segunda-feira, 19 de outubro de 2020

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

LUMINOSIDADE DIFERENTE

Do outono nublado e de temperatura baixando de Montreal, não tive notícia precisa do programa de hoje da nossa porção canadense, mas em Brasília foi tarde quente e seca típica da época, os dois casais de filhos vizinhos fanáticos rubro-negros da família assistiam o time deles jogar na televisão, Margareth estava de olho aberto na netalhada se esbaldando na piscina lá atrás e de repente me atirei de cabeça sem desconfiar o porquê meio século numa cena distante de um cafundó a mais de dois mil quilômetros, que foi meu doce exílio em amargosos anos parecidos aos de agora.

A coisa tem quase nada a ver com o tipo de acontecimento natural de fim de semana de metrópole de cerrado de planalto, mas cabe que nem uma luva macia a reflexão da memória emergida.

Domingo é dia de acordar mais tarde em todo mundo, mas não naquele lugarzinho para mim tão significante, encravado fundo embaixo das serras das uvas e das bananeiras que um dia tiveram primoroso café de montão à sombra de majestosas árvores.

Em Natuba, o mercúrio passou molinho de trinta graus, a umidade foi ao meio da escala e decerto havia candidato na rua cabalando voto a troco de promessa que a gente só crê porque esse caríssimo preço da democracia é mais barato do que qualquer ditadura.

Ali, quando morei no antigo ex-posto de saúde, era dia de feira, de barulho, de matuto arrastando pés, de cascos de cavalo trotando nos paralelepípedos, de caçuás pesados nas cangalhas de burros repletos de mangaios para entregar, vender e trocar.

Mas, eu, que intimidade com tudo aquilo tinha igual a fazer enxertos de pé de suculenta laranja-de-umbigo ou tirar leite de vaca no esguicho, acordava cedo também, à minha moda.

Sim, domingo era dia de ouvir, de ver e de curtir a vida no largo da Igreja de Nossa Senhora das Dores, cedinho, tanto que – antes de levantar, ir no banheiro fazer xixi ou escovar os dentes – saudava eu sorridente cada feliz manhã domingueira sob inspiração dos Beatles e de uma obra-prima do quieto George.

Ainda que debaixo de chuva, o que não era novidade por lá, os acordes de Here Comes The Sun (https://youtu.be/KQetemT1sWc) abriam suaves para mim todo domingo os tímpanos e a esperança de que a luz sempre volta a brilhar em qualquer dia ou lugar, até na friorenta noite natubense, simbolicamente.

Sim, sentia falta da paixão que estava longe, mas não vivia triste ali: de algum modo, me vinha alegria que fazia tudo ficar bem, compensando as lacunas, preenchendo as carências com os garotos de Liverpool e, no caso, com os versos do guitarrista da banda, que eu ousava tentar às vezes imitar dedilhando no meu Di Giorgio, inseparável amigo das horas de solidão.

O meu Transglobe Philco me falava do que se passava fora daquela acolhedora brenha, pela VOA eu sabia que estava desabando napalm no Vietnã para ter ideias nos papos com Donald (o gringo que morava lá, não o tosco ocupante da Casa Branca que odeia negritude) e pela grandiosa Rádio Clube de Pernambuco chegava notícia da nossa tensa e escura realidade política, mas – fosse ruim como era ou até pior do que se sabia depois de crivado pela censura – os cabeludos ingleses eram um alento e a harmonia magistral daquela faixa do Abbey Road carregava leveza, era um bálsamo de cura, uma benção entrando pelas oiças, balançando os miolos e tocando o coração.

O repertório de autoria dele era menor em cotejo com Lennon e McCartney, mas aquele toque sutil nas cordas da Fender no solo que entremeava o refrão me despertava uma sensação de paz, me levava junto com ele aos gurus indianos que admirava e seguia, era pura mansidão, um grito de luta contra a nojenta guerra, uma ode à não violência que me cativou desde então.

Por uma centena de semanas da temporada que estive a escutar sem cansaço naquele quartinho a melodia que trazia o sol a mim, jamais alguém me pediu para mudar o disco nem perguntou o que diziam os versinhos cantados naquela voz de sussurro e numa língua tão estranha, mas acho que a fraterna solidariedade ao povo faminto de Bangladesh por trás da barba e do bigode dele eram audíveis e inteligíveis do mesmo jeito ali onde pouco havia igualmente, a ponto de dar dó de cortar alma de quem notasse.

Se as estrofes aparentemente ingênuas de Harrison que falam de um amor idealista e de sóis repetitivos que nos aquecem por dentro me levaram a Ravi Shankar e me ajudaram a refletir o quanto ariscos momentos duram por décadas, espero que todos neste domingo ainda teimoso de inquietante pandemia tenham por semelhança, mas à sua própria sensibilidade, podido descobrir hoje a dádiva de se estar vivo.

Que Deus o tenha, George Harrison, e que o seu brilho por aqui nos afaste da treva. Amém.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

ALEX APRESENTA ESCULTURA JAIME PLENSA EM MONTRÉAL

via IFTTT

via Blogger https://ift.tt/3ksZF6B

via Blogger https://ift.tt/2FFuTbN

via Blogger https://ift.tt/3kvANei

via Blogger https://ift.tt/2FK395M

via Blogger https://ift.tt/2ZO8wbj

via Blogger https://ift.tt/3kwrCdY

via Blogger https://ift.tt/33DMr05

ALEX APRESENTA ESCULTURA JAIME PLENSA EM MONTRÉAL

via IFTTT

via Blogger https://ift.tt/2FHsOfF

via Blogger https://ift.tt/3kqhOSz

via Blogger https://ift.tt/3hIqJgg

via Blogger https://ift.tt/3c8ru14

via Blogger https://ift.tt/2REIkLu

via Blogger https://ift.tt/3myNAyE

via Blogger https://ift.tt/35UOT4S

ALEX APRESENTA ESCULTURA JAIME PLENSA EM MONTRÉAL

via IFTTT

via Blogger https://ift.tt/3ksZF6B

via Blogger https://ift.tt/2FFuTbN

via Blogger https://ift.tt/3kvANei

via Blogger https://ift.tt/2FK395M

via Blogger https://ift.tt/2ZO8wbj

via Blogger https://ift.tt/3kwrCdY

ALEX APRESENTA ESCULTURA JAIME PLENSA EM MONTRÉAL

via IFTTT

via Blogger https://ift.tt/2FHsOfF

via Blogger https://ift.tt/3kqhOSz

via Blogger https://ift.tt/3hIqJgg

via Blogger https://ift.tt/3c8ru14

via Blogger https://ift.tt/2REIkLu

via Blogger https://ift.tt/3myNAyE

ALEX APRESENTA ESCULTURA JAIME PLENSA EM MONTRÉAL

via IFTTT

via Blogger https://ift.tt/3ksZF6B

via Blogger https://ift.tt/2FFuTbN

via Blogger https://ift.tt/3kvANei

via Blogger https://ift.tt/2FK395M

via Blogger https://ift.tt/2ZO8wbj

ALEX APRESENTA ESCULTURA JAIME PLENSA EM MONTRÉAL

via IFTTT

via Blogger https://ift.tt/2FHsOfF

via Blogger https://ift.tt/3kqhOSz

via Blogger https://ift.tt/3hIqJgg

via Blogger https://ift.tt/3c8ru14

via Blogger https://ift.tt/2REIkLu

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

ALEX APRESENTA ESCULTURA JAIME PLENSA EM MONTRÉAL

via IFTTT

via Blogger https://ift.tt/3ksZF6B

via Blogger https://ift.tt/2FFuTbN

via Blogger https://ift.tt/3kvANei

via Blogger https://ift.tt/2FK395M

ALEX APRESENTA ESCULTURA JAIME PLENSA EM MONTRÉAL

via IFTTT

via Blogger https://ift.tt/2FHsOfF

via Blogger https://ift.tt/3kqhOSz

via Blogger https://ift.tt/3hIqJgg

via Blogger https://ift.tt/3c8ru14

ALEX APRESENTA ESCULTURA JAIME PLENSA EM MONTRÉAL

via IFTTT

via Blogger https://ift.tt/3ksZF6B

via Blogger https://ift.tt/2FFuTbN

via Blogger https://ift.tt/3kvANei

ALEX APRESENTA ESCULTURA JAIME PLENSA EM MONTRÉAL

via IFTTT

via Blogger https://ift.tt/2FHsOfF

via Blogger https://ift.tt/3kqhOSz

via Blogger https://ift.tt/3hIqJgg

ALEX APRESENTA ESCULTURA JAIME PLENSA EM MONTRÉAL

via IFTTT

via Blogger https://ift.tt/3ksZF6B

via Blogger https://ift.tt/2FFuTbN

ALEX APRESENTA ESCULTURA JAIME PLENSA EM MONTRÉAL

via IFTTT

via Blogger https://ift.tt/2FHsOfF

via Blogger https://ift.tt/3kqhOSz

ALEX APRESENTA ESCULTURA JAIME PLENSA EM MONTRÉAL

via IFTTT

via Blogger https://ift.tt/3ksZF6B

ALEX APRESENTA ESCULTURA JAIME PLENSA EM MONTRÉAL

via IFTTT

via Blogger https://ift.tt/2FHsOfF

ALEX APRESENTA ESCULTURA JAIME PLENSA EM MONTRÉAL

via IFTTT

ALEX APRESENTA ESCULTURA JAIME PLENSA EM MONTRÉAL


via IFTTT

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

BOLSONARO VERSUS GOVERNADORES NA XP IPESPE SET 2020

image_4c9185d9-33f7-4f9f-998f-7c12382d2a05

A “boca de jacaré” se inverteu positivamente, o que é inédito para o presidente, embora com ângulo menor, em comparação à época em que a desaprovação superava a aprovação dele.

