segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

MONUMENTAL HECATOMBE FINANCEIRA NO PENÚLTIMO DIA DE 2013

Calma, pessoal, a manchete não foi tirada de qualquer veículo da prestigiada imprensa mundial, não houve registro em tabloides sensacionalistas marrons, nenhum blogueiro irresponsável inventou essa notícia e não há sequer necessidade de se investigar nada a respeito, nem pela Polícia Federal, nem pelo FBI e nem pela National Security Agency, a famigerada NSA, que Edward Snowden tenta detonar (sob evidente risco de ele mesmo vir a sê-lo, como diria aquele Jânio, o da Vassoura).

Por saber que a comunidade internacional de investidores vive antenada todo o tempo, fui cauteloso, deixei para divulgar a matéria depois da conclusão dos pregões do dia e do encerramento do expediente bancário, sem prazo hábil para convocação extraordinária do Federal Reserve, nos EUA, ou do Comitê de Política Monetária do Banco Central, no Brasil, buscando manter estável até o eixo de gravidade terreno, enquanto a noite se ocidentalizava totalmente.

Explico melhor. Na verdade, foi só uma brincadeirinha que começou dias atrás e quase se expandiu como fogo de palheiro nas mídias sociais, não tivesse circulada em âmbito restrito a amigos e familiares, o que felizmente me livrou de algum delegado excessivamente rigoroso, promotor zeloso demais ou jornalista bem maldoso distorcer, amplificar ou sensacionalizar o ocorrido, a troco de notoriedade, como às vezes se dá.

Eis que - precisamente em 19 de novembro - postei nas mídias sociais breve comentário, meio despretensioso, mas em tom de carinhosa provocação a casais muito queridos (atenção Denise e Carlos, vou cobrar, oportunamente), dizendo: "Estou no terraço da Casa de Brasília, balançando na rede com meu netinho Cauê, que dorme solto. Alguém sabe calcular quanto é isso na Bolsa de Valores do Mundo dos Avós?"

Não foi surpresa a quantidade de respostas postadas em seguida, que agora transcrevo, data vênia dos manifestantes.

Minha amiga, obstetra e avó Eugênia Moura, reagiu logo: “sem preço, cotação elevadíssima, impagável”, disse ela, sorrindo, lá de muito longe, de Roraima, de onde vieram abraços saudosos de outra boa amiga, Gel Nascimento. Meu colega de turma da PUC RIO, Luis Oliveira e Silva (o CAP 3 faz já-já 40 anos, é mole?),  lascou no inglês: “priceless”. A avó de Cauê, Dodora, mãe de Kenia (esposa de Andreas Cauê, o pai), completou que "não tem preço, mas traz bastante felicidades”; minha prima Jô Souza falou "é incalculável”, as conterrâneas Mônica Pinto (a linda Aracaju está quase tomando ela dos pessoenses) disse que é "imensurável" e Ângela Araujo (da Dinastia do Recanto do Picuí, a melhor carne de sol do mundo) chamou de "tesouro", enquanto nossa amiga brasiliense Lívia Maíra se dirigiu a mim carinhosamente como avô-coruja, porque “tenho um neto gostoso” e Maurilinho Medeiros, o Rei da Fava, desejou “alegria, saúde e sucesso”, é pouco?

Tanto não era pouco que fui forçado a dizer àquela altura da coisa que o pregão de ações desse tipo sempre dispara adoidado, pois cota os lances em moedas universais, o amor, o carinho e a felicidade, quer mais?

Sim, muita gente quis mais, veio mais repercussão. As amigas Sílvia Reis e Keyse Siqueira afirmaram que “não tem preço nenhum”, igualzinho às sobrinhas Paula Cabral (a data do casório é aguardada) e Roberta Magalhães (intimada a levar o filho na Casa da Praia do Poço), a Rangel Souza (saudades recifenses), à prima Roberta Montenegro (Doutora, como está seu pai?) e às cunhadas Raquel Cabral (quem casa primeiro, Thomas ou Yuri?) e Dulce Magalhães, que ainda completou: “é um investimento incalculável, porque envolve uma moeda forte chamada Amor”. Quem sou eu para duvidar? Muito menos após o amigo José Marcos Farias dizer que se trata de “valores infinitesimais, pois o amor dos avós transcende a qualquer paixão”.

