margeando o Rio Paraíba até a Barra, que só molhava os pneus nas treze passagens de água já no trecho final. Era um desconfortável estirão de um solavanco só, muita ladeira acima e abaixo, que reforçava a platitude emblemática daquela obrigatória parada nas viagens de João Pessoa a Natuba, um inesquecível endereço onde - mais que refresco geladinho, bolo-de-lamber-beiço e café quente da hora - se servia à vontade muito carinho, acolhimento e abraços indescritíveis, impagáveis.

Como é bom resgatar aqueles cheiros, sabores e gestos afetuosos, sei que eles permanecem em mim, em toda a família. Inclusive porque lembram um passado maravilhoso, vivo e presente, instantes para sempre, dignos de pompa, de reverência e de agradecimento.

Ah, por falar em Natuba, como poderia eu esquecer da matriz e da praça da cidade onde morei, fui docente e festeiro de tantas vastas madrugadas adentro? Sim, ela trazia no nome a padroeira do lugar de nascimento: haveria devoção mais adequada a uma autêntica Mariana? Sim, o espaço no pé da subida da serra, defronte ao posto de saúde e ao lado do córrego na lateral da casa de Seu Agenor e de Dona Nailde tinha o nome dela também. Eu seria até capaz de imaginar ela subindo no pontilhão, brincando na calçada e correndo ali na rua, quase com a mesma nitidez que a vi umas vezes ajudando a arrumar a missa, a decorar o ambiente do culto prestes a começar e a sentar naqueles bancos de madeira, de terço na mão e de escapulário à volta do pescoço.

Para mim, tinha suficiente boca-de-siri, via fortuitas cenas potencialmente comprometedoras e as recolhia pelo prazo necessário em segredo conveniente, para preservar a imagem e a reputação de quem era dela preferido. Tanto que  eu mesmo sei e não vou contar a ninguém dum namorico passageiro que ela flagrou e jamais testemunhou a quem talvez interessasse.

Não era alcoviteira, mas é sabido que ora ajeitava no bastidor namoro de gente conhecida, ora criava clima favorável à paquera de alguém: como se dizia então, cortava jaca de montão para incentivar casamento na família. Mas, o dela próprio não teve como segurar, sabe-se lá por quê. Só sei que - infelizmente, por acaso, numa folga da minha faculdade no Rio de Janeiro - fui testemunha de parte do processo da separação, acompanhei a triste audiência no Fórum de Itabaiana. Meu noivado já estava firme e sólido, em nada ficou abalado, mas me impressionou a força, a altivez e a firmeza de propósito que mostrou diante de todo aquele constrangimento, provavelmente um denominador nas mulheres da família dela, hoje também minha, graças a Deus.

Enxergava nela às vezes uns ares de mansidão ou de aparente fragilidade, nunca de subserviência. Ao contrário, estava à frente da maioria na independente atitude feminina, era ativa a ponto de amealhar boa grana no mascate de joias de ouro, prata e pedras preciosas. Convivi pouco com ela, certamente insuficiente tempo para descrever dotes e habilidades dela com finanças, mas cheguei a ver de soslaio no Pedro Gondim como brilhava no meio de ricas peças, era uma comerciante nata.

Alegria foi quase sempre uma constante nela, que o diga os bailes do Mercado Municipal de Natuba, que superavam toda a precariedade do ambiente com o transbordante entusiasmo dela. Era assim também na Casa da Praia do Poço, que ela regularmente frequentava nas nossas férias anuais, ao menos num ou noutro final de semana, nos churrascos regados a cerveja farta, sempre. A ausência era notada, a presença mais ainda, por conta do seu carisma e das histórias familiares que contava. Aliás, o relato que nos fez de um dos muitos carnavais passados com suas amigas em Salvador foi o empurrão que precisávamos para incluir no nosso roteiro as esplendorosas festanças baianas. Eu digo que valeu, foi bom demais ter prestado atenção à precisa descrição feita, nunca iremos nos arrepender de ter seguido o conselho.

Acho que em todas as nossas estadias em João Pessoa visitamos aquela casa do Conjunto João Agripino em clima de alto astral. Mas, passar de carro lá por perto na BR 230, traz de volta fatídica lembrança, tragédia jamais esquecida. A perda de Juliana fez aquela exemplar mãe-substituta envelhecer décadas em míseras semanas: nunca mais ela foi a mesma, tentava disfarçar, mas todos sabíamos que as lágrimas escorridas pela face dela levaram abaixo sua jovialidade, a mulher festeira deu lugar à sofrida avó.

Essas curtas reminiscências vieram à tona numa lapada ao ver, na Central de Velórios São Joao Batista, Dinoá alisando os cabelos dela. Ouvi apenas algumas frases ditas por ele, nada parecido com os eloquentes discursos; mas aquele gesto dele, os sussurros dele no ouvido dela pareciam uma desesperada tentativa de último diálogo, fraterno e comovente ritual que Lili repetiu quase igual.

Chorei junto com o mea culpa de Tarcísio, ele definiu de uma vez por todas a mãezona que tinha, sempre disponível a apoiar em qualquer circunstância a correção de todo erro.

Eu vi Carla a toda emoção mostrar o quanto estava sofrendo, a mão tremia, a voz saiu a fórceps, cumpriu o prometido: ficar ao lado da mãe até o fim.

Aprendi com Felipe, um dos netos ali, uma inesquecível lição da metodologia de formação do caráter da gente: ele provou que parte dos nossos valores são herdados, parte vem por osmose, da convivência, do exemplo.

O celebrante da encomenda do corpo falou dela como mulher da igreja, solidária na partilha até das frutas que vinham dos sítios da família no interior. Quando ele reforçou a imagem dela como uma pessoa de fé, acho que quis nos relembrar o quanto isso foi importante nas tantas dificuldades vividas por ela; de minha parte, lembrei da doença que ela enfrentou com dignidade impar, que fez daquele extirpe um abalo pra lá de besta, no máximo.

Sou grato pela oportunidade que tive de estar aqui, de vê-la pela última vez. 

Como valeram os inúmeros telefonemas e as horas a fio na internet tentando achar uma passagem aérea para chegarmos a tempo em João Pessoa, prestar a devida homenagem a quem tão importante foi, é e continuará sendo para a nossa família.

Andreas Cauê soube depois, mas tenho certeza que sentiu muito a perda e a impossibilidade de estar presente; Catarina Emília esteve a noite inteira conosco e até no caminho do aeroporto de Brasília lembrava de coisas boas vividas em comum com ela; Bertha Carolina lembrou da visita feita quando esteve no Brasil há dois anos, recordou que ela fez questão de registrar o momento como uma despedida. Eu também tive essa estranha sensação em março deste ano quando a visitei: olhar distante, voz mais baixinha que a de sempre, fraquinha, sem o charme de outrora, o andar lento demais para que tão faceira e diligentemente viveu quase toda a vida.

Agradeço a Margareth por me ter estimulado a escrever essas breves  linhas em memória de Maria das Dores Dinoá Cabral, a nossa queridíssima Dorinha, um Ser Maiúsculo de Nome Diminutivo, como disse no merecido título. 

Que Deus a tenha.