A expectativa é de que a nova configuração do gráfico poderá ganhar algo de amplitude (entretanto sem se escancarar numa “bocarra”) e deverá ter uma abertura variante ou talvez algum viés de fechamento, por alcance do teto da aprovação à volta de onde está, o que não seria ruim para quem esteve muito, mas muito pior.

Se for para manter doravante a estabilidade ou a melhoria de fato sob lastro do impacto de programas sociais, decerto o tal “mecanismo” em causa será muito bem-vindo entre os menos favorecidos, a maioria.

Por óbvio, a questão é de onde sairão os correspondentes recursos orçamentários, um dilema econômico com jeito de inequação, como prova a clara decisão presidencial de sepultar o tal Renda Brasil e a imposição indireta da regra-de-ouro que empurra a conta para os andares de cima da pirâmide distributiva da riqueza nacional.

Contrariamente, a avaliação dos governadores vem se deteriorando de modo consistente desde abril, com queda acentuada da curva positiva (principalmente nas regiões sudeste, norte e centro-oeste) e, em oposto, de elevação da curva negativa (sobretudo na região sudeste), portanto caracterizando um movimento nítido de fechamento da tal “boca, que já esteve bem aberta.

A tendência é a de que a avaliação comparativa positiva X negativa dos governadores siga com o atual comportamento ainda por mais algum tempo, provavelmente até que as curvas respectivas se encontrem ao centro, em torno de 30% a 40%, inclusive por causa da chamada segunda onda da pandemia em alguns estados federativos.  

No curto prazo, mais provável é que a tendência de inter-afastamento do pico e do piso dessa atual disparidade favorável ao governo federal não se aproxime do perfil que teve na fase mais desfavorável a ele, porque:

a) o auxílio emergencial foi reduzido e os preços estão ainda a subir na cesta-básica;
b) a problemática gestão da pandemia deverá ter a responsabilização diluída à medida em que se retorna à normalidade e se dissipam as eventuais omissões e os erros;
c) é na cidade e no estado que a realidade é mais palpável, sobretudo depois de se ter passado a eleição e ter sido superada a fase crítica da pandemia, quando, então, as ações centralizadas deverão voltar ao patamar natural;
d) prefeitos e governadores não envolvidos em desvios de verbas da saúde poderão ter de novo algum protagonismo, agora positivo;
e) o risco de inflação, a queda da economia, o desemprego e o empobrecimento cedo ou tarde cairão mesmo no colo de quem a opinião pública atribuir a culpa principal, um jogo imprevisível ainda em andamento;
f) os escândalos em apuração por tudo quanto é lado deverão afetar negativamente a popularidade de todos que estiverem no meio dessa enorme confusão.

Certo mesmo é que a agenda política começa a tomar lugar prioritário e deve orientar o posicionamento e as decisões de todos os governos, federal, estaduais e municipais, inclusive a partir do que vier a surgir dos resultados da eleição de 2020, provavelmente trazendo sinais para a atuação de todos até 2022.

A conferir 

domingo, 13 de setembro de 2020

MANHÃ ATÍPICA NO DESJEJUM BRASILIENSE

Mesmo sem ter um único cravinho aparecendo na imagem, para dizer do que se trata, dirigiria palavra bem fria aos ridículos cerimonialistas do subalterno plantão oficial que exaltam até o finger-food dos gringos como se aquilo prestasse, mas saúdo com morno bom-dia a turma do cafezinho ralo descabelado em casa, do pão com manteiga na chapa comido em pé na padaria do bairro, da média às carreiras sorvida no boteco da esquina, do Danoninho Crush bem adequado a mãos urbanas preguiçosas, do Polenguinho que vale (falsamente) por um bifinho ou do iogurte frutado com granola e outros fabricos engolido às pressas a caminho de algum lugar.

Por aqui nos planaltos centrais, chamam aquela iguaria logo abaixo do titulo até de canjica, e, nas plagas amazônicas, falam em mingau, enquanto a maioria dos nascidos (sou – orgulhoso – um desses cabrinhas) e dos moradores idos, vindos ou chegados nas bandas litorâneas da Bahia ao Maranhão conhecem o prato (matinal por excelência) pelo nome batismal de mungunzá, esse de milho amarelo, com leite de coco e caldo adocicado, servido com leve cobertura de canela em pó: mesmo quando esfria, se aplaina e adormece um pouco “abafado” sob aquela camada de nata “endurecida”, ainda que meio distante é inconfundível o cheiro que exala e basta só um rápido pisco de olho para a saliva irromper aos pulos das papilas.

Não adianta mentir, nem precisa esconder, nada há do que se envergonhar: olhando a cumbuca da foto, lidas as palavras de cara, sei que deu água na sua boca, vai.

Fiz aquelas tantas referências geográficas e descrevi em mais detalhes os ingredientes porque ao menos nas alturas dos áridos sertões paraibanos – pelo que sei, vi e já provei tempos atrás – há um feito com milho branco numa gororoba que leva carne (e o que mais tiver disponível na hora) dentro, tem gosto salgado, é servido cedo (antes de se sair para o batente), mas também à volta ou nas proximidades do almoço, pois naqueles mundos secos tem gente que faz uma bocada só daquela mistureba que dá sustança bastante para enfrentar o resto do dia, às vezes por opção, outras a reboque da pura necessidade, por nada mais haver do que se comer.

Chá-de-Burro dizia meu Vovozinho João, de quem herdei, sendo Neto, o nome. Falava com autoridade máxima lastrada em boa parte na vida passada por umas empoeiradas veredas sertanejas, na estafante lida de tropeiro marchante levando e trazendo gado magro de lá dos mundos de Serra Telhada ou Arcoverde, para engordar nas preciosas invernadas de Mata Grande, em Alagoas, às vezes com uma nesga de paradinha de reta final em Santa Clara de Buíque, ainda no lado pernambucano da fronteira. A narrativa que ouvi dele era de  palavras poucas e rudes: se boi adoecia naqueles caminhos pobres de água, de plantas e de tudo, era largado sem dó para trás, nada havia a ser feito já que veterinário era gente rara ao tempo; mas – se um reles jumento da tropa esmorecia ou capengava no jeito – o remédio infalível era um punhado bom de milho jogado ainda fervente numa cabaça larga com sal de coxeira, que o bicho comia de noite e acordava depois já esperto, firme e todinho duro antes do sol chegar.

Por falar em coisa densa, dessas de levantar defunto, qualquer lambe-beiço-de-feira-livre sabe bem a sustança da comida e não se constrange nem um pouquinho de enfiar apressado a gulosa concha no caldeirão em bolhas como se nela coubesse de uma vez só uma terrina funda e das grandes, cheia, esborrando pelas beiras: sei de uma galera que se pudesse mergulhava era de cabeça toda no tacho e eu mesmo já vi uns desses gajos algumas vezes perdidas na Feira da Primavera, no Mercado Central, no Mercado da Torre e até na Feirinha de Tambaú, misturados com exibidos atletas bissextos e com turistas curiosos das horas bem matinas de João Pessoa, onde o sol nasce primeiro.

Estou me referindo também àquela turma que vara a madrugada na farra e encosta nos toscos balcões de lá, cedinho de manhã já com a barriga roncando, uns pinguços de sempre e outros em carrões importados, todos na esperança de se salvar da fome ou da ressaca, assim como desconfio que aparecem às vezes esses tipinhos refinados, punhos rendados e mãos sedosas vestidas de luvinhas que só descalçam para toques sutis de pontinhas de dedo na refeição: mesmo eles, esses metidos, logo deixam a pose de sofisticado gourmet e iguais a todos se rendem à escandalosa chegada da primeira colherada à língua, sem nenhum contragosto, nem pudor e longe dos tais bons modos.

