quarta-feira, 29 de outubro de 2014

CENA III - VAI UM DINHEIRINHO, VAI? CAPÍTULO 2 DE À VISTA GROSSA O RATO ROI O QUEIJINHO DAQUI

Cena III – Ei, Você Aí, Me Dá Um Dinheiro Aí, Me Dá Um Dinheiro Aí...

A música de Homero Ferreira é carnavalesca, brincalhona, sarcástica, mas o tema é sério, povoa a conturbada agenda do país, ocupa a seleta primeira página do Valor Econômico, do Frankfurter Allgemeine, do Wall Street Journal, da The Economist ou do Asahi Shimbum; o assunto estressa transeunte comum, engravatado executivo, especialista burocrata ou amanuense de balcão, interessa a Barack Obama, Ângela Merkel, Xi Jinping ou Dilma Roussef, pertence a Antônio Pechincha, Generosa Farias, Inocêncio Coitadinho, Vera Lama.

Zé-Povinho tem ele contado mês-a-mês no miudinho, Dona-Maria quando vai à feira o vê sumindo mais veloz do que piloto de Fórmula 1 contumaz no pódio, Filhinho-de-Papai conhece ele pelo barulhento ronco do milhar de cilindradas de sua supermoto, Playboy-de-Carteirinha o transforma em homérica farra na noitada de boate chiquérrima, Patricinha-da-Oscar-Freire faz de um monte dele única peça de roupa grifada querendo ser mais exibicionista que a Paris Hilton, Mauricinho-da-Barra-da-Tijuca enxerga ele pulsando no autêntico Rolex que assaltante de olho clinico reconhece no braço dele numa piscada e Corrupto-de-Colarinho-Branco sabe a alquimia que o transmuda em patrimônio de quem jamais se descobre.

O portelense e alvinegro Paulinho da Viola cantou a pedra que dinheiro na mão é vendaval, (conceituando inquestionável a natural efemeridade, o risco inerente), o pornográfico genial Nelson Rodrigues escreveu que dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro (insinuando ser ele chegado à promiscuidade, a rodar bolsinha no trottoir), o progressivo roqueiro britânico Roger Waters profetizou sonoro money is a crime (provavelmente se referindo à diabólica apropriação indevida, à injusta riqueza anticristã) e o pai de amiguinho daqui de casa disse que ele é igual amendoim, só presta bem torradinho (certamente se referindo ao prazer salutar que se pode obter dele).

Dinheiro foi simbolizado em cigarro, búzio, concha, gado ou sal, e, quando ele não existe ou se não é aplicável ad hoc, a solução é o escambo, mercadoria permutada por mercadoria, semente por fruto, tomate por cebola, um bicho por outro, cuidando para que não seja gato por lebre. Como todo país tem o seu, alguns marcaram época, fizeram história, como no Brasil, o pau que lhe deu o nome (cinco paus é cinco reais, todos entendem), o açúcar (é o mel que lambuza o beiço de quem não o tem costumeiramente?), o cacau (ainda na boca do povo), o tabaco (quem não tinha levava fumo?) e até o pano (da costa? Do Maranhão?).

Por definição, é bem escasso, que sobra de montão na conta de uns poucos; é tido como abstração, mas é concreto acima de qualquer suspeita; um diz que ele tem parte íntima com o cão, outro o vê tão sagrado quanto castiçal de altar. Não rebentou o dito cujo por geração espontânea, evoluiu junto com a humanidade, desde que ela encontrou um padrão, primitivo, muito antigamente, milênios para trás, e hoje, é diuturno, tão arraigado no imaginário e na cultura que cofrinho-mealheiro é dado de presente a criança.

Nas trevas do mundo, se achou que mortalha deveria ter bolso, urna funerária vir equipada de guarda-valor chaveado, mausoléu ser caixa-forte majestosa para além de simplória tumba, onde -  de costume, vestido a caráter, com retumbante pompa, trombetas audíveis quilômetros distante e ritualíssima circunstância - se sepultava, junto, o morto e seus valiosos bens, à espera do mais que improvável prodígio bíblico da ressuscitação dele e da multiplicação dos respectivos pertences, simultaneamente, o que - já é corroborado em sobejo - só ocorrerá no Dia-De-São-Nunca.

Depois, já no ronca, se guardava tudo debaixo da cama, dentro do colchão e até do travesseiro ou na barrica sem tampa, em reforçado baú num canto caseiro, quando havia um, ou em compartimento que reproduzia casamata de parede revestida a chumbo, nem um tico parecido com esses estilosos cofres mecânicos, boca-de-lobo, de variada cubagem, à venda em caminhões na beira da estrada, tão inseguros que os atrapalhados Irmãos Metralha abririam fácil, sem precisar sequestrar gerente, subornar funcionário ou explodir pelos ares com petardo de romper couraça de blindado de guerra.

Mais ou menos à época do pacto firmado a sangue, documento lavrado por escrivão de cartório, contrato fechado em envelope a lacre quente e acordo a fio-de-bigode, olho-no-olho ou aperto de mão, aquele que tinha algum disponível (o interesseiro) emprestava a juro ao que dele precisava (o interessado), simples assim. Faz uns bons dias, se tem simulador na internet, a operação de toma-lá-dá-cá é feita em linha, transformada em céleres bits, sem se ver a cor do produto, só os impulsos eletrônicos, o passo-a-passo do aplicativo que guia o prestamista. Agora, há portabilidade, imagine você, o papagaio passa de mão-em-mão, mudo, com autorização do velho e do novo proprietário. Existe até uma portinhola cada vez maior onde endividado com restrição de todo tipo consegue ainda levantar bolada sem avalista,  como se anuncia na TV, mas a duras penas, por certo uma armadilha que encaçapa o coitado sem misericórdia.

Há também a popularíssima caderneta de poupança, secular até em agência postal alemã (onde tem nome semelhante, Postsparbuch, livro de poupança postal, literalmente), em geral tão sólida quanto rocha (tremeu durante as grandes guerras, mas atravessou quase incólume aquelas até lá horrendas beligerâncias). Com distintos apelidos, ela existe em todo o mundo, mas não é apenas para uso de pé-rapado ou de pouco-tostão; muita vultosa fortuna foi, é e continua nela aplicada; tanta, que, dela, volumosa parte direitinho se escafedeu por um desses vazados escaninhos de instituição caloteira disfarçada ironicamente de sociedade de crédito imobiliário, às claras,  nas barbas do omisso, conivente, viciadíssimo Banco Nacional da Habitação, o extinto BNH (Deus o guarde sepulto), escudada adicionalmente por influente associação poupadora militar, ex-toda poderosa no regime, nos Anos 80, de horrorosa lembrança: quem perdeu jamais esquece o Grupo Delfin, aquele que manteve o patrimônio oculto nalgum lugar, deu fim literal ao que ‘custodiava’ dos outros e estende tentáculo até hoje, quem diria, atado à UniverCidade, essa mesma que frequenta noticiário policial diário, lamentavelmente ao lado de fundos estatais de pensão, Postalis, por exemplo.

