terça-feira, 8 de outubro de 2013

DE VACAS E OUTRAS PARÁBOLAS


Recebi via internet diagrama meio conhecido (de autoria indeterminada), denominado Teoria da Vaca, que usa o ruminante altamente produtivo para esclarecer em linguagem simples de boteco teses políticas complexas, missão tipo impossível, porque tenta definir confusas relações e tênues limites entre público e privado sob socialismo, democracia, comunismo, burocracia, capitalismo, anarquia e por aí vai.
Como fui cobrado por vários amigos das mídias sociais, incluindo ex-alunos Brasil afora, tomo de conta da brincadeira com o mamífero artiodáctilo chifrudo (que já me serviu de fonte de inspiração muitas vezes) e agora compartilho de modo ampliado uma dessas ideias diferentes que tenho usado em sala de aula e em reuniões de trabalho para falar de coisa séria na base da parábola com fundo de verdade.
Todos sabem que o modelo clássico de formulação de políticas públicas parte da identificação de demandas da sociedade e busca atendê-las por meio de programas governamentais, na quase totalidade usando recursos oriundos do orçamento oficial, enfim, com dinheiro do povo, de tributos recolhidos, principalmente da classe média (por retenção na fonte, no caso dos salários), porque ricos pagam menos de tudo (escondidos em espertas pessoas jurídicas ou usando muitas das brechas fiscais) e pobres são alcançados de todo jeito (inclusive pela inflação), tirante o imposto de renda. O perfil descritivo é geral, as particularidades são nossas, tem nosso jeitinho.
Como o estado democrático é aberto, o governo é dependente em larga escala da ciranda financeira para financiar a dívida interna e a frágil administração pública acaba polvilhada por interesses externos enfiados na máquina oficial, na prática, muitas vezes, o que se vê são arremedos do orçamento engendrados no círculo vicioso que mistura capital privado, tecnocrata subserviente e político financiado por lobista, enfim a alocação das prioridades bota o povão na rodinha, em linguagem no popular.
É como se uma vaca fosse cortada ao meio, na vertical. A parte da frente é de responsabilidade da sociedade, que tem de prover (a seu custo) os alimentos (impostos, taxas, contribuições), enquanto o estado, o governo e a administração pública têm função burocrática no processo metabólico (operam a grana auferida e a aportam como prescreve a conveniente lei, o acordo tácito mascarado de política pública ou a mais pura negociata), mas a parte de trás, que gera os benefícios (leite, estrume), especialmente as tetas, fica sob os auspícios dos interesses privados, que transforma tudo em lucro ilegítimo e/ou em riqueza adubada pelo corrompido modelo.
Aí, surgiu um tal de orçamento participativo, uma espécie de praça do povo onde quem comparece apresenta o que quer, alguém anota os pedidos e tudo vai parar num liqüidificador imaginário, cuja mistura é feita com modo de preparo mais oculto que receita de Pastel de Belém e na qual os ingredientes são adicionados na proporção que convém ao resultado previamente definido ou manipulado depois. Ou seja, a vontade da galera expressa no conclave popular, comunitário e/ou de grupos organizados vira um reles assembleísmo popularesco inócuo, um clone muito mal acabado dos irreconhecíveis cromossomos democráticos originais ou um ícone politiqueiro de gênero absolutamente indescritível, um travesti na escuridão da noite mais negra que asa de corvo.
É como se uma vaca fosse cortada ao meio, na horizontal. A parte macia de cima, o lombo, as gorduras e os cortes nobres são apropriados pela elite econômica, política, estatal, governamental e administrativa dos ditos poderes constituídos, dos supostos saberes institucionalizados ou do poderio capitalista cada vez mais concentrado: filé (inteiro, nada de contra-filé), picanha (até maturada) e maminha (palavra melhor não haveria, ela deve vir mesmo do verbo mamar) são a síntese do privilégio. Enquanto isso, a parte pobre de baixo, o osso, a sobra e o que pouco vale vão parar na mesa da periferia da sociedade: vísceras misturadas viram buchada ou sarapatel, rebotalho triturado enche linguiça, mocotó é apresentado como iguaria que dá sustança e a mundialmente famosa feijoada brasileira aproveita tudo que couber no caldo grosso da grande panela. Com cachaça pura no quengo ou sob generosas goladas de caipirinha goelha adentro, sobretudo em clima de festa, a combinação final tem sabor ainda melhor, pode até parecer chique, servir de mecanismo eleitoral em campanha de político malandro pelo interior do país, estratégia com mais de cinco séculos de indiscriminado uso.
Provavelmente, em português castiço, a tal vaca cortada ao meio (na vertical ou na horizontal) possa ser essa tal de parceria público-privada, uma falsa modernidade, uma velha artimanha com charmoso figurino, uma versão ardilosa da casa grande-senzala, uma cruel materialização da dialética elite-massa.
É claro que um dia a vaca vai parar no brejo, a farra do boi vai acabar. Por precaução, acho bom a gente ir modelando o paladar para se adaptar a uma dessas insossas dietas magras ou aderir a qualquer corrente natureba que só come folha plantada no quintal de casa; enfim, buscar proteína em alguma coisa alternativa, porque estilo vegetariano, natural ou macrobiótico anda custando os olhos da cara.