De minha parte, veio fácil a inevitável lembrança de que se fosse na Capital das Acácias, sessenta anos atrás, encarar uma tijela daquelas de mungunzá era moleza, nada tinha de sacrifício; ao contrário, funcionava como senha milagrosa, era o passaporte para sair de casa, estava concedido o salvo-conduto de cada semana para a Missa Domingueira da São Pedro Gonçalves, uma obrigação que – depois da Benção Final – trazia embutida a mais que esperada recompensa, o dinheiro do bilhete de entrada para a Matinal do Cine Rex, um irrepreensível, metódico e sábio rito sequencial de minha mãe Djanira: primeiro a devoção, depois a diversão, ensinava ela.

Mas, nem pense que acabou assim de repente o repasto matutino desse domingo tão diferenciado aqui na capital do país, distante por demais do Brasil das comidas típicas de raiz, que a gente só tem chance de achar no meio das barracas do Guará, do Núcleo Bandeirantes, de Taguatinga ou de Ceilândia.

Sei que vou deixar uns amigos mortos de inveja, porque, felizmente, esse não é o meu caso: não fico meses a fio sem renovar o sabor desses nunca igualáveis quitutes, nem mesmo morando a léguas dos tradicionais lugares “nordestinos” de Brasília e sem precisar sequer de dar uma esticada para além do Lago Sul até as ruas do Paranoá.

Digo e provo, ao fechar o firo de hoje, proporcionalmente na quantidade mas não na qualidade, e – seguindo o estilo, agora não mais de ensopado de colher mas de corte de faca e de pinça de garfo – vou adiante com a caprichadíssima tapioca especialmente feita de momento por Margareth, numa dessas milésimas receitas guardadas de cabeça que ela sempre tem de pronto para tudo.

Embora eu goste dela como vier, provavelmente pela ancestralidade meio indígena, não é uma coisinha à toa somente com goma rala de dar pena, salpicada uniforme sobre a chapa quente para ir grudando a fogo entre si os seus paupérrimos grãos, que de tão branquinhos-branquinhos parecem sem graça.

Se me servirem dessa não recuso, é café-pequeno, mas é digno e merecedor de toda reverência, ainda mais de quem sabe que na damorida à moda roraimense ora o pó da mandioca tem o nobre fim de engrossar o peixe cozido ou para quem já degustou sem mínima cara feia ou gosto ruim em aldeia macuxi um tipo que é parente próximo da tapioca, um laminado bem rígido que fica por semanas muitas secando pendurado ao leu ou na melhor das hipóteses dormindo preso nos caibros por debaixo das palhas da cabana: é comida de cerimônia, de festa, que exige todo o respeito devido à cultura dos legítimos donos dali.

Portanto, quem é dado à superficialidade rasteira, ao terraplanismo idiota, à dedução primária ou se é agoniado a ponto de não ter domínio para pensar antes de “achar” o motivo conveniente, preste bem atenção: não é mera tinta de cobertura, melaço grosso espalhado ou qualquer dessas gosmas que lambuzam a comida por fora, nem tempero puxado a açafrão ou mistura de óleos para untar a frigideira como uma pasta; não, é no preparo que está o segredo, nadinha artificial: ele vem a rigor da junção prévia dos elementos à fécula granulada, bem ao natural, assim por dizer na semente, igualzinho ao algodão colorido da região do Cariri da Paraíba, que já nasce em lindos, autênticos e singulares tons amarronzados.

Desavergonhado, vaidoso e a quilômetros da falsa modéstia – em nome dela, a autora da preciosidade – essa que descrevo cá é com recheio de queijo e de coco (olha ele de volta), numa massa única, exclusiva e maravilhosamente preparada com aditivos muito mais que apenas os básicos. É por isso que a cor varia do verde escuro do espinafre (que a Netinha Isadora prefere) ao tom mais ou menos alaranjado dessa que está na foto a seguir, generosamente enriquecida com cenoura ou beterraba ralada, dá no mesmo.

Ela é fininha na espessura, menos da metade dos esplêndidos e deliciosos beijus, mal-casados ou sarolhos de Sergipe D’el Rey e ainda diria sem medo de errar que não fica a dever às célebres e rechonchudas peças das tapioqueiras de Messejana: aliás, por falar no Ceará, já aviso de antemão aos amigos e à família de lá que a tapioca mostrada no retrato é só uma pedaço dela, ressalva que endereço tanto aos comilões de mão-cheia que conheço de longas datas quanto às que são íntimas das pranchetas e esquadros ou das intrincadas formas geométricas das artes arquitetônicas.

No fecho, como estamos muitos de nós em confinamento, isolados ou distantes pela tragédia da pandemia do coronavírus, mais uma semana de saúde e paz é o que desejo a todos: até a próxima postagem gastronômica da terrinha, numa boa, sem querer tirar sarro de ninguém.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

A INESQUECÍVEL FIGURAÇA DAS “QUINAS CANGELADAS”

Sabemos que lembranças (adjetivadas a gosto) são mesmo imperdíveis oportunidades de resgate (quase sempre no frio e distante passado) de profundas emoções ou de intensos sentimentos, a maioria arranca da memória pessoas, fatos e coisas que estavam “perdidas” sabe-se lá onde, umas trazem com elas lágrimas despencando no rosto, outras abrem sorrisos abundantes de morder orelha: é o que se dá comigo, certamente parecido a outros mortais, todos por aqui de passagem.

É verdade que para uns chegados escrevi curtas loas tentando render ao menos umas modestas homenagens (no rodapé há indicações de acesso a elas), mas confesso que raras vezes me encorajei a remexer minhas rasas e leves arcas para debruçar nelas olhos tão alegres como os de hoje, paradoxalmente na missa de trigésimo dia do muitíssimo querido Agenorzinho, assim escrito para distingui-lo doutros de igual nome, do mitológico rei de Tiro ao patriarca dos Cabral.

Tirante saber na Amaro Coutinho que era do fisco estadual, das épocas em que morei em João Pessoa e em Natuba (antes de ir estudar no Rio), pouco recolhi, mas da Cidade Maravilhosa há tanto que não caberia num disco rígido de capacidade normal: a escolha impositiva foi garimpar na cuca o que estava disponível fácil, logo, à bateia, nada perfunctório, contudo.

Começo à porta de apartamento em Laranjeiras onde ele morou, aberta na maior parte quando minha sogra Nailde estava por lá com Margareth: quem poderia esquecer a acolhida sempre afetuosa naquela selva de concreto quente que já era infernal nos Anos 70 até num recanto arborizado? Como não cotejar os banquetes de sofisticados pratos com as léguas de distância do Bandejão da PUC?

Por cerca de quatro anos de andanças entre a Marquês de São Vicente e os lugares onde dormi pela Zona Sul, ouvi ele falar de Denasa, de agropecuárias no Centro-Oeste, de ligações com JK: no fundo, era de política que se tratava, do velho PSD, de uma turma de paraibanos talentosos (com um Cunha Lima no bolo), deduzi das conversas tidas em fortuitas aparições minhas em visita a ele. Soube que trabalhou também nos escritórios das Docas do Rio, concursado, suponho eu.

Na Barata Ribeiro, ele nos hospedou às vésperas do embarque para a Alemanha e foi apresentado a Catarina Emília, nascida poucos meses antes em Aracaju: era uma terça-feira de carnaval, o voo partia tarde da noite e tomamos num daqueles botecos típicos de frequência contumaz uns chopes regados a petiscos, risadas e um incrível relato dos “sobreviventes” (um de muleta, outro com braço na tipoia) duma briga feia havida de madrugada na arquibancada do desfile das escolas de samba.

Década e meia mais tarde e milhares de quilômetros rodados desde o Nordeste atravessando curvas, montanhas e águas marinhas de remanso da deslumbrante Rio-Santos e passando em Angra dos Reis, chegamos eu, Margareth, Biu Nogueira e Raquel à Ilha do Governador e – de cara – fomos batizados no caótico trânsito em batida do nosso Fiat Tipo na traseira doutro carro qualquer.

Foi susto pequeno, dano besta, prejuízo nenhum e – ao contrário – tudo acabou no lucro, porque o episódio ampliou o prazeroso desfrute da generosa hospitalidade dele, deu chance à partilha de mais chopes.

A Constituição Cidadã era recente, morávamos em Recife, tivemos o privilégio da contagiante visita dele e vimos quanto tudo passara rápido: Bertha Carolina (que ele conheceu na volta de Bremen e se apaixonou empurrando ela umas horas no carrinho de bebê pelo aeroporto) crescera e Andreas Cauê (o abençoado segundo presente sergipano da família) já aprontava das suas.