Realmente, é legítimo associar a circunstância de se ter neto à sensação de felicidade, como registrou Virlanda Diniz (a todos nós Deus abençoe, amiga) e Rafael Batista (que ainda não é avô), ou provar que são "incalculáveis esses momentos únicos" com filhos de filhos, demonstrar que "eles valem tanto quanto a Monalisa", não é Nailde Helena? É tão fácil o vinculo entre ser feliz e ter neto que meu querido ex-aluno boavistense, Rudson Leite, repaginou o indicador de Felicidade Interna Bruta, o FIB, da Organização das Nações Unidas (ONU), com a concordância do ex-baiano (será?), meu amigo Gustavo Abreu, que escalou o Monte Roraima e me deixou invejoso numa boa.

Mas - como felicidade é coisa que se calcula de dentro para fora, olhando acima, onde está o referencial divino que tudo norteia - eu discordei levemente dos dois. Para mim, a sigla deveria ser IFP -  Índice de Felicidade Pessoal, restrito, individual e específico, porque se a ONU conseguisse somar as parcelas (ainda que contemplasse apenas alguns avós por aí afora), o montante convertido em dinheiro transbordaria os cofres dos bancos mundiais
, pois aplicações feitas em moedas cunhadas no coração (que lastreia o amor, a verdadeira língua dos homens, como diz a Bíblia) são tão rentáveis que nem bancos suíços têm coragem de estimar um prêmio de seguro correspondente.

Ora, se a mansidão de Boahil Mendes batiza de "pura magia" instantes junto de netos, se a mineirice de Eleuni Melo (amigo, também não achei a fórmula e estou vivendo tudo de perto) chama de "desafio saber a dimensão do tesouro", se a sabedoria carioca de Eloá Braga Pierre (estou aproveitando os momentos com os netos, viu?) diz que "o retorno do investimento aparece depressa no prazer, no sorriso e no brilho dos olhos", se Socorro Lima (com as bençãos sertanejas de Santa Luzia) afirma que "curtir netos é viver bem a vida" (apoiada por minha irmã Rosemary, que a filha Stephanie insinua estar querendo ser avó) e se a querida amiga maranhense Marlene Sá (Salve a Baixada, em todos os sentidos) calcula que "dinheiro algum paga esse maravilhoso sentimento", fui me convencendo naturalmente e depressa de que ser avô não tem custo e – consequentemente - não tem preço.

Para completar, meu sobrinho Agenor Cabral (Agenor Natuba, de uns tempos para cá) diz "ter fé em realizar o sonho de ser avô", o poeta Cícero Melo antecipou que o "será neste dezembro" (queira Deus tenha chegado saudável a descendência e que a resposta prometida a mim em versos venha logo), Iremar Marinho avisou que "já tem quatro netos" e eu informei que tenho por enquanto três príncipes (Ian, Jean e Cauê), uma princesa (Anne Margareth) e a segunda neta a caminho, a princesa Isadora (vai ser a primeira com esse nome?).

No fim, quando o casal Leandro e Simone enviou mensagem apontando que "tudo valia mais do que Eike Batista sonhou em ganhar", eu - apesar de achar que o falido empresário torou na emenda, diferente de netos, que são para sempre, graças a Deus - vi  claros os indicativos de que o sistema financeiro mundial iria mesmo se espatifar rodopiando na incontrolável ciranda, tamanho era o impacto, nela, do valor, fortuna, botija, relíquia, achado, desse pote de ouro no fim do arco-íris: os netos, de todos os avós, não só os meus.