sábado, 5 de outubro de 2013

NOVA CULTURA VIA WEB?


Impressiona o mapa descritivo dos sítios eletrônicos mais acessados em cada país.
Ninguém duvida da importância da internet, nem há condições de se lutar contra o avanço imprevisível das mídias na vida cotidiana: parece ser mesmo uma mistura de Aldeia Global, de Marshall MacLuhan, com o Big Brother, de George Orwell, é comunicação na frente de tudo, muitas vezes ao preço da invasão de privacidade, até da espionagem oficial conduzida sob disfarce da segurança nacional, como se viu nas últimas revelações da grande imprensa internacional.
Fato é que é irreversível a onda que se espraia, mesmo que governos fechados tentem barrar ou circunscrever o uso dos meios eletrônicos e das mídias sociais. É luta inglória de quem quer que seja contra a tecnologia, é batalha perdida para quem tolhe a liberdade de acesso e de expressão que virá de todo jeito ou de algum modo, é malhar em ferro frio se o objetivo se posta em desfavor da natureza humana que prima pela interatividade entre pessoas.
Mas, subliminarmente, há, sim, um processo intenso, sem controle viável e de elevado impacto da internet, dos meios de comunicação e das mídias sociais na cultura universal, a partir do qual - é certo - se estreitam os laços, o tempo encurta, a distância diminui e os espaços se ampliam, sem nenhum paradoxo.
Parodiando o jargão, quem vive vê.
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FOME MORIBUNDA, PROGRAMA INCÓGNITO


Ninguém em sã consciência e fora das cegas paixões partidárias se recusaria a aplaudir a notícia veiculada mundo afora dando conta de que 10 milhões (em 1992 eram quase 23 milhões, em 2013 menos de 14 milhões) de brasileiros deixaram de passar fome, em números redondos. Qualquer contribuinte pessoa física ou jurídica certamente não se manifestaria contrário à ideia de que impostos pagos sejam transferidos como renda a quem tem nenhuma chance de ganhar algo com seu próprio trabalho, circunstancialmente, de uma hora para outra. Simplesmente, é fato, há um estoque histórico de miséria e de pobreza que vem diminuindo há anos, está bem perto de acabar, dizem as estatísticas, antes do prazo compromissado, que era 2015.
É certo, políticas públicas distintas, programas governamentais vários e muita grana do orçamento oficial são a chave-mestra que travou a sangria desumana responsável pelo vicioso ciclo derivado da ignorância, do analfabetismo ou da insuficiente capacitação; foi, sim, essa baba pingada mês a mês que abriu a multidões as portas de biroscas de comida, que deu acesso a muita família às prateleiras de supermercados e que até fez gente entrar em shopping-centers, romper a barreira das vitrines e chegar no caixa da loja pagando coisa comprada.
Nesta seara que é irrigada pela semente da solidariedade, pela percepção de que o bem comum tem prioridade sobre o patrimônio do indivíduo e pela perspectiva de que a riqueza precisa ter caráter social, dúvida não há, a constância de propósitos anos a fio é fator crítico de sucesso, pois subordina os salamaleques políticos e eleitorais aos impactos positivos que os benefícios trazem às pessoas, impede que quem quer que seja meta o bedelho publicamente em desfavor, reduz a chance de que a sempre perversa descontinuidade sepulte boas iniciativas simplesmente porque vieram de outros; se é bom, tem de seguir em frente, ser mantido, ainda que efeitos colaterais danosos surjam onde exista desonestidade tão canalha a ponto de desviar o dinheirinho ao próprio bolso ou mesmo que o proselitismo mais deslavado tente se apropriar como se lhe pertencesse o que é pago pela sociedade toda.
Está bem, valeu demais até agora, o Brasil disso se orgulha.
Então, se a meta de redução de pobreza foi alcançada, a exponencial curva de beneficiados deve ter um ponto de inflexão e deve passar a ter trajetória descendente compatível, a partir de algum momento que não pode ser indefinido, ora.