Sim, as areias de Boa Viagem distavam poucas quadras da Hélio Falcão, mas, ao invés de mera sunga de praia, ele preferia sandália, bermuda e uma camisa qualquer, que servia só para compor provisoriamente o figurino na suposta arrumação, porque na hora de sair de casa era automático nele tirar a camisa, dobrar enrolando ao comprido e jogar por cima de um dos ombros: o hábito vinha de longe, lembro dele anos depois agindo igual e vejo no despojado gesto uma atitude de desapego, símbolo da pouca importância que dava a bens materiais, acho.

Duma semana e meia da estadia pernambucana, há uma estória que jamais será apagada. Falo do magistral porre que terminou com nós dois arrastados um de cada lado de Margareth da Conveniência do Posto Shell da Ernesto de Paula Santos (metros à esquerda, pertinho, na esquina) até em casa: foi o saldo do histórico desafio de só parar as talagadas quando a torre de bolachas de chope passasse da altura dos olhos e um não mais visse o outro, parâmetro surreal, passível de explicação só como mania clássica de bêbado.

Voamos num piscar a Brasília, a partir de onde desde 1990 São Paulo e Campinas viraram na prática “caminhos-de-rato” em férias escolares de meio do ano da galera, uma delas estendida à então “oculta”, bucólica e meio “rural” Sepetiba para visitá-lo num saltinho de pressa por uns dias, com esticadinha a Pedra de Guaratiba num domingo de sol.

Claro, uma hora a Praia do Poço e o Bar de Quebé entrariam em destaque neste maravilhoso enredo, justo naquele pedaço que chamamos de paraíso onde ele revia o velho amigo dos tempos pessoenses de juventude: ousaria comentar que sonhou em morar por ali na aposentadoria, pelo brilhar do olhar dele que vi repetido nuns verões.

Da casinha da Monsenhor Renato Pires Ferreira, escolhi a imagem do brinde que fazia à primeira ou qualquer cerveja oportuna: “não sou maior, não sou menor, somos iguais”, dizia ele medindo (de modo alternado, beira com fundo, em cima e embaixo) o que na hora estivesse usando como recipiente, copo, taça ou tulipa, tocando ao final a dele na do parceiro da vez no mesmo nível, de frente, com ênfase. Impossível não concluir que a sequência era uma espécie de ritual declaratório de amizade, de reverência à cumplicidade e companheirismo, de prova maior de ausência de preconceito do vascaíno, que os de agora e os que vierem têm o simples compromisso de honrar adiante no democrático território que sempre abrigou, equidistante, à sombra do eclético cajueiro, botafoguense (Marcelo), torcedor pó-de-arroz (Zé Boquinha) e flamenguista (Zé Cabra).

Pois é: infelizmente, não deu para cumprir a promessa do ano passado combinada com Suzana (que esteve com ele meses atrás), um rolê em setembro para matar a saudade do Rio e abraçar o Oitentão no aniversário dele a compensar nossa ausência na última data redonda festejada.

A pandemia nos impediu de estarmos com Marcone, Serginho, Carlito, Larissa, Zezita e Marilene para dar adeus a ele, mas o faço agora – tranquilo, tristeza contida e algo conformado – finalizando estes selecionados instantes de relevo compartilhados com ele, as melhores cenas vindas à tona comigo de espectador ou coadjuvante, ele de protagonista.

Realmente, num momento enternecido, gravoso e pesado por tradição, não me ocorreu no mês todo mínima dúvida nem surpresa qualquer de aflorarem somente referências positivas, inspiradoras e leves. Nada de diferente seria de esperar, até porque os depoimentos de todas as irmãs corroboram a excelência humana do caráter fraternal, elas que jamais ouviram dele uma grosseria menor que fosse.

É assim o tempo, o mundo e a vida, trocam as estações, endereços mudam, segue em curso a dinâmica redonda da terra: o cardápio de alcunhas é variado, pode ser destino, sorte, acaso, o que cada um quiser adotar de descritivo.

A quem até aqui viajou este fascinante percurso, digo: mandem daí os “pingos-de-is” que faltaram, sem acanhamento de acrescer o que vier na telha .

Quedo em silêncio orando a Deus que receba e com Ele guarde bem direitinho Agenor Cabral de Lira Filho. Amém.

Postagens relacionadas: 1) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2016/04/23/catarina-emilia-a-autentica-primogenita/; 2) Renato (https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/26/renato-simples-assim/); 3) (https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2016/06/07/dorinha-um-ser-maiusculo-de-nome-dominutivo/; 4) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/11/30/moleque-ian-seis-anos-de-vida-e-felicidade/; 5) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/23/ao-avesso-do-gorducho-lapao/; 6) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/28/jean-1-ano/; 7) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/28/montreal-2013/; 8) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/28/caue-1-ano/; 9) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2019/05/23/parabens-para-mim-18/; 10) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2019/07/21/celebracao-da-vida-da-familia-e-da-amizade-10/

PS: há lacunas a preencher, sei que estou em dívida e espero em breve pagar outras promissórias: nada me vão custar, são recortes já prontos da minha própria colchas de retalhos. Basta só que o Senhor de Todos Nós oportunize a inspiração.

via Blogger https://ift.tt/2EuFNAt

via Blogger https://ift.tt/3laFLyl

via Blogger https://ift.tt/3hrylEz

A INESQUECÍVEL FIGURAÇA DAS “QUINAS CANGELADAS”

Sabemos que lembranças (adjetivadas a gosto) são mesmo imperdíveis oportunidades de resgate (quase sempre no frio e distante passado) de profundas emoções ou de intensos sentimentos, a maioria arranca da memória pessoas, fatos e coisas que estavam “perdidas” sabe-se lá onde, umas trazem com elas lágrimas despencando no rosto, outras abrem sorrisos abundantes de morder orelha: é o que se dá comigo, certamente parecido a outros mortais, todos por aqui de passagem.

É verdade que para uns chegados escrevi curtas loas tentando render ao menos umas modestas homenagens (no rodapé há indicações de acesso a elas), mas confesso que raras vezes me encorajei a remexer minhas rasas e leves arcas para debruçar nelas olhos tão alegres como os de hoje, paradoxalmente na missa de trigésimo dia do muitíssimo querido Agenorzinho, assim escrito para distingui-lo doutros de igual nome, do mitológico rei de Tiro ao patriarca dos Cabral.

Tirante saber na Amaro Coutinho que era do fisco estadual, das épocas em que morei em João Pessoa e em Natuba (antes de ir estudar no Rio), pouco recolhi, mas da Cidade Maravilhosa há tanto que não caberia num disco rígido de capacidade normal: a escolha impositiva foi garimpar na cuca o que estava disponível fácil, logo, à bateia, nada perfunctório, contudo.

Começo à porta de apartamento em Laranjeiras onde ele morou, aberta na maior parte quando minha sogra Nailde estava por lá com Margareth: quem poderia esquecer a acolhida sempre afetuosa naquela selva de concreto quente que já era infernal nos Anos 70 até num recanto arborizado? Como não cotejar os banquetes de sofisticados pratos com as léguas de distância do Bandejão da PUC?

Por cerca de quatro anos de andanças entre a Marquês de São Vicente e os lugares onde dormi pela Zona Sul, ouvi ele falar de Denasa, de agropecuárias no Centro-Oeste, de ligações com JK: no fundo, era de política que se tratava, do velho PSD, de uma turma de paraibanos talentosos (com um Cunha Lima no bolo), deduzi das conversas tidas em fortuitas aparições minhas em visita a ele. Soube que trabalhou também nos escritórios das Docas do Rio, concursado, suponho eu.

Na Barata Ribeiro, ele nos hospedou às vésperas do embarque para a Alemanha e foi apresentado a Catarina Emília, nascida poucos meses antes em Aracaju: era uma terça-feira de carnaval, o voo partia tarde da noite e tomamos num daqueles botecos típicos de frequência contumaz uns chopes regados a petiscos, risadas e um incrível relato dos “sobreviventes” (um de muleta, outro com braço na tipoia) duma briga feia havida de madrugada na arquibancada do desfile das escolas de samba.

Década e meia mais tarde e milhares de quilômetros rodados desde o Nordeste atravessando curvas, montanhas e águas marinhas de remanso da deslumbrante Rio-Santos e passando em Angra dos Reis, chegamos eu, Margareth, Biu Nogueira e Raquel à Ilha do Governador e – de cara – fomos batizados no caótico trânsito em batida do nosso Fiat Tipo na traseira doutro carro qualquer.

Foi susto pequeno, dano besta, prejuízo nenhum e – ao contrário – tudo acabou no lucro, porque o episódio ampliou o prazeroso desfrute da generosa hospitalidade dele, deu chance à partilha de mais chopes.

A Constituição Cidadã era recente, morávamos em Recife, tivemos o privilégio da contagiante visita dele e vimos quanto tudo passara rápido: Bertha Carolina (que ele conheceu na volta de Bremen e se apaixonou empurrando ela umas horas no carrinho de bebê pelo aeroporto) crescera e Andreas Cauê (o abençoado segundo presente sergipano da família) já aprontava das suas.

