Deve ser isso a felicidade, estado de alma que nos faz chorar, sorrir, num instante, mas pensar, sonhar longe, até a eternidade; deve ser isso a vida, maravilhosa sensação de estar com a família, amigos e quem mesmo ausente em sentimento presente se faça, aqui, agora, como se estivéssemos voando juntos, desde então e para sempre, neste balãozinho azul a flutuar por aí. Ainda bem que Ele, que tudo governa, nos limita e nos amplia, faz de tudo um ciclo, um processo, nos interrompe e nos dá a chance de gerar outra vida, arremessar ao incógnito futuro uma parte de nós, um pingo de gente.
É assim: uma herança de ontem, uma obra de hoje, um projeto que segue adiante. Tem nome, pode ser João, José, tanto faz; tem rosto, não importa o formato, lembra alguém, mas é único; tem voz de timbre e sonoridade próprias, estridente que seja tem som de mágica flauta se quem ela escuta é suspeito por proximidade de sangue ou por benquerença de qualquer origem; se move, um devagar, outro que nem bólido de corrida, este é calmo, aquele hiper-ativo como modernamente se diz; tem gosto que ninguém sabe de onde veio: um é sereno, obedece natural, outro é arrebitado a valer, encara adulto de qualquer tamanho; um se aquieta num canto, outro salta, pula, grita, xinga, fala palavrão, se comporta como se nunca tivesse escutado conselho, nem aquele gritado, nem aquele no pé-de-ouvido.
É assim: o sujeitinho veio pronto, vai se moldando e nunca termina. O que acha de tudo nem ele mesmo sabe ainda, mas tem opinião arraigada, ora, pois. Não se meta a imaginar como ele vai ser um dia, ninguém jamais saberá, essa pretensão só Deus pode ter, não é? Pai ou mãe, avô ou avó, fique na sua, se contente em contar o que ele apronta no dia-a-dia, se delicie com cada gesto, careta, resmungo, silêncio ou barulho. Se quiser dar de comer direito a quem é biqueiro por natureza invente o que for possível, aproveite enquanto ele não se dá conta: simule um aviãozinho na colher, crie um personagem, uma imagem qualquer, mas nunca prometa sobremesa que não existe, nem ofereça quantidade pequena demais, exceto se for um chapeuzinho de marinheiro feito com rodela de banana e pedaço de goiabada, talvez funcione por um um tempo, como numa época distante ocorreu.
Olha só o que o moleque está fazendo! Onde ele aprendeu isso? De quem é esse menino? Pegou uma palmada, pegou? Levou puxão de orelha, levou? Ficou de castigo, ficou?
E você? Deu de mamar, deu? Se lambuzou de cocô trocando fralda, foi? Se fez de bobo para agradar ele, se fez? Virou cavalinho com ele saltitante na garupa, virou? Buscou na escola, buscou? Ensinou o dever de casa, ensinou?
É assim: o tipinho é nós, é você, sou eu, é ele, que está aí, respirando, vivendo, crescendo, para que a gente conjugue o verbo olhar, ouvir, tocar, sentir, babar, se emocionar, orar, agradecer.
Ontem, 29 de novembro de 2013, meu Primeiro Neto, Ian, fez seis anos. Vi, nele, Gustavo, Catarina Emília, Margareth, Milton, Vilma, um monte de gente lá atrás; mergulhei no passado, fiquei alegre, me senti triste, me recolhi, refleti, não tive mais dúvida: ter filhos, netos, viver feliz é isso, no mínimo, graças a Deus. Que Ele lhe dê saúde e muitos anos de vida.
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| Ian, by Papai Gustavo, genética e artisticamente |