Portanto, mantendo a prudência devida, antes que me esqueça ou seja mais uma vez cobrado pela imperdoável falha original, publiquei junto o instantâneo nosso (meu e do netinho Cauê) dormindo na rede, a prova documental de que o título desta postagem se justifica, pois-pois. Além disso, para não incorrer em crime nenhum nem deixar margem para amigos e parentes acharem que enlouqueci a ponto de atirar pedra na lua, proponho e solicito preventivamente que – na hipótese de alguém questionar a divulgação inicial feita, entrar com ação na justiça ou simplesmente querer me desacreditar na família ou em círculos próximos  das mídias sociais – retifiquem a manchete para:


BOLSA NOVA-IORQUINA QUEBRA DE NOVO E BANCARROTA INTERNACIONAL SE ALASTRA IGUAL TSUNAMI DEVIDO A IMAGINÁRIO TÍTULO ESPECULATIVO LANÇADO NO MERCADO POR AVÔ BOBÃO, DE CORAÇÃO MOLE E MENTE FÉRTIL.


sábado, 28 de dezembro de 2013

CAUÊ 1 ANO

Casar, plantar árvore, ter filho, diz-se que é o fluxo natural da trajetória nossa aqui nesta esfera que gira. Não importa a ordem, nem sempre é o que se dá, mas ouso dizer que filho resume o significado de tudo, ser dois em um, é amálgama, semente, fruto que viceja hoje, resgata antepassados, empurra a gente adiante, ao futuro.

Na gravidez é sempre o mesmo: espera, ansiedade, surpresa a cada mexida, sobretudo torcida e oração para que venha saudável. Quando nasce, é inevitável pensar com quem se parece, de quem são os traços, a cor dos olhos, cabelo ou pele, o formato do rosto, do corpo, pés e mãos, a quem puxaram a boca, nariz e cada dedo, traços físicos que a infalível genética aponta logo de cara ou revela no passar do tempo. A família cresce, novas atividades vêm, círculos se alargam, nada é igual a cada dia, mas chegar aos doze meses é maravilhoso, simbólico para cada criança, acho que abre de vez o ciclo da vida para toda a família, o milagre cotidiano de acordar, respirar, dormir, trabalhar ou nada fazer, ir ou vir, sorrir ou chorar, ter sonhos ou encarar a realidade.

Ontem, 15 de outubro, Cauê fez 1 ano. Este primeiro aniversário tem algo mais, traz lembranças, exibe felicidade, impõe reflexões para nós, famílias, parentes amigos, colegas e uma infinidade de gente espalhada mundo afora, perto e longe. Para as famílias Cabral/Magalhães e Tavares/Pinheiro, principalmente para Andreas Cauê e Kenia, nosso Cauê materializa o milagre da vida, o maior presente que podíamos ter recebido, a prova inconteste de que Deus existe e Sua bondade é infinita. Certo de que falamos em nome de todos, eu e Margareth queremos compartilhar este inesquecível momento de alegria que a graça Dele nos concedeu.

MONTREAL 2013

Não é de agora que venho compartilhando com família, amigos e colegas: o mundo é pequeno, redondo, gira, de vez em quando passa no mesmo lugar, querendo todo o tempo nos falar que tudo é transitório, efêmero e fortuito, que temos de aproveitar intensamente cada instante vivido, cada lugar visitado e, sobretudo, cada pessoa com quem convivemos como se pudéssemos congelar de uma hora para outra a roda da vida, este maravilhoso dom que Deus nos presenteou de graça, o maior de todos os motivos que temos para a Ele agradecer, a cada dia, sempre.
Quando nossa filha Bertha Carolina, há três anos, disse que gostaria de passar uns tempos no Canadá, aprender outro idioma, quem sabe abrir novos horizontes, não tivemos dúvida nem medimos esforço em apoiar a decisão dela, acreditando que as coisas seriam mais uma vez guiadas pela Mão Divina que a todos protege. Nossa família em especial sabe disso, a compreensão e o carinho de Andreas Cauê e Kenia, de Catarina Emília e Gustavo, dos parentes e amigos foram decisivos.
Ano passado, em junho, fomos todos presenteados com o nascimento do netinho Jean, nossa família cresceu, passou a ter um ramo canadense (igualmente bem vindo), com Alex, John, Cathie, Hailey e Andrew. Estivemos eu e Margareth aqui, fomos muito bem recebidos.
Em julho deste ano, outro presente maravilhoso: Anne Margareth. Não pudemos estar presentes no nascimento, mas, nos últimos 40 dias, desde 4 de setembro, foi maravilhoso desfrutar da companhia de todos aqui, mais uma vez. Agradecemos a hospitalidade irrepreensível em Montreal e em Saint-Lazare, nos sentimos à vontade, adoramos a casa de Alex e Bertha Carolina. Hoje, 14 de outubro, de volta ao Brasil, mas, se Deus quiser, voltaremos, porque - como se diz na minha terra - isso aqui está virando caminho de rato, ora.
Agora Ian e Cauê têm mais um primo e mais uma prima, mais um tempinho, Catarina Emília e Gustavo vão nos brindar com outro nascimento, mais uma obra-prima Dele, como diz Margareth.
Estamos torcendo para que tudo dê certo na vinda de Andreas Cauê, Kenia e Cauê a Montreal, próximo mês, enquanto esperamos Alex, Bertha Carolina e Jean, no Brasil, de novo, agora em João Pessoa, com Anne Margareth, se Deus quiser.