Sim, as areias de Boa Viagem distavam poucas quadras da Hélio Falcão, mas, ao invés de mera sunga de praia, ele preferia sandália, bermuda e uma camisa qualquer, que servia só para compor provisoriamente o figurino na suposta arrumação, porque na hora de sair de casa era automático nele tirar a camisa, dobrar enrolando ao comprido e jogar por cima de um dos ombros: o hábito vinha de longe, lembro dele anos depois agindo igual e vejo no despojado gesto uma atitude de desapego, símbolo da pouca importância que dava a bens materiais, acho.

Duma semana e meia da estadia pernambucana, há uma estória que jamais será apagada. Falo do magistral porre que terminou com nós dois arrastados um de cada lado de Margareth da Conveniência do Posto Shell da Ernesto de Paula Santos (metros à esquerda, pertinho, na esquina) até em casa: foi o saldo do histórico desafio de só parar as talagadas quando a torre de bolachas de chope passasse da altura dos olhos e um não mais visse o outro, parâmetro surreal, passível de explicação só como mania clássica de bêbado.

Voamos num piscar a Brasília, a partir de onde desde 1990 São Paulo e Campinas viraram na prática “caminhos-de-rato” em férias escolares de meio do ano da galera, uma delas estendida à então “oculta”, bucólica e meio “rural” Sepetiba para visitá-lo num saltinho de pressa por uns dias, com esticadinha a Pedra de Guaratiba num domingo de sol.

Claro, uma hora a Praia do Poço e o Bar de Quebé entrariam em destaque neste maravilhoso enredo, justo naquele pedaço que chamamos de paraíso onde ele revia o velho amigo dos tempos pessoenses de juventude: ousaria comentar que sonhou em morar por ali na aposentadoria, pelo brilhar do olhar dele que vi repetido nuns verões.

Da casinha da Monsenhor Renato Pires Ferreira, escolhi a imagem do brinde que fazia à primeira ou qualquer cerveja oportuna: “não sou maior, não sou menor, somos iguais”, dizia ele medindo (de modo alternado, beira com fundo, em cima e embaixo) o que na hora estivesse usando como recipiente, copo, taça ou tulipa, tocando ao final a dele na do parceiro da vez no mesmo nível, de frente, com ênfase. Impossível não concluir que a sequência era uma espécie de ritual declaratório de amizade, de reverência à cumplicidade e companheirismo, de prova maior de ausência de preconceito do vascaíno, que os de agora e os que vierem têm o simples compromisso de honrar adiante no democrático território que sempre abrigou, equidistante, à sombra do eclético cajueiro, botafoguense (Marcelo), torcedor pó-de-arroz (Zé Boquinha) e flamenguista (Zé Cabra).

Pois é: infelizmente, não deu para cumprir a promessa do ano passado combinada com Suzana (que esteve com ele meses atrás), um rolê em setembro para matar a saudade do Rio e abraçar o Oitentão no aniversário dele a compensar nossa ausência na última data redonda festejada.

A pandemia nos impediu de estarmos com Marcone, Serginho, Carlito, Larissa, Zezita e Marilene para dar adeus a ele, mas o faço agora – tranquilo, tristeza contida e algo conformado – finalizando estes selecionados instantes de relevo compartilhados com ele, as melhores cenas vindas à tona comigo de espectador ou coadjuvante, ele de protagonista.

Realmente, num momento enternecido, gravoso e pesado por tradição, não me ocorreu no mês todo mínima dúvida nem surpresa qualquer de aflorarem somente referências positivas, inspiradoras e leves. Nada de diferente seria de esperar, até porque os depoimentos de todas as irmãs corroboram a excelência humana do caráter fraternal, elas que jamais ouviram dele uma grosseria menor que fosse.

É assim o tempo, o mundo e a vida, trocam as estações, endereços mudam, segue em curso a dinâmica redonda da terra: o cardápio de alcunhas é variado, pode ser destino, sorte, acaso, o que cada um quiser adotar de descritivo.

A quem até aqui viajou este fascinante percurso, digo: mandem daí os “pingos-de-is” que faltaram, sem acanhamento de acrescer o que vier na telha .

Quedo em silêncio orando a Deus que receba e com Ele guarde bem direitinho Agenor Cabral de Lira Filho. Amém.

Postagens relacionadas: 1) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2016/04/23/catarina-emilia-a-autentica-primogenita/; 2) Renato (https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/26/renato-simples-assim/); 3) (https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2016/06/07/dorinha-um-ser-maiusculo-de-nome-dominutivo/; 4) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/11/30/moleque-ian-seis-anos-de-vida-e-felicidade/; 5) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/23/ao-avesso-do-gorducho-lapao/; 6) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/28/jean-1-ano/; 7) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/28/montreal-2013/; 8) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/28/caue-1-ano/; 9) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2019/05/23/parabens-para-mim-18/; 10) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2019/07/21/celebracao-da-vida-da-familia-e-da-amizade-10/

PS: há lacunas a preencher, sei que estou em dívida e espero em breve pagar outras promissórias: nada me vão custar, são recortes já prontos da minha própria colchas de retalhos. Basta só que o Senhor de Todos Nós oportunize a inspiração.

via Blogger https://ift.tt/2EuFNAt

via Blogger https://ift.tt/2YtCP6u

via Blogger https://ift.tt/2Yu6BYt

A INESQUECÍVEL FIGURAÇA DAS “QUINAS CANGELADAS”

Sabemos que lembranças (adjetivadas a gosto) são mesmo imperdíveis oportunidades de resgate (quase sempre no frio e distante passado) de profundas emoções ou de intensos sentimentos, a maioria arranca da memória pessoas, fatos e coisas que estavam “perdidas” sabe-se lá onde, umas trazem com elas lágrimas despencando no rosto, outras abrem sorrisos abundantes de morder orelha: é o que se dá comigo, certamente parecido a outros mortais, todos por aqui de passagem.

É verdade que para uns chegados escrevi curtas loas tentando render ao menos umas modestas homenagens (no rodapé há indicações de acesso a elas), mas confesso que raras vezes me encorajei a remexer minhas rasas e leves arcas para debruçar nelas olhos tão alegres como os de hoje, paradoxalmente na missa de trigésimo dia do muitíssimo querido Agenorzinho, assim escrito para distingui-lo doutros de igual nome, do mitológico rei de Tiro ao patriarca dos Cabral.

Tirante saber na Amaro Coutinho que era do fisco estadual, das épocas em que morei em João Pessoa e em Natuba (antes de ir estudar no Rio), pouco recolhi, mas da Cidade Maravilhosa há tanto que não caberia num disco rígido de capacidade normal: a escolha impositiva foi garimpar na cuca o que estava disponível fácil, logo, à bateia, nada perfunctório, contudo.

Começo à porta de apartamento em Laranjeiras onde ele morou, aberta na maior parte quando minha sogra Nailde estava por lá com Margareth: quem poderia esquecer a acolhida sempre afetuosa naquela selva de concreto quente que já era infernal nos Anos 70 até num recanto arborizado? Como não cotejar os banquetes de sofisticados pratos com as léguas de distância do Bandejão da PUC?

Por cerca de quatro anos de andanças entre a Marquês de São Vicente e os lugares onde dormi pela Zona Sul, ouvi ele falar de Denasa, de agropecuárias no Centro-Oeste, de ligações com JK: no fundo, era de política que se tratava, do velho PSD, de uma turma de paraibanos talentosos (com um Cunha Lima no bolo), deduzi das conversas tidas em fortuitas aparições minhas em visita a ele. Soube que trabalhou também nos escritórios das Docas do Rio, concursado, suponho eu.

Na Barata Ribeiro, ele nos hospedou às vésperas do embarque para a Alemanha e foi apresentado a Catarina Emília, nascida poucos meses antes em Aracaju: era uma terça-feira de carnaval, o voo partia tarde da noite e tomamos num daqueles botecos típicos de frequência contumaz uns chopes regados a petiscos, risadas e um incrível relato dos “sobreviventes” (um de muleta, outro com braço na tipoia) duma briga feia havida de madrugada na arquibancada do desfile das escolas de samba.

Década e meia mais tarde e milhares de quilômetros rodados desde o Nordeste atravessando curvas, montanhas e águas marinhas de remanso da deslumbrante Rio-Santos e passando em Angra dos Reis, chegamos eu, Margareth, Biu Nogueira e Raquel à Ilha do Governador e – de cara – fomos batizados no caótico trânsito em batida do nosso Fiat Tipo na traseira doutro carro qualquer.

Foi susto pequeno, dano besta, prejuízo nenhum e – ao contrário – tudo acabou no lucro, porque o episódio ampliou o prazeroso desfrute da generosa hospitalidade dele, deu chance à partilha de mais chopes.