Anos a fio, criativa falcatrua alimentou gordo enriquecimento ilícito, escandalosa fraude recheou conta secreta em paraíso fiscal, empresa de fachada brotava mais que de repente e desaparecia numa clique d’olho, muitos viam tudo de soslaio ou a conveniente meia-luz, faziam ouvido-de-mercador à convulsiva balbúrdia ou se calavam diante do crescente rumoroso burburinho, até que o prédio já em ruínas desabou completo em plena campanha política e culminou em espetacular tiro-de-chabu colorido inocuamente disparado na espiral inflacionária que coriscava como fogo de artifício no céu, confiscando injusto até o que se poupava honestamente em diminuta escala.

Ninguém está totalmente imune ao difuso contágio oriundo de doente exógeno contaminado por moeda podre, nenhuma vacina é potente o suficiente a ponto de barrar completa a inoculação de mutantes vírus de incredulidade surgidos sabe-se lá quando, em quem ou onde. Tanto que, agora mesmo, a (im)pura agiotagem ainda sobrevive em comandante que abandona o barco e deixa ele submergir cheio de náufragos, de plano ergue-se contínua pirâmide oportunista feita com otário na base e espertalhão no cume, do nada surge diuturna e segue avante corrente que sempre arrebenta no ponto mais fraco, uma cadeia onde poucos permanecem o tempo certo e merecido.

Mas, justiça se faça, duns anos para cá, após o sufoco passado no custoso incêndio debelado que carbonizou mais de duas dezenas de bilhões de reais no questionável PROER da Era FHC, abalo sísmico no sistema financeiro pode ser perceptível antecipado, a solidez se robusteceu, o leque de opções se modernizou, agregou-se alerta prudencial ao vocabulário, ficou menos ininteligível ao vulgo a linguagem da conta corrente, do depósito a prazo, do Fundo DI, do desconto de duplicata e de cheque no factoring; o efêmero overnight e o compromisso a 30 anos são pacíficos vizinhos de porta, deu-se mais transparência à dívida mobiliária, sem nenhuma jocosa menção ao carnê de pagamento de utensílios domésticos, sofá, cama, berço, móveis em geral, comprados no crediário a perder de vista, confortavelmente agasalhado na verba familiar.

Trata-se, afinal, da bem tradicionalíssima mediação entre ativo e passivo, um recinto carregado de nomenclaturas específicas. Decorar todas elas é impossível, nem com assessoria de pós-doutor da Universidade de Harvard, não perca nisso seu precioso dia, amigo; não adianta pesquisar glossário, manual ou dicionário, em nenhuma língua do planeta, porquanto tradutor algum identifica apenas pela grafia, fonema ou sílabas o significado de cada sigla, nome ou locução, este idioma é babélico, relaxe, sem gozação.

Na principal corrida de fundo, a parada é federal: tem LTN (Letra do Tesouro Nacional), LFT, LFT-A, LFT-B (Letra Financeira do Tesouro, com respectivas Série A e Série  B, nada a ver com campeonato de futebol, felizmente) e NTN (Nota do Tesouro Nacional, Série A, de NTN-A1 a NTN-A10, mais Série B, Série B Principal, Série C, Série D, Série F, Série H, Série I, Série M, Série P, Série R, Série R2, ufa, a lista tem cara de enunciado de exercício simulado de análise combinatória caída em questão de vestibular, em prova do ENEM).

Mesmo sendo confuso e apesar da dívida total do tamanho da Muralha da China, caudalosa igual às Cataratas do Iguaçu na cheia, leigo nela se fia, visto título público ter garantia de governo, que - diz a lenda - fica inadimplente, enverga e não quebra,  como pé-de-goiaba. Mas, atenção: Tesouro Direto, até via internet, a partir de R$30, populariza, educa, facilita captação, mas não deixa de ser merreca equivalente a cervejinha mixuruca com parede simples, tipo batatinha frita, nem de longe significa ter ao seu dispor a chave-mestra da tesouraria, não é botar a Mão-na-Botija, no popular, nem no teto do milhão.

A infinitas léguas do Pote-de-Ouro-no-Fim-do-Arco-Íris, há o mercado aberto da promessa de compra-venda-recompra-revenda, do intermediário fundo coletivo de investimento, do dono de suculenta carteira, um nebuloso universo privado onde a máxima precaução é benvinda, chá de qualquer folha remedeia, haja vista que inexiste risco de alguém se intoxicar com antidoto, nem mesmo em exorbitante porção, como caldo de galinha.

Aqui, lampeja outra galáxia de abreviaturas, tipo CDB (certificado de depósito bancário), LCI (letra de crédito imobiliário), LCA (Letra de Crédito do Agronegócio), debêntures (incentivadas, de infraestrutura, etc.), algumas delas ligadas a papel de rolagem de divida (sinal de que o gato subiu no telhado) e, por fim, os recebíveis, que, apesar do vínculo securitizador, pelo nome, é, talvez, possibilidade de se ter de volta ao menos o investido.

Quem precisa fazer caixa, na esquina onde mora, pode deixar sob taxinha na penhora cordão de ouro, trancelim de prata, anel de noivado, casamento ou formatura (com ou sem pedra preciosa, ornado de diamante meio falsificado, cravejado ou não de brilhantes), joia da coroa de casa e/ou da família, lembrando que não se aceita por depósito o que é feito de latão, nem micheline barata ou bijuteria enegrecida pelo tempo, mesmo que tenham algum valor, até para além do afetivo, que não é pouco não.

Entrementes, pelo amor do Divino Pai Eterno, deixe no bolsinho do cós ou no pescoço e jamais pendure sua própria medalha de Santa Edwirges, a concorrida Padroeira dos Endividados, porque, havendo infortúnio, mesmo sendo ela pródiga em milagre, nenhuma prece por mais forte que seja é capaz de livrar qualquer ser humano da amaldiçoada bancarrota, da inscrição nada triunfal na lista negra creditícia, da crucificação no SPC, no SERASA.