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JEAN, 1 ANO

Hoje, 21 de junho, em Hudson, Quebec, Canadá se está comemorando 1 ano de nosso netinho Jean Magalhães Oster. No nascimento, compartilhamos a alegria da chegada dele junto com a família e amigos canadenses, durante um mês inteiro, em Montreal, No início deste ano, em Brasília e em João Pessoa, muitos de nós da família e dos amigos brasileiros tivemos o privilégio de estar com Alex, Bertha Carolina e Jean, por maravilhosas semanas, Agora, estamos curtindo nossas saudades, não estamos lá soprando a vela do bolo, mas - de coração e espírito alegres - todos estamos muito felizes e daqui enviamos nossos parabéns. Que Deus o ilumine e estenda generosa benção aos nossos queridos familiares.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

RENATO, SIMPLES ASSIM

Principalmente lá pelas bandas nordestinas, além dos Cabral de minha esposa, eu conheço muitas famílias de prole avantajada, que - para contar seus rebentos - precisam de mais que dos dedos da mão e que enfrentam o desafio de lembrar dos nomes de todos criando regras mnemônicas, na base do apelido ou simplesmente enumerando eles, na sequência, até em francês (un, deux, trois, por aí vai), como fizeram conhecidos potiguares, os Rosado, todos aqui mencionados com máximo  respeito.

Minha família, não; longe de ser grande, é apenas de tamanho médio, para os padrões de antanho: tirante dois prematuramente falecidos (Ramon, aos poucos meses de vida, e Ruth, quando se ia bacharelar em direito) que deixaram vazios impossíveis de serem preenchidos, tenho apenas uma irmã, Rosemary, oito anos mais nova, e apenas um irmão, Renato, dez anos mais velho que eu, diferença que parece bem menor se estamos lado a lado, ele bem mais conservado (é o que dizem a mim mesmo), talvez porque seja tranquilo e dirija a 20 km por hora, certamente porque é sábio, meio indiferente a esse mundo louco.

Justo esse Renato é que, hoje, 26 de dezembro, faz aniversário e me fez mergulhar de cabeça na memória, resgatar cenas longínquas, buscar inspiração sei lá onde e rabiscar palavras seletas para descrever inesquecíveis lembranças que quero compartilhar sobretudo com familiares e amigos, com a devida licença, prévia, acredito.

Bem que eu gostaria de ir bem atrás, nos meus tempos de engatinhar, porque desde os primeiros passos trago ensinamentos dele, mas - logo me desculpando - só consigo puxar do fundo do baú coisas de meio século, por aí, muito pouco na cronologia das doces reminiscências da infância e da adolescência da gente, que nunca deveriam se esmaecer, nem mesmo se e quando envelhecidas.

Graças a Deus, são estórias lindas, que me dão nó na garganta, me trazem lágrimas aos olhos e me enchem o coração de alegria. Nada dessas encrencas no meio de vendavais de grana que fazem irmão desconhecer irmão (como diz o samba de Paulinho da Viola), nem aquelas horrendas tragédias bíblicas de ódio e inveja tipo Caim e Abel.