A Constituição Cidadã era recente, morávamos em Recife, tivemos o privilégio da contagiante visita dele e vimos quanto tudo passara rápido: Bertha Carolina (que ele conheceu na volta de Bremen e se apaixonou empurrando ela umas horas no carrinho de bebê pelo aeroporto) crescera e Andreas Cauê (o abençoado segundo presente sergipano da família) já aprontava das suas.

Sim, as areias de Boa Viagem distavam poucas quadras da Hélio Falcão, mas, ao invés de mera sunga de praia, ele preferia sandália, bermuda e uma camisa qualquer, que servia só para compor provisoriamente o figurino na suposta arrumação, porque na hora de sair de casa era automático nele tirar a camisa, dobrar enrolando ao comprido e jogar por cima de um dos ombros: o hábito vinha de longe, lembro dele anos depois agindo igual e vejo no despojado gesto uma atitude de desapego, símbolo da pouca importância que dava a bens materiais, acho.

Duma semana e meia da estadia pernambucana, há uma estória que jamais será apagada. Falo do magistral porre que terminou com nós dois arrastados um de cada lado de Margareth da Conveniência do Posto Shell da Ernesto de Paula Santos (metros à esquerda, pertinho, na esquina) até em casa: foi o saldo do histórico desafio de só parar as talagadas quando a torre de bolachas de chope passasse da altura dos olhos e um não mais visse o outro, parâmetro surreal, passível de explicação só como mania clássica de bêbado.

Voamos num piscar a Brasília, a partir de onde desde 1990 São Paulo e Campinas viraram na prática “caminhos-de-rato” em férias escolares de meio do ano da galera, uma delas estendida à então “oculta”, bucólica e meio “rural” Sepetiba para visitá-lo num saltinho de pressa por uns dias, com esticadinha a Pedra de Guaratiba num domingo de sol.

Claro, uma hora a Praia do Poço e o Bar de Quebé entrariam em destaque neste maravilhoso enredo, justo naquele pedaço que chamamos de paraíso onde ele revia o velho amigo dos tempos pessoenses de juventude: ousaria comentar que sonhou em morar por ali na aposentadoria, pelo brilhar do olhar dele que vi repetido nuns verões.

Da casinha da Monsenhor Renato Pires Ferreira, escolhi a imagem do brinde que fazia à primeira ou qualquer cerveja oportuna: “não sou maior, não sou menor, somos iguais”, dizia ele medindo (de modo alternado, beira com fundo, em cima e embaixo) o que na hora estivesse usando como recipiente, copo, taça ou tulipa, tocando ao final a dele na do parceiro da vez no mesmo nível, de frente, com ênfase. Impossível não concluir que a sequência era uma espécie de ritual declaratório de amizade, de reverência à cumplicidade e companheirismo, de prova maior de ausência de preconceito do vascaíno, que os de agora e os que vierem têm o simples compromisso de honrar adiante no democrático território que sempre abrigou, equidistante, à sombra do eclético cajueiro, botafoguense (Marcelo), torcedor pó-de-arroz (Zé Boquinha) e flamenguista (Zé Cabra).

Pois é: infelizmente, não deu para cumprir a promessa do ano passado combinada com Suzana (que esteve com ele meses atrás), um rolê em setembro para matar a saudade do Rio e abraçar o Oitentão no aniversário dele a compensar nossa ausência na última data redonda festejada.

A pandemia nos impediu de estarmos com Marcone, Serginho, Carlito, Larissa, Zezita e Marilene para dar adeus a ele, mas o faço agora – tranquilo, tristeza contida e algo conformado – finalizando estes selecionados instantes de relevo compartilhados com ele, as melhores cenas vindas à tona comigo de espectador ou coadjuvante, ele de protagonista.

Realmente, num momento enternecido, gravoso e pesado por tradição, não me ocorreu no mês todo mínima dúvida nem surpresa qualquer de aflorarem somente referências positivas, inspiradoras e leves. Nada de diferente seria de esperar, até porque os depoimentos de todas as irmãs corroboram a excelência humana do caráter fraternal, elas que jamais ouviram dele uma grosseria menor que fosse.

É assim o tempo, o mundo e a vida, trocam as estações, endereços mudam, segue em curso a dinâmica redonda da terra: o cardápio de alcunhas é variado, pode ser destino, sorte, acaso, o que cada um quiser adotar de descritivo.

A quem até aqui viajou este fascinante percurso, digo: mandem daí os “pingos-de-is” que faltaram, sem acanhamento de acrescer o que vier na telha .

Quedo em silêncio orando a Deus que receba e com Ele guarde bem direitinho Agenor Cabral de Lira Filho. Amém.

Postagens relacionadas: 1) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2016/04/23/catarina-emilia-a-autentica-primogenita/; 2) Renato (https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/26/renato-simples-assim/); 3) (https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2016/06/07/dorinha-um-ser-maiusculo-de-nome-dominutivo/; 4) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/11/30/moleque-ian-seis-anos-de-vida-e-felicidade/; 5) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/23/ao-avesso-do-gorducho-lapao/; 6) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/28/jean-1-ano/; 7) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/28/montreal-2013/; 8) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/28/caue-1-ano/; 9) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2019/05/23/parabens-para-mim-18/; 10) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2019/07/21/celebracao-da-vida-da-familia-e-da-amizade-10/

PS: há lacunas a preencher, sei que estou em dívida e espero em breve pagar outras promissórias: nada me vão custar, são recortes já prontos da minha própria colchas de retalhos. Basta só que o Senhor de Todos Nós oportunize a inspiração.

via Blogger https://ift.tt/2EuFNAt

via Blogger https://ift.tt/2YtCP6u

via Blogger https://ift.tt/3lhtyrY

A INESQUECÍVEL FIGURAÇA DAS “QUINAS CANGELADAS”

Sabemos que lembranças (adjetivadas a gosto) são mesmo imperdíveis oportunidades de resgate (quase sempre no frio e distante passado) de profundas emoções ou de intensos sentimentos, a maioria arranca da memória pessoas, fatos e coisas que estavam “perdidas” sabe-se lá onde, umas trazem com elas lágrimas despencando no rosto, outras abrem sorrisos abundantes de morder orelha: é o que se dá comigo, certamente parecido a outros mortais, todos por aqui de passagem.

É verdade que para uns chegados escrevi curtas loas tentando render ao menos umas modestas homenagens (no rodapé há indicações de acesso a elas), mas confesso que raras vezes me encorajei a remexer minhas rasas e leves arcas para debruçar nelas olhos tão alegres como os de hoje, paradoxalmente na missa de trigésimo dia do muitíssimo querido Agenorzinho, assim escrito para distingui-lo doutros de igual nome, do mitológico rei de Tiro ao patriarca dos Cabral.

Tirante saber na Amaro Coutinho que era do fisco estadual, das épocas em que morei em João Pessoa e em Natuba (antes de ir estudar no Rio), pouco recolhi, mas da Cidade Maravilhosa há tanto que não caberia num disco rígido de capacidade normal: a escolha impositiva foi garimpar na cuca o que estava disponível fácil, logo, à bateia, nada perfunctório, contudo.

Começo à porta de apartamento em Laranjeiras onde ele morou, aberta na maior parte quando minha sogra Nailde estava por lá com Margareth: quem poderia esquecer a acolhida sempre afetuosa naquela selva de concreto quente que já era infernal nos Anos 70 até num recanto arborizado? Como não cotejar os banquetes de sofisticados pratos com as léguas de distância do Bandejão da PUC?

Por cerca de quatro anos de andanças entre a Marquês de São Vicente e os lugares onde dormi pela Zona Sul, ouvi ele falar de Denasa, de agropecuárias no Centro-Oeste, de ligações com JK: no fundo, era de política que se tratava, do velho PSD, de uma turma de paraibanos talentosos (com um Cunha Lima no bolo), deduzi das conversas tidas em fortuitas aparições minhas em visita a ele. Soube que trabalhou também nos escritórios das Docas do Rio, concursado, suponho eu.

Na Barata Ribeiro, ele nos hospedou às vésperas do embarque para a Alemanha e foi apresentado a Catarina Emília, nascida poucos meses antes em Aracaju: era uma terça-feira de carnaval, o voo partia tarde da noite e tomamos num daqueles botecos típicos de frequência contumaz uns chopes regados a petiscos, risadas e um incrível relato dos “sobreviventes” (um de muleta, outro com braço na tipoia) duma briga feia havida de madrugada na arquibancada do desfile das escolas de samba.

Década e meia mais tarde e milhares de quilômetros rodados desde o Nordeste atravessando curvas, montanhas e águas marinhas de remanso da deslumbrante Rio-Santos e passando em Angra dos Reis, chegamos eu, Margareth, Biu Nogueira e Raquel à Ilha do Governador e – de cara – fomos batizados no caótico trânsito em batida do nosso Fiat Tipo na traseira doutro carro qualquer.