Mas, alto lá, apressadinho: retorno ao crédito de colherinha se aplica só a pobretão que corre rapidinho para limpar a sujeira do seu nome na praça, o bem de maior valor de muitos deles, enquanto inadimplência de fortuna é tratado por vezes como esquisito indicador de prestígio no credor, endividamento elevado pode ser estranhíssimo sinal exterior de riqueza, por incrível que pareça gentinha se gaba de ser grã-fino-que-deve-não-nega-e-paga-quando-puder.

Uma hora oferta-se crédito a rodo, até sem lastro qualquer, só virtual (cerca de 20 vezes mais que em espécie, R$ 125 bi contra R$ 2,17 tri, cifra pouco menor que o orçamento brasileiro de 2014), como tutu de plástico, generosidade oligopolista digna de desconfiança, já que cinco gigantes bancários detém três quartos dos ativos, migraram da função original de intermediação entre poupador e empreendedor para a de clássico agente oficialmente autorizado a operacionalizar a ciranda creditícia: fácil (até o Banco Central pega do Tesouro Nacional), polpuda (é tanto zero que não cabe em visor de calculadora normal) e lucrativa (42% do gasto anual é só pagamento do serviço da dívida, sem amortização, enquanto  o fiado segue adiante corrigido), uma dinheirama que dona de casa alguma jamais gastaria numa vida inteira, tanta fartura que até sobra para graúdas doações a campanhas políticas, como se diz, alto e bom som, em conversa de botequim.

Noutro instante curtíssimo, se recolhe o suposto circulante interbancário quase todo no vassourão de cerda potente, o compulsório, cujo nome já diz não haver alternativa à aceitação. Neste métier, prudente seria que se salvasse do sacrifício a galinha-dos-ovos-de-ouro a caminho do matadouro, se interviesse preventivo estacando a vazão antes da impositiva cobertura do rombo, se notasse nítidas as primeiras evidencias objetivas de que se vai dar-com-os-burros- n’água, exemplificando:

1    1)   borrachudo retornando ao emitente-sem-vergonha-na cara igual veloz bumerangue;
2    2)   visível saque feito a descoberto;
3    3)  empréstimo novo feito contínuo a pagar empréstimo velho;
4    4)   patrimônio torrado na despesa corrente igual cachorro comendo o próprio rabo; e
5   5) saldo avermelhando próximo de fazer a hipótese de inadimplemento beirar a certeza, ou de a obrigação breve virar letra morta junto com o defunto que a assinou.

Portanto, quem é do ramo, normal recomenda não por todos os ovos na mesma cesta, orienta a se ligar no leilão anunciado, a garimpar consistente parâmetro de decisão para encontrar a melhor blue chip, confrontando: renda fixa ou variável, remuneração pós ou pré-fixada, nível de liquidez, prazo de carência e/ou de resgate, spread, rendimento histórico versus rentabilidade recente, isenção de IR e/ou IOF, custódia ou fidúcia contra insolvência, indexação (sim ou não, a quê), seguro ou seguro do seguro (que é o resseguro) à (des)proporcional insegurança. Mas, todo cuidado é pouquíssimo com a taxa de administração, de carregamento, ela pesa demais, dói as cadeiras, deixa a espinhela caída, afeta terminal nervoso, pode quebrar a coluna vertebral, a do sistema, a sua, particularmente.

A lógica aeronáutica é aplicável aqui, parcial: se pode voar sob nevoeiro, à noite escura, em dia ventoso, às cegas, por instrumento, se estiver ele regulado, se a torre é ocupada por profissional capacitado. Em trajeto pertinho, reserva de combustível mínima é suficiente para algum desvio, mas é insensato levantar do chão para longo curso, sem aeroporto opcional A, B, C, sem tanque cheio, porque pode ser obrigatório mudar a imissão feita, trocar uma aplicação por outra, resgatar o aplicado antes do previsto. Aliás, aqui, jeitinho improvisado pode ser fatal, inclusive em cenário de inesperada turbulência aparentemente contornável, porque tudo pode ocorrer se o caminho for escolhido ao acaso, no chute despreparado, ao bel-prazer de quem quer que seja metido a entendido: sem informação prévia, confiável, é evidente que nem Chico Xavier consegue prever a rota menos arriscada, e, se a aeronave entrar em parafuso, nem Mãe Dináh saberia guiar o piloto no impraticável pouso de emergência, seja onde for.

Por dentro, para que a rodinha opere à volta da mesa no compasso acordado, sem sobressaltar os protagonistas nem aterrorizar os ocupantes dos assentos na plateia, pessoas físicas ou jurídicas, entra na passarela o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e a Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia (CBLC), não se surpreenda, ele e ela existem, têm essas responsabilidades autoexplicativas. Contudo, não raro, o inquieto mico pula de galho em galho, cresce ao tamanho de chimpanzé e se aloja à sombra de frondosa copa, a risível provisão para empréstimo de recuperação duvidosa, conveniente guarda-chuva que abriga rubrica do traído Marido-da-Viúva, suspeito aval do Herdeiro-Nobre-do-Banco-Liquidado e imoral endosso do Amante-da-Farra-do-Extinto-Dinheiro-Alheio.

Lá, por fora do borne, o mercado de título estrangeiro detesta instabilidade entrópica, a vitrine gosta de se exibir menos cosmética, mais discreta ou quiçá camuflada; a prateleira, a baia e o guichê  têm preferência por conter produtos solventes, que atraem babando ávidos pretendentes, fazem eles percorrer milhas à procura deles. Idealmente, é verdade, mas nem tudo anda sempre certinho aqui, como prova o Crash da Bolsa dos EUA, em 1929. A quebradeira generalizada que se alastrou mundo afora se tentou explicar de toda maneira, nem marciano escapou da suspeição, porque, de fato, se teria escondido o choco do ovo da serpente até da Pitonisa de Delfos, o local onde a artimanha foi engendrada é ultrassecreto, só esperto tomador cobiça e descobre irrestrito acesso a facilidade encoberta aos demais, infelizmente com rentável sucesso na aventura extremada, de momento.

