Definidas as regras eleitorais para a campanha de prefeito e de vereador, foi dada a decisiva partida, a contagem regressiva se instalou e alguns candidatos já estão até em desabalada carreira, à frente, por exemplo, quem vai disputar a reeleição.
Nas capitais e/ou nos colégios eleitorais de maior concentração, a meta dos sonhos é encontrar a candidatura ideal capaz de ganhar o pleito municipal de 2020, e, adicionalmente, viabilizar o partido em 2022: a) lastreando o crescimento da sigla; b) garantindo mais deputados estaduais e principalmente federais; c) ajudando a eleger um senador; d) amealhando cacife para a corrida presidencial, já iniciada, como se sabe.
A pulverização de candidatos será o teste-de-fogo para a coligação, que valerá só para o pleito majoritário (o da prefeitura), um cabo-de-guerra na estratégia de agregação de tempo de propaganda eleitoral gratuita (bem-vinda para otimizar a conta), mas que, certamente, acirrará o conflito de naturais interesses políticos locais.
O antagonismo será inevitável porque todos os partidos enfrentarão o mesmo dilema: a) ter de cuidar de si na base-da-pirâmide e b) encontrar candidato viável para ganhar a prefeitura, a prioridade.
Assim, é capaz de o modelo eleitoral do camarão de cabeça descartada para aproveitamento do corpo restante vir a ser invertido, na expectativa de que o prefeito eleito terá poder adiante para construir base de sustentação na câmara municipal, além da chance sempre lembrada de provocar mudanças de siglas entre vereadores.
Como a experiência mostra que prefeitos se reelegem na maioria dos casos, uma evidência tem sido cada vez mais nítida numa disputa competitiva, de concorrência oligopolista, de poucos candidatos viáveis e com capacidade de custeio da campanha: se o prefeito atual não disputa a reeleição, o jogo político se inclina por exigir mais lastro financeiro das legendas partidárias que queiram “ir para dentro das urnas”, cenário mais complicado principalmente para quem vai enfrentar o candidato apoiado pelo gestor que está com um pé fora, mas quase sempre espera fazer o sucessor.
Posto que o segundo turno apenas cabe para municípios com mais de 200 mil eleitores, aqui a eleição de vereador pode ainda perder importância adicional, se o pleito se decidir logo no primeiro turno.
Assim, como não há a hipótese de coligação proporcional, o partido que tiver candidato a prefeito com chance real de vitória, dependerá menos do eventual surgimento de algum fenômeno de baixo para cima, de vereador que arrebente urna, de puxador de voto.
Aliás, na campanha de vereador mesmo em capitais ou grandes cidades, é incomum o pinga-pinga eleitoral, candidato que se espalha geograficamente por várias zonas, muitos bairros, comunidades de distintos perfis ou sem identidade próxima: ao contrário, como a coisa é meio paroquial, a dispersão do eleitorado tende a seguir a pulverização territorial dos candidatos, e, na prática, o que ocorre é a concentração de voto na área de influência do vereador eleito, e a votação dos que ganham vaga se distribui em alguns poucos estratos.
Daí, se pode inferir que vereador de mandato entra na campanha com meio-corpo de vantagem, ainda mais se ele vem de repetidas vitórias, credencial de preferência para parceria com o candidato majoritário do mesmo partido, a menos que este não se garanta de fato e veja naquele uma ameaça potencial em vez de um aliado da hora.
Em oposto, larga no páreo com meia-cabeça à frente o candidato a prefeito que tem vereadores de sólida carreira no próprio partido: quanto mais desses, melhor, e, se tiver nenhum correligionário com esta configuração, tem de ir em prazo hábil ao “leilão dos apoios” ou terá de se “lavar” na “bacia das almas”.
Ou seja: o melhor dos mundos sobretudo para os candidatos proporcionais que vão à luta é ter a oportunidade de ser útil no confronto direto complementar de segundo turno, talvez independentemente de partido ou até mesmo se não tiver sido eleito vereador, mas de posse de votos suficientes, atrativos.
Há outro porém: de olho em 2022, bem acima da visão programática, o embate ideológico pode contaminar a competição eleitoral nas capitais e grandes cidades, com meio-focinho de dianteira para partidos de maior fundo, mais estruturados e/ou de apadrinhamento político bastante (so)pesado.
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