FOME MORIBUNDA, PROGRAMA INCÓGNITO


Ninguém em sã consciência e fora das cegas paixões partidárias se recusaria a aplaudir a notícia veiculada mundo afora dando conta de que 10 milhões (em 1992 eram quase 23 milhões, em 2013 menos de 14 milhões) de brasileiros deixaram de passar fome, em números redondos. Qualquer contribuinte pessoa física ou jurídica certamente não se manifestaria contrário à ideia de que impostos pagos sejam transferidos como renda a quem tem nenhuma chance de ganhar algo com seu próprio trabalho, circunstancialmente, de uma hora para outra. Simplesmente, é fato, há um estoque histórico de miséria e de pobreza que vem diminuindo há anos, está bem perto de acabar, dizem as estatísticas, antes do prazo compromissado, que era 2015.
É certo, políticas públicas distintas, programas governamentais vários e muita grana do orçamento oficial são a chave-mestra que travou a sangria desumana responsável pelo vicioso ciclo derivado da ignorância, do analfabetismo ou da insuficiente capacitação; foi, sim, essa baba pingada mês a mês que abriu a multidões as portas de biroscas de comida, que deu acesso a muita família às prateleiras de supermercados e que até fez gente entrar em shopping-centers, romper a barreira das vitrines e chegar no caixa da loja pagando coisa comprada.
Nesta seara que é irrigada pela semente da solidariedade, pela percepção de que o bem comum tem prioridade sobre o patrimônio do indivíduo e pela perspectiva de que a riqueza precisa ter caráter social, dúvida não há, a constância de propósitos anos a fio é fator crítico de sucesso, pois subordina os salamaleques políticos e eleitorais aos impactos positivos que os benefícios trazem às pessoas, impede que quem quer que seja meta o bedelho publicamente em desfavor, reduz a chance de que a sempre perversa descontinuidade sepulte boas iniciativas simplesmente porque vieram de outros; se é bom, tem de seguir em frente, ser mantido, ainda que efeitos colaterais danosos surjam onde exista desonestidade tão canalha a ponto de desviar o dinheirinho ao próprio bolso ou mesmo que o proselitismo mais deslavado tente se apropriar como se lhe pertencesse o que é pago pela sociedade toda.
Está bem, valeu demais até agora, o Brasil disso se orgulha.
Então, se a meta de redução de pobreza foi alcançada, a exponencial curva de beneficiados deve ter um ponto de inflexão e deve passar a ter trajetória descendente compatível, a partir de algum momento que não pode ser indefinido, ora.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