É assim no misto cassino da inversão capitalista: para além da pura sorte ou do blefe premeditado, acertar a mancheia o Royal Straight Flush no pôquer internacional jogado alhures ou atirar a carta sortuda gritando truco enquanto esmurra a mesa daqui com ficha dolarizada não requer apenas suficiente cacife, habilidade de campeão, tráfico de influência fluido e acabadíssima informação privilegiada, precisa também incluir certa dosagem de probabilidade, com erro mínimo, derivativo matemático que exigiria consulta ao Supremo Mestre Pierre Laplace, se ele não tivesse morrido. De modo assemelhado, no caso de se desejar por completo a eliminação da trapaça do carteador, se trata então de exercício de ciência oculta, adivinhação tão esotérica que carece recorrer a Bita do Barão, o Rei da Bruxaria, aquele que - no Terecô de Codó - dá conselho infalível a celebridades, ricos e políticos.

Traz um oceano de possibilidades, esse aparato que abriga finanças. Ele funciona ao ritmo das marés, subindo na preamar e descendo na baixa-mar, normalmente calmo, cíclico, previsível, mas se o pélago fica mais revolto, como nessas procelosas crises, tem bastante irresponsável à deriva e louco-de-rebolar-pedra-na-lua que adoram repetir despreocupados manobras radicais. Tanto que, em 2008, até malandro criado foi pego de calça-curta na crista da onda que julgava maneira, CEO regiamente pago perdeu o short de praia, se expôs nu ao relento, de bunda lisa na areia, e, quando finalmente clareou, relações de troca feitas por debaixo do pano deixaram injustificável marca de batom na cueca do alto escalão do severo FED: o até então respeitável mercado, àquela altura já era feira livre, findou anoitecendo na penumbra de lupanar.

Por não ter percebido o tsunami se formando invisível como rastro de cobra, quando o maremoto penetrou o costado da Casa-de-Mãe-Joana, o aparato travou feio, se ficou igual cego em tiroteio, contendores brigaram de foice no escuro, o modelo colapsou e agora nem o mais concentrado dos detergentes limparia a nodosa mancha da insolvência impregnada na arranhadíssima reputação do controlador, ora em malcheirosa liquidação, inconclusa, insepulta.

Na fronteira de mão-dupla do fluxo de investimento internacional, já trafegou aqui denúncia de orgia alienígena na mesa de operação, se acusou de entreguista quem tinha parceria fora do país, houve empolgante campanha patriótica contra remessa de multinacional ao exterior, bandeira de fortíssimo apelo no combate ao imperialismo.

Afastado na data, mas atrelado no contexto, quando o prego do FMI foi zerado, bem recente, comemorou-se no estrondoso megafone o feito como virada de página histórica: derrubou-se o Pelourinho, extinguiu-se a escravidão, rompeu-se a amarra, abriu-se o grilhão, rompeu-se o jugo, malgrado ela, a dívida - renascida indesejável, fênix tupiniquim que sequer verteu lágrima a curar antigos males - esteja de novo engatinhando, ativa, rastejando baixo na casa dos cem bi de reais.

Visto que - triste e ironicamente, esse era o registro do montante do débito interno há vinte anos - é torcer para que a novíssima versão da promissória externa seja anã, não cresça rapidinho como aquele lá, cedo amadurecido, prematuramente tornado adulto com trilhão a pagar, preocupante expectativa de se desfigurar igual Frankenstein, de não morrer natural e honrosamente de velhice ou, pior, ressuscitar, indefinido, até quase se eternizar, longevo, Matusalém, com filhote gerador de irreconhecível neto, que Deus nos perdoe. No cotejo com ele, é fervoroso rezar para que ela não se mostre balzaquiana sem atrativo algum, nem se demore aqui caquética, esclerosada, rabugenta e trabalhosa ou se alongue velha-de-morrer-vivinha-da-silva. Sobretudo, se vier a falecer, que seja de vez, em pleonasmo, não seja mumificada.
 
Detonada a farra do banco estadual que financiava até a fundo perdido negócio de amiguinho do plantonista do poder, vários lazarentos remanescentes do pervertido molde insistem em contrair empréstimo elástico, pagável por sucedâneo em cuja mão o atilho esticado vai bater de volta quando solto, o dono do colo onde a bomba vai explodir um dia.

Mas - graças ao santificado céu, à bendita Lei de Responsabilidade Fiscal e à abençoada vontade férrea contrária de alguém - estado e município não mais emitem títulos públicos de captação em nenhum outro lado da fronteira, senão voltaria o caos do frouxo endividamento deles, que ainda é elevadíssimo. Hoje, há controle no critico visor do painel central da espaçonave, já que somente a União é guardiã dessa competência, autorizada pelos nobilíssimos senadores, tudo porque há inevitável repercussão externa, a soberania do país aí se encanga, é preciso antever possível prognóstico catastrófico no trajeto, impedir trágica rota de colisão no extrassensível cosmo das nações intensivas em capital.

A propósito, se algum terráqueo for abduzido e tentar apreender a hipotética arte da avaliação, a partir da expectativa de expressivo ganho de capital, perda em alguma medida ou malogro total, adotada por agência  internacional de classificação, como a Moody’s (conforme o humor?), Standard & Poor’s (padrão dum lado, pobre doutro?) ou Fitch (cheira ou fede?), depara-se com plêiade de conceitos incompreensíveis a não-iniciados, assim, do melhor para o pior: AAA, AA e A (parece tamanho de pilha, né?), BBB (Bronze-Benvindo-no-Bolso, é isso?), BB (Bem-Bom, por enquanto?) e B (B de Bancarrota à vista, parece), CCC, CC e C (C é de calote, acho), e, finalmente, D (a moratória, com D de Desastre, decerto), acrescido ainda de sinais (+) ou (-) e da cor vermelha, negativa, a partir de BB+, que é quando o país começa a ratear no rating.

A nota avaliativa dos países oscila na sequência a cada choque mais que o Pêndulo de Newton, e, no Brasil, todos estonteiam na frenética gangorra especulativa, de acordo com favoritismos nas pesquisas de intenção de voto da eleição presidencial, explosiva mistura de política e economia, pode? Sim, pode. Mais: isso ocorre, contrapondo – de forma elevada ou de modo rebaixado – os candidatos e seus respectivos luminares, diretamente, como porta-vozes e até por ventriloquia, sem que se saiba quem é quem.

Logo, quando banco lucra bilhões num único semestre, manufatura definha anêmica, emprego se abala fazendo tremer a confiança do mais-que-volúvel mercado de ponta não é o tinhoso maligno se vingando dalgum infiel de ontem, não, é a Política Financeira.