Foi susto pequeno, dano besta, prejuízo nenhum e – ao contrário – tudo acabou no lucro, porque o episódio ampliou o prazeroso desfrute da generosa hospitalidade dele, deu chance à partilha de mais chopes.

A Constituição Cidadã era recente, morávamos em Recife, tivemos o privilégio da contagiante visita dele e vimos quanto tudo passara rápido: Bertha Carolina (que ele conheceu na volta de Bremen e se apaixonou empurrando ela umas horas no carrinho de bebê pelo aeroporto) crescera e Andreas Cauê (o abençoado segundo presente sergipano da família) já aprontava das suas.

Sim, as areias de Boa Viagem distavam poucas quadras da Hélio Falcão, mas, ao invés de mera sunga de praia, ele preferia sandália, bermuda e uma camisa qualquer, que servia só para compor provisoriamente o figurino na suposta arrumação, porque na hora de sair de casa era automático nele tirar a camisa, dobrar enrolando ao comprido e jogar por cima de um dos ombros: o hábito vinha de longe, lembro dele anos depois agindo igual e vejo no despojado gesto uma atitude de desapego, símbolo da pouca importância que dava a bens materiais, acho.

Duma semana e meia da estadia pernambucana, há uma estória que jamais será apagada. Falo do magistral porre que terminou com nós dois arrastados um de cada lado de Margareth da Conveniência do Posto Shell da Ernesto de Paula Santos (metros à esquerda, pertinho, na esquina) até em casa: foi o saldo do histórico desafio de só parar as talagadas quando a torre de bolachas de chope passasse da altura dos olhos e um não mais visse o outro, parâmetro surreal, passível de explicação só como mania clássica de bêbado.

Voamos num piscar a Brasília, a partir de onde desde 1990 São Paulo e Campinas viraram na prática “caminhos-de-rato” em férias escolares de meio do ano da galera, uma delas estendida à então “oculta”, bucólica e meio “rural” Sepetiba para visitá-lo num saltinho de pressa por uns dias, com esticadinha a Pedra de Guaratiba num domingo de sol.

Claro, uma hora a Praia do Poço e o Bar de Quebé entrariam em destaque neste maravilhoso enredo, justo naquele pedaço que chamamos de paraíso onde ele revia o velho amigo dos tempos pessoenses de juventude: ousaria comentar que sonhou em morar por ali na aposentadoria, pelo brilhar do olhar dele que vi repetido nuns verões.

Da casinha da Monsenhor Renato Pires Ferreira, escolhi a imagem do brinde que fazia à primeira ou qualquer cerveja oportuna: “não sou maior, não sou menor, somos iguais”, dizia ele medindo (de modo alternado, beira com fundo, em cima e embaixo) o que na hora estivesse usando como recipiente, copo, taça ou tulipa, tocando ao final a dele na do parceiro da vez no mesmo nível, de frente, com ênfase. Impossível não concluir que a sequência era uma espécie de ritual declaratório de amizade, de reverência à cumplicidade e companheirismo, de prova maior de ausência de preconceito do vascaíno, que os de agora e os que vierem têm o simples compromisso de honrar adiante no democrático território que sempre abrigou, equidistante, à sombra do eclético cajueiro, botafoguense (Marcelo), torcedor pó-de-arroz (Zé Boquinha) e flamenguista (Zé Cabra).

Pois é: infelizmente, não deu para cumprir a promessa do ano passado combinada com Suzana (que esteve com ele meses atrás), um rolê em setembro para matar a saudade do Rio e abraçar o Oitentão no aniversário dele a compensar nossa ausência na última data redonda festejada.

A pandemia nos impediu de estarmos com Marcone, Serginho, Carlito, Larissa, Zezita e Marilene para dar adeus a ele, mas o faço agora – tranquilo, tristeza contida e algo conformado – finalizando estes selecionados instantes de relevo compartilhados com ele, as melhores cenas vindas à tona comigo de espectador ou coadjuvante, ele de protagonista.

Realmente, num momento enternecido, gravoso e pesado por tradição, não me ocorreu no mês todo mínima dúvida nem surpresa qualquer de aflorarem somente referências positivas, inspiradoras e leves. Nada de diferente seria de esperar, até porque os depoimentos de todas as irmãs corroboram a excelência humana do caráter fraternal, elas que jamais ouviram dele uma grosseria menor que fosse.

É assim o tempo, o mundo e a vida, trocam as estações, endereços mudam, segue em curso a dinâmica redonda da terra: o cardápio de alcunhas é variado, pode ser destino, sorte, acaso, o que cada um quiser adotar de descritivo.

A quem até aqui viajou este fascinante percurso, digo: mandem daí os “pingos-de-is” que faltaram, sem acanhamento de acrescer o que vier na telha .

Quedo em silêncio orando a Deus que receba e com Ele guarde bem direitinho Agenor Cabral de Lira Filho. Amém.

Postagens relacionadas: 1) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2016/04/23/catarina-emilia-a-autentica-primogenita/; 2) Renato (https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/26/renato-simples-assim/); 3) (https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2016/06/07/dorinha-um-ser-maiusculo-de-nome-dominutivo/; 4) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/11/30/moleque-ian-seis-anos-de-vida-e-felicidade/; 5) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/23/ao-avesso-do-gorducho-lapao/; 6) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/28/jean-1-ano/; 7) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/28/montreal-2013/; 8) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/28/caue-1-ano/; 9) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2019/05/23/parabens-para-mim-18/; 10) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2019/07/21/celebracao-da-vida-da-familia-e-da-amizade-10/

PS: há lacunas a preencher, sei que estou em dívida e espero em breve pagar outras promissórias: nada me vão custar, são recortes já prontos da minha própria colchas de retalhos. Basta só que o Senhor de Todos Nós oportunize a inspiração.

via Blogger https://ift.tt/2EuFNAt

via Blogger https://ift.tt/3laFLyl

A INESQUECÍVEL FIGURAÇA DAS “QUINAS CANGELADAS”

Sabemos que lembranças (adjetivadas a gosto) são mesmo imperdíveis oportunidades de resgate (quase sempre no frio e distante passado) de profundas emoções ou de intensos sentimentos, a maioria arranca da memória pessoas, fatos e coisas que estavam “perdidas” sabe-se lá onde, umas trazem com elas lágrimas despencando no rosto, outras abrem sorrisos abundantes de morder orelha: é o que se dá comigo, certamente parecido a outros mortais, todos por aqui de passagem.

É verdade que para uns chegados escrevi curtas loas tentando render ao menos umas modestas homenagens (no rodapé há indicações de acesso a elas), mas confesso que raras vezes me encorajei a remexer minhas rasas e leves arcas para debruçar nelas olhos tão alegres como os de hoje, paradoxalmente na missa de trigésimo dia do muitíssimo querido Agenorzinho, assim escrito para distingui-lo doutros de igual nome, do mitológico rei de Tiro ao patriarca dos Cabral.

Tirante saber na Amaro Coutinho que era do fisco estadual, das épocas em que morei em João Pessoa e em Natuba (antes de ir estudar no Rio), pouco recolhi, mas da Cidade Maravilhosa há tanto que não caberia num disco rígido de capacidade normal: a escolha impositiva foi garimpar na cuca o que estava disponível fácil, logo, à bateia, nada perfunctório, contudo.

Começo à porta de apartamento em Laranjeiras onde ele morou, aberta na maior parte quando minha sogra Nailde estava por lá com Margareth: quem poderia esquecer a acolhida sempre afetuosa naquela selva de concreto quente que já era infernal nos Anos 70 até num recanto arborizado? Como não cotejar os banquetes de sofisticados pratos com as léguas de distância do Bandejão da PUC?

Por cerca de quatro anos de andanças entre a Marquês de São Vicente e os lugares onde dormi pela Zona Sul, ouvi ele falar de Denasa, de agropecuárias no Centro-Oeste, de ligações com JK: no fundo, era de política que se tratava, do velho PSD, de uma turma de paraibanos talentosos (com um Cunha Lima no bolo), deduzi das conversas tidas em fortuitas aparições minhas em visita a ele. Soube que trabalhou também nos escritórios das Docas do Rio, concursado, suponho eu.

Na Barata Ribeiro, ele nos hospedou às vésperas do embarque para a Alemanha e foi apresentado a Catarina Emília, nascida poucos meses antes em Aracaju: era uma terça-feira de carnaval, o voo partia tarde da noite e tomamos num daqueles botecos típicos de frequência contumaz uns chopes regados a petiscos, risadas e um incrível relato dos “sobreviventes” (um de muleta, outro com braço na tipoia) duma briga feia havida de madrugada na arquibancada do desfile das escolas de samba.