Sim, não nego, para um moleque desobediente como eu fui, ter em casa um irmão todo certinho, bem comportado e disciplinado nos estudos era um baita incômodo, um modelo referencial que amplificava minhas estrepulias. Era toda hora se repetindo que eu devia ser igual a ele, dormir cedo e parar num canto, em vez de viver jogando pelada na rua, andar horas a fio nos mangues do Porto do Capim pegando caranguejo ou varar noite adentro tocando violão na farra. Aquele cotejo me incomodava um tiquinho, era verdadeiro, mas acho que às vezes me sentia literalmente a Ovelha-Negra-da-Família, que Rita Lee imortalizou na MPB.

Miro, José Marcos Farias e outros vizinhos contemporâneos da saudosa Rua Padre Azevedo, no Varadouro (o nome do bairro é esse mesmo), são testemunhas de que Renato não conseguia evitar minhas travessuras, me segurar quieto, me impedir de mexer no que tinham, me meter nas brincadeiras deles, até as bem perigosas, como no dia em que montaram um canhão, acenderam o pavio, esqueceram de me amarrar com força e não deu outra: soprei no buraco do artefato quase bélico, a trolha explodiu com tudo, foi pólvora para todo lado, rostos ficaram cinzentos, ouvidos ainda guardam o estouro e a vista de alguns por milagre não foi para sempre perdida.

Era meu anjo da guarda nos jogos de futebol. Ele (que lembra Garrincha na fisionomia) dizia a todo mundo que eu era craque, torcia por mim a valer, só faltava pisar o gramado junto, chutar a redonda comigo, também emplacar o gol, coisa de irmão, claro. Aliás, muitas vezes chegou de fato a entrar em campo, fosse para me afastar, quem sabe me defender ou de vera tomar minhas dores no meio dessas brigas de bola, algumas delas iniciadas exatamente porque zagueiros me caçavam, tentavam me barrar na porrada, no tranco e na falta desleal, pois nada conseguiam fazer com a bola nos pés, já que ela nunca estava nos deles, só nos meus, desculpem a imodéstia.

Acho que ele desconfiava, se sabia nunca me disse de frente e agora estou certo de que vai me perdoar pelas incontáveis vezes em que – sorrateiro, ávido por conhecimento e com alguma chave encontrada em casa ou gazua improvisada feita com tralhas em desuso – eu abria a estante de livros dele, corria ligeiro e fascinado os olhos naqueles deslumbrantes fascículos da Tecnirama e da Segunda Guerra Mundial, ora sedento por compreender como funcionavam complexas gerigonças da época (agora, peças de museu) ou degustar croquis de magistrais inventos de Da Vinci e de outros gênios da humanidade, ora marchando na imaginação com Tropas Aliadas para libertar do horripilante nazismo Paris, Varsóvia e Stalingrado ou vivenciando batalhas históricas em Monte Castelo, Iwo Jima ou no Desembarque da Normadia, no Dia-D. Se houve culpado nesse meu assalto literário foi ele mesmo, que se descuidou ao escolher um móvel com portas envidraçadas deixando à mostra o tesouro, a biblioteca. Eu, de minha parte, sou inocente, tenho consciência de que mereço misericórdia, pois fui expressamente autorizado pela Santa Maria da Curiosidade e pelo Santo Protetor das Crianças Trelosas.

Não me envergonho de revelar que usava camisas dele para dar uma voltinha nas redondezas, ir a festas (assustados, assim se chamavam elas) me sentindo na moda ou talvez impressionar a namorada parecendo ser maior do que era. É verdade, meu guarda-roupa era franciscano, muito franciscano, põe franciscano nisso, mas, em minha mente, me achava bonito naquelas vestes, embora faltasse bastante massa corpórea para encher manequim bem acima do meu, como ficou provado anos depois quando Margareth me disse que notava a eloquente desproporcionalidade, mas disfarçava, nada falava, discreta como sempre foi, certamente para não me desagradar.