A preço de todo dia, ela tenta por naipe pesado na mesa, apostando como pode e deve, buscando prevenir que se mele o jogo, se necessário, porque:

1    a)  ricaço traz o ás oculto na manga (faz dinheiro quem tem dinheiro);
2    b)  argentário ligeiro tira lasquinha de posse do coringa do baralho (dívida oficial como maior fonte de investimento);
3   c) usurário sem dó se aproveita da roleta girando solta (gasto público maior que receita); e
4   d) onzeneiro ladino especula na maior enquanto crupiê muda regra toda hora, fazendo oscilando uma aparentada desta mexida no vil metal.

Refiro-me à Política Monetária, prima carnal daquela outra.

Essa daqui tem igualitária complexidade, é a Dona-do-Pedaço, diz quanto de notas roda por aí à solta ou o que deve ficar retido no cofre da banca, do governo ou em ambos; influencia a taxa de juros, a remuneração da transação básica, o volume de crédito, o ritmo do crescimento, a dose da inflação, medida por qualquer dos muitos índices, IPC, IPCA, IGP, IGP-M, IGP-DI, por aí.

Deve ser reverenciada como protetora mãe que não descuida minuto da cria, só é respeitada se tiver autoridade de pai na gestão das contas e na provisão da mesada, com necessário rigor, inclusive, se, de leve, puxar a orelha dos bancos, ou intervindo eventual para botar rédea curta no próprio governo. E - para que a disciplina venha natural, apenas no olhar com jeitão de reprimenda, ou que sua aparição seja saudada com arrebatada admiração - além de honesta (que é atributo imperioso), precisa ser exemplar, manter reputação ilibada.

Lida diária com superávit primário, déficit nominal, base monetária, meio circulante, auditagem final, investimento produtivo ou capital desapaixonado e transitório, dito de motel, talvez porque rapidinho tira casquinha de qualquer oportunidade, onde ela estiver, seja com quem; sob seu comando, se emite ou imite, ela drena ou injeta recurso se, quando e onde precisa.

Tocando nele, o meio de pagamento, na sua expressão característica, a moeda, ora é cara, ora é coroa, mas ela própria teve faces, entrementes. Esse de agora, o real, já existiu, como o mil réis de lá atrás que nem tostão-furado vale hoje, e, a meio- tempo, teve pataca (incluindo as versões menor, a meia-pataca, e a grandona, o patacão), cruzeiro, cruzeiro-novo, cruzeiro-real, cruzado, novo-cruzado, acha pouco? O que se obtém com o valor facial da dita cuja é que é o cerne, porque, no longuíssimo prazo, tanto faz, estaremos todos noutra dimensão, quem ficar aqui que se vire para escolher outra ou nenhuma grandeza.

Felizmente, não é laxo o nó do cordão que segura a gaita brasileira. Há, sim, quem tenha aqui domínio, coordenação, mando, o Banco Central, mas a responsabilidade é tanta que não cabe num único gabinete, termina validada em faustosa sala de reunião, cheia de experts, em meio a cenários, números, gráficos, tendências: é o Comitê de Política Monetária (Copom), esperado ansioso a cada ciclo como rebento nascituro, em clima de expectativa nervosa.

Diz-se que, lá, no Copom, se decide independente, no voto dado ao relato da proposta em pauta, justificado a cada item, nada contra, é boa metodologia. Mas, o que se divulga frequente suscita interpretação, palavra por palavra, vírgula a vírgula, incluindo reticências, como se faz em relação a certames nos quais a participação prescinde de entendimento detalhado de cada um e de todos os requisitos, como edital de leilão antes de ir para hasta pública, no caso o Boletim Focus.

Tudo bem, se o destinatário é o do ramo, o economês se basta no pergaminho, parece conselho a ser pago com pepita, e, de fato, é mesmo, porquanto aumenta muita fortuna pré-existente, cria condição para ganho de milhão duma hora para outra, se o recado for bem entendido. Ou, caso contrário, pode levar à falência total num estalo de dedos, na marcação-a-mercado malfeita na Catedral-da-Graninha-Movida-a-Expectativa, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa): por exemplo, o que era ação de glorioso futuro, morre de graça muito antes da véspera, cujo solene atestado de óbito é emitido e entregue transverso pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

No meio da rua, a escrita rebuscada do Comitê, de tão incompreensível, se achega a hieróglifo, ou, no barato, o texto estudado do Bacen dá impressão de ser da lavra de algum recente laureado com o Nobel de Economia, como o francês Jean Tirole e seu brilhante olhar (à direita?) sobre a imbricada teia que mistura desenvolvimento organizacional, teoria dos jogos, finanças e psicologia, em mercados de capitais monopolistas ou menos competitivos do que deveriam. Importante, porém, é que o Comunicado do COPOM ou o Boletim Focus tenham credibilidade total, senão fica o dito pelo não dito, confunde mais que explica, e, pior, envia sinais trocados indicando direção oposta à que se deveria tomar, exatamente como queria cinicamente a sectária hoste capitalista dos oportunistas adoradores do deus-mercado, conclui-se, se adotada ao menos um dos muitos vieses da abordagem (à esquerda?) do também francês Thomas Piketty, o queridinho da vez.

Luz, Câmera, Ação: oito vezes ao ano, o evento ocorre, com tudo a que o espectador tem direito. Na data marcada, tapete vermelho, o palco se arma, o auditório se enche, o sucesso é garantido. O título do seriado é repetitivo, o anúncio bombástico, o gênero da película mutante: suspense sempre, drama é quando aponta subida, e, oposto, o enredo é alegre se indica baixa; um episódio tem script de aventura, outro pode receber crítica como ficção, mas nunca se apelou em atrair cinéfilo de comédia pastelão, faroeste italiano ou pornochanchada. A atriz principal é a Taxa SELIC, Sistema Especial de Liquidação e Custódia, a taxa básica de juros, é ela que se quer ver, nela se aposta dia-a-dia, a alavanca do sistema; na plenitude do vigor, aos 25 anos, a mocinha desperta em uns desejo, muitos a cobiçam, talvez alguém a tenha antes dos demais. O Presidente do Banco Central, Bacen, é importante, claro, pode ser mocinho ou vilão, aplaudido ou vaiado, mas parece coadjuvante, não mais que isso, no caso.