FOME MORIBUNDA, PROGRAMA INCÓGNITO


Ninguém em sã consciência e fora das cegas paixões partidárias se recusaria a aplaudir a notícia veiculada mundo afora dando conta de que 10 milhões (em 1992 eram quase 23 milhões, em 2013 menos de 14 milhões) de brasileiros deixaram de passar fome, em números redondos. Qualquer contribuinte pessoa física ou jurídica certamente não se manifestaria contrário à ideia de que impostos pagos sejam transferidos como renda a quem tem nenhuma chance de ganhar algo com seu próprio trabalho, circunstancialmente, de uma hora para outra. Simplesmente, é fato, há um estoque histórico de miséria e de pobreza que vem diminuindo há anos, está bem perto de acabar, dizem as estatísticas, antes do prazo compromissado, que era 2015.
É certo, políticas públicas distintas, programas governamentais vários e muita grana do orçamento oficial são a chave-mestra que travou a sangria desumana responsável pelo vicioso ciclo derivado da ignorância, do analfabetismo ou da insuficiente capacitação; foi, sim, essa baba pingada mês a mês que abriu a multidões as portas de biroscas de comida, que deu acesso a muita família às prateleiras de supermercados e que até fez gente entrar em shopping-centers, romper a barreira das vitrines e chegar no caixa da loja pagando coisa comprada.
Nesta seara que é irrigada pela semente da solidariedade, pela percepção de que o bem comum tem prioridade sobre o patrimônio do indivíduo e pela perspectiva de que a riqueza precisa ter caráter social, dúvida não há, a constância de propósitos anos a fio é fator crítico de sucesso, pois subordina os salamaleques políticos e eleitorais aos impactos positivos que os benefícios trazem às pessoas, impede que quem quer que seja meta o bedelho publicamente em desfavor, reduz a chance de que a sempre perversa descontinuidade sepulte boas iniciativas simplesmente porque vieram de outros; se é bom, tem de seguir em frente, ser mantido, ainda que efeitos colaterais danosos surjam onde exista desonestidade tão canalha a ponto de desviar o dinheirinho ao próprio bolso ou mesmo que o proselitismo mais deslavado tente se apropriar como se lhe pertencesse o que é pago pela sociedade toda.
Está bem, valeu demais até agora, o Brasil disso se orgulha.
Então, se a meta de redução de pobreza foi alcançada, a exponencial curva de beneficiados deve ter um ponto de inflexão e deve passar a ter trajetória descendente compatível, a partir de algum momento que não pode ser indefinido, ora.

Nova Iorque

Alguns anos atrás, na primeira vez que estive por uma semana em Nova Iorque, fiquei impressionado com o tamanho e a diversidade da cidade, mas, desta vez, o caleidoscópio me pareceu muito mais intenso, amplo, distinto, em todos os aspectos, cultural, racial, comportamental. Além da presença maciça de brasileiros a bater perna, tirar foto e encher sacolas de compras, impossível não perceber a mistureba geral nas ruas lotadas de gente, carros, câmeras de segurança e policiais, levas e levas de turistas aos borbotões, principalmente na Times Square, na Broadway e em muitos outros pontos turísticos, quase sempre repletos de ônibus em excursão. Tive todo tempo a sensação de que a vulnerabilidade é imensa, tudo parece incontrolável, nos fazendo ser menor ainda, carentes de coletividade, de se proteger estando em grupo. Até arrastão parece improvável no meio da gigantesca muvuca. O metrô continua bagunçado, mas os taxis se modernizaram, boa parte deles. Um cachorro-quente do tipo mais simples valendo 5 dólares em quiosque de beira de esquina contrasta com a multidão de camelôs vendendo bugigangas falsificadas de grifes famosas nas portas das lojas oficiais, tudo caro, tudo barato. Quando anoitece, barracas iluminadas enchem as calçadas de fumaça, iguarias, temperos, cheiros e sabores de onde se puder imaginar. De resto, é preciso se render à evidência da grandiosidade da escala das coisas, reveladora da exponencial capacidade humana de construção, desenvolvimento, superação, crescimento e, sobretudo, engenhosidade, que se manifesta com toda força nas obras de arte, nas exposições, nos espetáculos, inclusive ao ar livre, com mambembes, tipos excêntricos e fantasistas a troco de dólar, no meio dos coloridos de luzes ofuscantes prenunciando cachês milionários dos eventos em cartaz. É indescritível como magnetizam artistas e admiradores da beleza e do talento das pessoas, torna obrigatória uma paradinha, um olhar que seja.