Quando meu irmão foi estudar na famosa Escola Politécnica de Campina Grande e voltou de lá diplomado com aquele enorme anel azul no dedo minha admiração foi tamanha que se fosse medida num desses visores analógicos o ponteiro de marcação estaria girando descontrolado até este momento. Para ele, foi um sonho transformado em realidade, levou junto toda a família, meus pais se encheram de legítimo e indisfarcável orgulho, acho que lutaram toda a vida por isso, choraram de emoção toda a vida por isso. Para mim, foi tanta influência que na primeira oportunidade surgida - mesmo sem vocação suficiente para pranchetas, réguas de cálculo e teodolitos – até engenharia fui cursar na UFPB.

Já ele casado, morando então na Rua das Trincheiras (já não se tem mais ruas de tão lindos nomes, não é?), ainda bem que achei um jeito de me manter por perto, sem importunar os dois (Dulce aprovava, isso bastava). Como poderia eu (ou qualquer mortal) viver sem escutar aquelas esplêndidas coleções de discos clássicos que – mansas, disponíveis e generosas – estavam lá à espera de quem as quisesse ouvir? Era o que fazia, tardes inteiras, enquanto eles estavam trabalhando: deitava no chão limpo, ligava a vitrola e voava alto com as retumbantes sinfonias de Beethoven, o piano macio das melodias de Chopin e as tocantes árias das dramáticas operas italianas.

É assim a vida, é disso que ela é feita, de pessoas que nos marcam para sempre, de circunstâncias que tudo desenham em definitivo e de relógios que jamais engripam e deixam inexorável seguir o tempo, o meu, o seu, o nosso.

Querido irmão Renato, parabéns. Saúde, muitos anos adiante. Sinta-se carinhosamente abraçado. Muito obrigado por tudo. 

PS: foi impossível estar junto com você e sua família, mas - parodiando o Tremendão Erasmo - espero que estas mal traçadas linhas expressem de certo modo o que é amor fraternal.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

FELIZ NATAL AO AVESSO DO GORDUCHO LAPÃO









Eu não nasci no Pólo Norte, não tenho vasta barba branca, não sei escalar paredes para entrar fortuito por chaminés na calada da noite, nem tenho sacolas de moedas de ouro para ajudar quem passa dificuldade financeira, como fazia São Nicolau, dizem. Minha capacidade de vender ilusões é próxima de zero, nunca andei de trenó puxado por renas, conheci neve só de raspão em alguns lugares: achei inusitada, interessante, até meio mágica, por assim dizer.