Fala-se muito no Bacen como Guardião da Moeda, que regula barganha de quem deve com quem empresta, audita à lupa bem de pertinho toda negociação interbancária feita, vigia submerso a normalidade situacional com periscópio sem ser visto, tem obrigação de proteger a sociedade (o componente vulnerável da engrenagem), sem dar mole, tarefa que, na prática, só funciona com instrumento de altíssimo padrão, tipo canivete suíço de múltiplo uso, legítimo, certificado. É temeridade inadmissível querer fazer ajuste fino com caixa de ferramentas clandestina, barata, descalibrada, one way, porque, no Reino-da-Pecúnia-Sem-Cheiro não tem bronca safada, toda ela é feia: ora engripa o encaixe das peças na geringonça econômica, o parafuso espana na sociedade e vira rosca-sem-fim, alui a cremalheira do progresso.

Para não se enrolar, a instituição deve ter autonomia, não apenas em tese; na realidade, precisa ser intransigente com vendilhões do templo, aberto ou fechado, coibir a banda podre de narinas ávidas pela fragrância do lucro fácil, adotando nas atividades fiscalizatórias postura liberal ou se imiscuindo absolutista, por ideologia, doutrina, necessidade ou imposição. Nela, a escolha do ocupante da cadeira de mais alto espaldar, a do Chefão-De-Toda-Cunha-Oficial, passa por crivo interno e externo, chancela dos pares, aval internacional, e, ele, no assento, tem de ser verossímil na Avenida Paulista, endossável em Wall Street, crível em Davos. Pois, ao oposto, se escalão superior diz de manhã veemente, desdiz à tarde eloquente, dorme à noite sereno e amanhece sem incômodo no cargo inalterado, deixando outros insones, abalados ou doentios crônicos por causa do pesadelo, Zé-Ninguém pode dar pitaco descompromissado toda hora, é o vale-tudo.

É delicadíssimo este mundinho das finanças, dos valores monetários predominando sobre todos os demais, da mais-valia obtida sem suor. A relação entre envolvidos na arena (governo, operador de mercado, financista, empreendedor) deve ser de parceria customizada, na qual quem dita a regra facilita a vida de quem a põe em prática, e, sob desacordo, na disputa, que haja código de honra, sem golpe baixo, legítimo duelo de titãs. Nele, o juiz do tablado tem de mostrar pulso, para a luta ser combativa, não demorar tempão nas cordas, nem ficar encurralada no canto do ringue, em troca de tapinhas, cansando a assistência, que quer nocaute de primeira, não está nem aí se voltar mais cedo para casa.

Bom deveras que a temporada traga novidade, desperte curiosidade a cada estreia, como a do recente Índice de Confiança do Consumidor ICC), que se auto-define. Pouco importa se é invenção de europeu, talvez da Suécia, ou se vem da América do Norte, dos EUA ou do Canadá, interessa é que chegou dizendo a que veio aqui, sob o beneplácito da emérita Fundação Getúlio Vargas (FGV). A mídia abre espaço à sondagem periódica, é manchete quando algo sai fora da normalidade, porque ele, o ICC, é consanguíneo do otimismo, do preço, do salário, do consumo, da vontade de poupar, da intenção de compra e da capacidade de aquisição. Se o cara está de bem com a vida, confiante, feliz,  empregado, tende a meter a mão na carteira, gastar, ou, ao reverso, se há insegurança na renda familiar, se o emprego está ameaçado, o cobertor encurta, o ambiente fica recessivo. Tudo a ver com a inflação, para mais ou menos.

Falando nela, a inflação, que insiste em desfilar com paetê, pluma e lantejoula na avenida e obriga jurados a interminável bate-boca, um teimoso expurga dela o negativo para turbinar a imagem positiva, outro raivoso inclui nela o indevido para piorar falação que já era muito ruim. É polêmica infindável: depois que se criou o pontual centro da meta, quando o índice sobe, quem olha de baixo vê o copo meio cheio, e, quem olha de cima, o pressente meio vazio, o que não faz o menor sentido, porque - se ela é medida exata - não pode ser questão-de-ponto-de-vista, se afeta a vida de todos não pode ser parte dum mundo-de-faz-de-conta.

É bom que se persiga todo décimo de ponto, porque, em volta do 6%, a subida de preço relativo dá frio na espinha de Mariazinha, a mão de Chiquinho gela, esquenta a cabeça de Mané, porque, sem premonição, valha-nos Deus, fique longe daqui, no infinito, a alucinante espiral inflacionária, que nunca mais surja por perto ninguém se dizendo fiscal credenciado presidencial a fechar porta nem mesmo de bodega de bairro, que a corrida diária à prateleira de supermercado atrás do produto escasso seja notícia em seção internacional de jornal brasileiro, por exemplo, reportando feíssimo retrato da lindíssima vizinha Venezuela, acostumada a brilhar na passarela em concurso de beleza com suas misses.

Elas, as políticas financeira e monetária, também (in)diretamente mexem no dólar, o fazem subir quando interessa lucrar na commodity bruta e qualquer coisa exportada ou, ao revés, empurram acima a cotação da moeda nossa a título de incentivar importação de bens de capital, por exemplo. Também não se fazem nem um pouco de rogada quando um despirocado do mercado desanda a querer desestabilizar regras postas para deixar investidor zonzo: aí, uma, outra ou as duas partem duríssimas em cima de especulador atrevido, a caixa-forte do tesouro nacional se abre, sacam verdinhas que forem necessárias para evitar banguela-de-ladeira-abaixo ou fogo-de-morro-acima na cotação, dão freio de arrumação no bonde descontrolado e deixam a alavanca de marcha no ponto-morto até equilibrar a paridade.

Ao se mencionar a presumida equivalência do din-din, de imediato, irrompe no cartório fulaninha serelepe exibindo certidão de parentesco chegadíssimo às duas citadas, querendo reivindicar participação atuante na rodinha lucrativa, talvez pensando herdar adiante súbito interesse no espólio, sem mérito direto: é a Política Cambial.

Pense jamais que seja esta desimportante, ande a reboque permanente daquela potente dupla de parentes da família ou que lhe esteja reservado o segundo ou terceiro plano na ordem sequencial de relevância. Ledo engano esse. Já foi dito em letra garrafal que aquelas duas afetam positiva ou negativamente a saúde das finanças, são complexos vitamínicos aditivos ou remédios de cura, que - se administrados na posologia indicada - fortalecem ou curam boa parte das mazelas do país. Já no câmbio paritário, o soluto ideal é espinafre puro, daquele que turbina a musculatura do célebre marinheiro Popeye, na verdade, equivale a ouro em pó, ou em barra, de puríssimo quilate.

No cotejo do poder de compra internacional, mesmo parecendo algo esquisito, é válido adotar os preços do hambúrguer ou do refrigerante de cola como referenciais, entretanto, o mercado cambiário é mais que isso, é embate financeiro recomendável só para robusto peso-pesado, que possua alicerce suficiente para se garantir a cada rodada de negociação. Esta luta sempre envolve parceiros domésticos e do exterior, é focado no comércio de importação ou exportação: compra-se aqui, paga-se lá, compra-se lá, paga-se aqui, produto vai, produto vem, serviço é feito, serviço é contratado, serviço é recebido.

Todo dia tem disputa aferrada no estrado da competição entre moedas: umas vão à lona cedinho, outras desistem da luta antes do começo, jogam a toalha; há campeões celebrados (dólar, euro, libra, iene), a plateia vaia, aplaude ou arrepia de dor sentindo o impacto da porrada dada. No final, quando o árbitro pega no braço dos oponentes (bancos centrais e financistas) pode dar empate, mas quase sempre tem ganhador e perdedor declarado. Concluído o apurado, o vencedor pode querer luva adicional, cobrar mais caro do erário, o que vai estourar o bolso cidadão, arrebentar o elo mais fraco da corrente, porque o aro de casa é fragilizado pela dívida oficial alta e poupança interna baixa, enquanto cobre de fora é seduzido à galega, via mais privilégio.

Por outro lado, há um astronômico espaço virtual onde transações entre moedas ocorrem, e, nele, como dito, forasteiro sente-se igualmente atraído por supino resultado, alcançável em único giro terrestre sobre si mesmo ou apenas numa volta do ponteiro maior do relógio. Assim, sob regime de taxa fixa ou flutuante, sempre aparece quem se aproveite da situação e emboque parte do que tem na cotação oficializada, encapsulada na transparente remessa ou no envelope pardo de aceite de divisas, e, implicitamente, no ganho distinto a partir da operação de compra ou de venda, é normal.

Esta rotatividade de máximo giro faz a troca cambiária ser sensível, exige se estar atento à aferição das moedas, de modo que – ao menor ruído, ou se é acesa uma vela no corredor escuro e quando desabrocha rumor de alteração substantiva - o detentor da melhor apólice deve estar pronto - de costume - a trocar de aposento, à noite, de madrugada, e - de cara lavada, bem disposto - acordar noutro lugar de mais encantos, agarradinho nas suas posses.

Nestas ações geralmente vinculadas ao dólar, há senhor respeitoso levando vantagem numa boa, hospedando o que economiza e o que ganha em insuspeito hotel de categoria acima das cinco estrelas, com inimaginável conforto e diária proibitiva a reles mortais. Entretanto, há um pregão meio sem dono, paralelo, dito negro, no qual o lance é deixado a render sem esforço, ao longo do dia, movido pela diferença apreçada entre moeda fraca e moeda forte, de bitola desconhecida. Nesta jogatina obscura, instável, volátil, dizem, imperam o versátil doleiro e a sujíssima lavagem de dinheiro, que se acoitam em hospedaria de má fama, albergue de mochileiro ou motel de beira de estrada, onde ninguém pede documento de identidade.


A dívida enferma, a inflação aleija e o cambio mata, de vera. Daí, se o real ultrapassar o parâmetro razoável, admissível ou saudável - antes que faleça – só resta intervir urgente para impedir o clima de velório, o alastramento caótico da desesperança: o remédio é injetar anticorpos no sistema, os dólares da reserva, extraordinária jazida que bate nos 400 bilhões, preciosíssima  salvaguarda, tão sedutora que remete à lembrança da Piscina-de-Moedas-de-Ouro-do-Tio-Patinhas. Que Deus a guarde para sempre escondida de aventureiros mergulhadores em busca de relíquias a qualquer profundidade, intocada por escafandristas persistentes à procura de tesouros a todo custo.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

À VISTA GROSSA O RATO ROI O QUEIJINHO DAQUI - INTRÓITO, CENA I (DAVI OU GOLIAS?), CENA II (O LEÃO NADA MANSO)

À VISTA GROSSA O RATO ROI O QUEIJINHO DAQUI

Introito

No primeiro round, houve confronto de pouca ideia, bate-boca comedido por fora e iracundo por dentro, polêmica a dar-com-o-pau no debate televisivo, um sendo acusado de nada ter, outra de esconder o jogo e aquela que ficou para trás foi culpada por rabiscar o que escrevera.

Embora o prado tenha sido suado, porrada de cara para valer não teve, mas a plateia cambaleou de ficar zonza querendo encontrar algum nexo naquilo dito todo desconjuntado, foi como achar agulha de bússola de dar norte em palheiro entranhado de tiririca, o desafio era descobrir se - no meio da montanhosa lixaria - havia algo aproveitável, ao ponto de ser reutilizado ou ao menos capaz de ser reciclado adiante.

Agora, desde quinta, 9 de outubro, o festival de promessa velha invadiu de novo a pauta, o blá-blá-blá da propaganda eleitoral nada gratuita volta com revigorado e ampliado escopo, haja ouvido disponível, tenha santa paciência.

É hora de desembaçar as lentes de óculos, enxaguar a vista e botar colírio no olho porque a baixa visibilidade da mistura de tantos alhos com quantos bugalhos turva a pescaria de rede na beirada do mangue: é a lista de intenções ao desplante batizada de plano, de programa de governo, sei lá, qualquer nome serve.

Lance-se profundo ou superficial o anzol com isca e vejamos então o que pode chegar na ponta da vara, pretenso elenco de políticas públicas dos candidatos, muito distante de ideário que se mereça.

Antes, era coisa de academia,  intelectual ou dono de conceito e de modelo de formatação delas para governo, mas por esses dias a proposta se incorpora melhor se vem da demanda da sociedade, onde o bicho pega, onde está  o X do problema. Mais: na hora-da-onça-beber-água, nada ocorre em volta da moldura sem a presença delas, a prioridade na direção do esforço, o tamanho do bolo, da bandeja e de cada fatia do orçamento a ser mordido. 

Logo, é bom ficar de butuca aberta, porque se a coisa ficar preta, na escassez de farinha, o pirão da frente sempre tem espertinho de plantão querendo.

Cena I - Davi ou Golias?

Embora o indicador contemplado não seja aquela Brastemp sonhada, a gente se acha quando irrompe na seleta lista dentre os 6 ou 8 maiores PIBs do planeta: na moral, atira com força no lixo qualquer carcomida ideia de inferioridade, cospe longe o gostinho amargo do preconceito terceiro-mundista, porque dá orgulho se misturar na elite mundial, não se faça de fingido, Meu.