Diferente do tal Bom Velhinho, sou da beira do mangue, fui rato-de-praia, carrinho de rolimã e patinete de madeira eram meus brinquedos de movimento, que pilotava mirando destinos de infinita lonjura e endereços de entrega viável para miniaturas de caminhões de lata cheias de biscoitos Pilar (o gostinho deles está na boca até agora), ansiosamente esperadas a cada ano quando meu Padrinho Leal vinha me presentear.
Os anos muitos me trouxeram proeminente alça de gordura que dá a volta na pança tendo o umbigo como referência, resultado de quilos a mais e adiposidades teimosas, mas – longe de ser barrigudo ou obeso como os clássicos imitadores que atraem para compras dessa época – ainda sou capaz de aguentar sem culpa nem grandes traumas a comilança, perus recheados de tudo que engorda e montes de panetones achocolatados.
Tenho certo sotaque, uso linguagem típica, falo alto, às vezes sou meio espalhafatoso, minhas exclamações não são comedidas, mas Rô-Rô-Rô para mim lembra aquela Ângela que compôs melodias pesadas, de dor-de-cotovelo, daquelas que fazem veias pularem como pipoca na panela quente e olhos ficarem encarnados de tanto choro.
Vermelho não é minha cor preferida, mas gosto do branco e acho boa a combinação delas duas, talvez porque em Pernambuco sou Náutico e por causa das listras alvas nas camisas do Belo (Parabéns, Campeão da Série D) e do Glorioso (Tô na Libertadores!), minhas primeiras paixões futebolísticas, algo distante das preferências esportivas de quem vem dalguns lugares gelados e pouco afetos à Copa do Mundo.
Não me chamo Papai Noel, nem distribuo coisas em embalagens coloridas com laços de fita afora. Esse consumismo maluco de fim de ano não me agrada, mesmo que os tempos natalinos contaminados pelo comércio tenham certa de dose de partilha, generosidade, doação. Prefiro atender pedido sorteado de aluno carente de escola pública feito aos Correios, enfiar grana nestes maravilhosos projetos solidários tipo Médicos Sem Fronteiras, aderir a campanhas da minha igreja, pois – desse jeito – imagino fácil a lágrima de emoção do abraço dado a quem se ama sem conhecer, os olhos brilhando de crianças recebendo presentes anônimos, a felicidade de velhinhos em asilos perdidos de alma disponível a visitas de sensíveis estranhos nunca antes vistos.
Meu nome não é Santa Claus. Sou um Joãozito bem pessoense, paraibano, nordestino, brasileiro, gente do mundo simples. Ah, sim, que nem ele, eu uso óculos com um monte de graus, mas a lente não chega a ser fundo de garrafa, nem a armação fica pendurada na ponta do nariz. Meus olhos não são azuis, eles constavam na antiga carteira de identidade como sendo castanhos; não sei nem de que raça sou, pouco me importa se minha pele tem melanina, se fica quase negra no sol e não me toco se ela – quando do astro-rei se esconde – desbota a ponto de se tornar meio cor-de-burro-quando-foge, indefinível, sem graça, eu diria.
Em Brasília, nos platôs centrais do Brasil, onde hoje moro, de vez em quando faz frio, mas nunca abaixo de zero como acima do Trópico de Câncer, na calota polar. Com todo respeito a quem vive lá nas alturas do mundo ou anda rodeado de pinguins na vizinhança, aqui, torrando entre o Equador e o Trópico de Capricórnio, me sinto bem, melhor ainda quando perambulo sem camisa, descalço e de sunga de banho na Praia do Poço, meu pequeno paraíso onde o Sol Nasce Primeiro nas terras americanas, a Paraíba.
Eu sonho, tenho utopias mil, ainda acredito nas pessoas, sou mesmo religioso, vou à missa, rezo antes de dormir e depois de acordar, me benzo quando passo defronte de templos católicos, pedia a benção a meus pais, tios e avós, costumes que tento passar adiante à minha turma, ora sutil, ora veemente, esperando que entendam a vida como sagrada passagem de bastão, um ritual divino herdado sem custo qualquer e de incalculável valor, inclusive para quem nem sabe o que é ter fé, crê em qualquer entidade ou a nada dá crédito.
Portanto, como o Menino Jesus é universal, diferenças nos fazem iguais, afetos humanos eliminam extremos e a data Dele é de todos e de cada um, independente do lugar onde nasça, da cor da pele, olhos ou cabelos, seja qual for as posses ou valores que tenha: é a festa da cristandade, da humilde manjedoura, das estrelas que guiam passos, da realeza sem trono, do poder transformador do coração, enfim, do amor ao próximo, como querem todos os credos.
Então – em meu nome,  de Margareth, dos Cabral Magalhães (Catarina Emília, Bertha Carolina, Andreas Cauê, meu Maravilhoso ABC) e das nossas muito bem-vindas, queridas e abençoadas porções Roberto/Soares (Gustavo, O Rei do Churrasco, e Ian, Meu Primeiro Netinho, que aguarda a chegada de Isadora, a Segunda Netinha, se Deus quiser), Tavares/Pinheiro (Kenia, Mais que Nora, Filha de Coração, e Cauê, que enfrenta sorrindo qualquer baixa temperatura, porque o DNA também vem das terras altas de Natuba e Macaparana) e Main/Oster (Alex, Mais que Genro, Filho Vindo de Longe, Jean e Anne Margareth, Alô Canadá, Montreal e Saint Lazare, Aquele Abraço) – Feliz Natal é o que desejamos a todos os parentes e amigos, extensivos às suas famílias, também elas nossas, graças a Deus.