Mesmo que alguma imprensa marrom tente o avanço tisnar, não se está exagerando, pois o bolo encorpou sem fofar imódico pela overdose de fermento, cresceu em termos reais, alguma notinha caiu até no bolso de neguinho que há muito nem moeda tinha para gastar.

É verdade, umas fatias maiores têm como destino agiota come-e-dorme que não merece essa vantagem e abastado esbanjador que disso não precisa, mas ninguém quer voltar no tempo da toda desigual pirâmide com gato-pingado no vértice e larga multidão na base instável.

 É a Política Econômica falando grosso, sim.

Ela revela face macro: o grande número vinculado a investidor global ou a organismo multilateral tipo FMI, o agregado onde só cabe cifra astronômica, o economês do brabo como idioma corrente aos íntimos da  oferta versus demanda, elasticidade, fundamentos, medida anti-cíclica; entretanto, se espelha também no micro: o preço do chuchu, o boom do salão de beleza, o declínio da viagem de ônibus interestadual e a invasão da pele morena não bronzeada de sol em ambiente antes restrito a socialite que torce o nariz e diz que perdeu a graça até em viagem ao exterior mesmo em classe distinta.

Na recente agenda mundial, aqui, ali ou acolá, é crise atrás de crise, zunzunzum diário em bolsas de valores, quebradeira de empresa sem jeito, emprego de farol baixo versus salário embicado para cima, produtividade do trabalho abaixo do normal contrapondo lucratividade do capital em alta.

Na tresloucada corrida da competição com equipes de primeira linha,  aqui tem  derrapagem feia na curva da competitividade e (in)consequente intervenção branca ou negra de governo, conforme  ele regulamenta bem ou mal a relação entre os agentes, corrige de pronto ou em atraso a bagunça pontual ou se mete enxerido onde não devia.

De acordo com a regulagem certa ou errada feita na máquina, se pode subir campeão ao pódio, abandonar a corrida com motor fumegando ao esforço desproporcional ou se estabanar sem freio no guard-rail, se houver.

Mas, sob devida competência e com carteira recheada tranquilo se pode sentar à mesa do ágape internacional, em igualdade aproximada e apreciar o cardápio variado que inclui joelho de porco alemão, sushi japonês, hot-dog norte-americano, rolinho primavera chinês e até feijoada brasileira apimentada, suculenta e colorida, que saliva boca de gringo, mais ainda se regada a caipirinha de cachaça de lamber-beiço.

De fato, o país cresceu, se desenvolveu, progrediu, melhorou, mas é bom reconhecer que parte do sucesso todo vem da abençoada natureza, da riqueza que brota da fértil terra e do generoso minério enterrado por Ele no subsolo dela, mais o crucial esforço da sociedade: a ousadia do pioneiro Barão de Mauá, o valoroso sangue pracinha derramado na II Segunda Guerra lutando pelo aço, visionários modernistas, quixotescos empreendedores, muito anônimo suor heroico, tudo recém-turbinado na estabilidade real, intocável, queira Deus.

Cena II – O Leão Nada Manso

Por ironia ou felicidade, igualmente ou não, existe a Política Fiscal.

Para quem dela discorda, é por ela afetado ou nela mais bota do que tira, é troço mais-ou-menos que meneia na eterna gangorra de altos e baixos, uma engenhoca pendular com ciclo dependente do humor da autoridade que toma decisão quando se lhe dá na telha, uma insulada trolha que envolve milhares de empresas, milhões de pessoas e bilhões de cédulas, na sequência.

Em tese, lá a receita entra (onde se enchem as burras), dali a despesa sai, a máquina se custeia; ela lastreia a estabilidade, chucha no caudaloso manancial da riqueza numa boa e irriga dosado recurso arrecadado onde árido é, por gotejamento pinguinho-a-pinguinho ou por tubulação de grosso calibre, conforme a sede, se ela for justa.

Vive às turras com fluxo de mufunfa, capacidade de pagamento, resultado primário, estoque de dívida e demais itens que cozinham toda hora no efervescente tacho. Dele pode sair destilado de pureza cristalina ou melado de indescritível textura.

Por princípio, ela dependeria de diploma legal proposto e de subsequente aprovação parlamentar, mas a margem discricionária da caneta de mando é mais larga que o Delta do Rio Amazonas, sem falar na medida provisória que antecipa até para ontem o pretendido, empurra prazo adiante à barriga, renova efeito noutras manhosas letras e, afinal, um dia, passa a valer, malgrado estivesse valendo já outrora, para muito aquém do tempo gerúndio.

Tal expedito e adestrado utensilio para meter institucional a mão no bolso do contribuinte atrela-se umbilical à política tributária, essa mesma da qual se fala diário aos borbotões, uma confusão tão danada que só iniciados têm coragem de traduzir a linguagem hermética dela, um conjunto de normas tão intrincado mais parecendo um cipoal que nem Tarzan ousaria nele pendurar-se. 

Uma hora vem a ela o elogio natural de quem é isento ou bem pouquinho paga, noutro instante é a posição equilibrada dos que nela veem a lógica certa de transferência de renda de quem tem muito a quem nada tem e não falta momento à crítica feroz que delata mão grande no pequeno e pequena no grande.

 Ela é o pomo da discórdia entre todo mundo, ninguém com ela está satisfeito, uns acham soberbo que pagam demais e recebem de menos, outros que a arrecadação é de Primeiro Mundo e a qualidade do serviço em troca é até de Quarto Mundo, se ele existisse, ou do imperial Quinto dos Infernos, de desagradável memória, Cruz Credo.


Fisco competente na coleta, sonegador garroteado com nó bem apertado e ordenador austero no dispêndio é o Jardim do Éden, o Paraíso Terrestre, e, em sintonia, os dois obram maravilhas, juntos eles fazem tanto lastro que a Casa da Moeda só imprime o que for obrigado para substituir o papel esgarçado pelo manuseio.

Mas, na mínima discórdia de bastidor entre eles, embaça a cortina, esquenta o pano-de-fundo e no inflamável bate-boca deles faísca voa, pega fogo na plateia inteira, torra-se por completo o imposto, se esfumaça a esperança de futuro, todo cenário vira pó desde já, a qualidade do gasto escorre pelo chão e vaza brecha adentro até o magma, a desigualdade sobe como foguete à estratosfera.