Década e meia mais tarde e milhares de quilômetros rodados desde o Nordeste atravessando curvas, montanhas e águas marinhas de remanso da deslumbrante Rio-Santos e passando em Angra dos Reis, chegamos eu, Margareth, Biu Nogueira e Raquel à Ilha do Governador e – de cara – fomos batizados no caótico trânsito em batida do nosso Fiat Tipo na traseira doutro carro qualquer.

Foi susto pequeno, dano besta, prejuízo nenhum e – ao contrário – tudo acabou no lucro, porque o episódio ampliou o prazeroso desfrute da generosa hospitalidade dele, deu chance à partilha de mais chopes.

A Constituição Cidadã era recente, morávamos em Recife, tivemos o privilégio da contagiante visita dele e vimos quanto tudo passara rápido: Bertha Carolina (que ele conheceu na volta de Bremen e se apaixonou empurrando ela umas horas no carrinho de bebê pelo aeroporto) crescera e Andreas Cauê (o abençoado segundo presente sergipano da família) já aprontava das suas.

Sim, as areias de Boa Viagem distavam poucas quadras da Hélio Falcão, mas, ao invés de mera sunga de praia, ele preferia sandália, bermuda e uma camisa qualquer, que servia só para compor provisoriamente o figurino na suposta arrumação, porque na hora de sair de casa era automático nele tirar a camisa, dobrar enrolando ao comprido e jogar por cima de um dos ombros: o hábito vinha de longe, lembro dele anos depois agindo igual e vejo no despojado gesto uma atitude de desapego, símbolo da pouca importância que dava a bens materiais, acho.

Duma semana e meia da estadia pernambucana, há uma estória que jamais será apagada. Falo do magistral porre que terminou com nós dois arrastados um de cada lado de Margareth da Conveniência do Posto Shell da Ernesto de Paula Santos (metros à esquerda, pertinho, na esquina) até em casa: foi o saldo do histórico desafio de só parar as talagadas quando a torre de bolachas de chope passasse da altura dos olhos e um não mais visse o outro, parâmetro surreal, passível de explicação só como mania clássica de bêbado.

Voamos num piscar a Brasília, a partir de onde desde 1990 São Paulo e Campinas viraram na prática “caminhos-de-rato” em férias escolares de meio do ano da galera, uma delas estendida à então “oculta”, bucólica e meio “rural” Sepetiba para visitá-lo num saltinho de pressa por uns dias, com esticadinha a Pedra de Guaratiba num domingo de sol.

Claro, uma hora a Praia do Poço e o Bar de Quebé entrariam em destaque neste maravilhoso enredo, justo naquele pedaço que chamamos de paraíso onde ele revia o velho amigo dos tempos pessoenses de juventude: ousaria comentar que sonhou em morar por ali na aposentadoria, pelo brilhar do olhar dele que vi repetido nuns verões.

Da casinha da Monsenhor Renato Pires Ferreira, escolhi a imagem do brinde que fazia à primeira ou qualquer cerveja oportuna: “não sou maior, não sou menor, somos iguais”, dizia ele medindo (de modo alternado, beira com fundo, em cima e embaixo) o que na hora estivesse usando como recipiente, copo, taça ou tulipa, tocando ao final a dele na do parceiro da vez no mesmo nível, de frente, com ênfase. Impossível não concluir que a sequência era uma espécie de ritual declaratório de amizade, de reverência à cumplicidade e companheirismo, de prova maior de ausência de preconceito do vascaíno, que os de agora e os que vierem têm o simples compromisso de honrar adiante no democrático território que sempre abrigou, equidistante, à sombra do eclético cajueiro, botafoguense (Marcelo), torcedor pó-de-arroz (Zé Boquinha) e flamenguista (Zé Cabra).

Pois é: infelizmente, não deu para cumprir a promessa do ano passado combinada com Suzana (que esteve com ele meses atrás), um rolê em setembro para matar a saudade do Rio e abraçar o Oitentão no aniversário dele a compensar nossa ausência na última data redonda festejada.

A pandemia nos impediu de estarmos com Marcone, Serginho, Carlito, Larissa, Zezita e Marilene para dar adeus a ele, mas o faço agora – tranquilo, tristeza contida e algo conformado – finalizando estes selecionados instantes de relevo compartilhados com ele, as melhores cenas vindas à tona comigo de espectador ou coadjuvante, ele de protagonista.

Realmente, num momento enternecido, gravoso e pesado por tradição, não me ocorreu no mês todo mínima dúvida nem surpresa qualquer de aflorarem somente referências positivas, inspiradoras e leves. Nada de diferente seria de esperar, até porque os depoimentos de todas as irmãs corroboram a excelência humana do caráter fraternal, elas que jamais ouviram dele uma grosseria menor que fosse.

É assim o tempo, o mundo e a vida, trocam as estações, endereços mudam, segue em curso a dinâmica redonda da terra: o cardápio de alcunhas é variado, pode ser destino, sorte, acaso, o que cada um quiser adotar de descritivo.

A quem até aqui viajou este fascinante percurso, digo: mandem daí os “pingos-de-is” que faltaram, sem acanhamento de acrescer o que vier na telha .

Quedo em silêncio orando a Deus que receba e com Ele guarde bem direitinho Agenor Cabral de Lira Filho. Amém.

Postagens relacionadas: 1) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2016/04/23/catarina-emilia-a-autentica-primogenita/; 2) Renato (https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/26/renato-simples-assim/); 3) (https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2016/06/07/dorinha-um-ser-maiusculo-de-nome-dominutivo/; 4) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/11/30/moleque-ian-seis-anos-de-vida-e-felicidade/; 5) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/23/ao-avesso-do-gorducho-lapao/; 6) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/28/jean-1-ano/; 7) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/28/montreal-2013/; 8) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/28/caue-1-ano/; 9) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2019/05/23/parabens-para-mim-18/; 10) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2019/07/21/celebracao-da-vida-da-familia-e-da-amizade-10/

PS: há lacunas a preencher, sei que estou em dívida e espero em breve pagar outras promissórias: nada me vão custar, são recortes já prontos da minha própria colchas de retalhos. Basta só que o Senhor de Todos Nós oportunize a inspiração.

via Blogger https://ift.tt/2EuFNAt

via Blogger https://ift.tt/2YtCP6u

A INESQUECÍVEL FIGURAÇA DAS “QUINAS CANGELADAS”

Sabemos que lembranças (adjetivadas a gosto) são mesmo imperdíveis oportunidades de resgate (quase sempre no frio e distante passado) de profundas emoções ou de intensos sentimentos, a maioria arranca da memória pessoas, fatos e coisas que estavam “perdidas” sabe-se lá onde, umas trazem com elas lágrimas despencando no rosto, outras abrem sorrisos abundantes de morder orelha: é o que se dá comigo, certamente parecido a outros mortais, todos por aqui de passagem.

É verdade que para uns chegados escrevi curtas loas tentando render ao menos umas modestas homenagens (no rodapé há indicações de acesso a elas), mas confesso que raras vezes me encorajei a remexer minhas rasas e leves arcas para debruçar nelas olhos tão alegres como os de hoje, paradoxalmente na missa de trigésimo dia do muitíssimo querido Agenorzinho, assim escrito para distingui-lo doutros de igual nome, do mitológico rei de Tiro ao patriarca dos Cabral.

Tirante saber na Amaro Coutinho que era do fisco estadual, das épocas em que morei em João Pessoa e em Natuba (antes de ir estudar no Rio), pouco recolhi, mas da Cidade Maravilhosa há tanto que não caberia num disco rígido de capacidade normal: a escolha impositiva foi garimpar na cuca o que estava disponível fácil, logo, à bateia, nada perfunctório, contudo.

Começo à porta de apartamento em Laranjeiras onde ele morou, aberta na maior parte quando minha sogra Nailde estava por lá com Margareth: quem poderia esquecer a acolhida sempre afetuosa naquela selva de concreto quente que já era infernal nos Anos 70 até num recanto arborizado? Como não cotejar os banquetes de sofisticados pratos com as léguas de distância do Bandejão da PUC?

Por cerca de quatro anos de andanças entre a Marquês de São Vicente e os lugares onde dormi pela Zona Sul, ouvi ele falar de Denasa, de agropecuárias no Centro-Oeste, de ligações com JK: no fundo, era de política que se tratava, do velho PSD, de uma turma de paraibanos talentosos (com um Cunha Lima no bolo), deduzi das conversas tidas em fortuitas aparições minhas em visita a ele. Soube que trabalhou também nos escritórios das Docas do Rio, concursado, suponho eu.

Na Barata Ribeiro, ele nos hospedou às vésperas do embarque para a Alemanha e foi apresentado a Catarina Emília, nascida poucos meses antes em Aracaju: era uma terça-feira de carnaval, o voo partia tarde da noite e tomamos num daqueles botecos típicos de frequência contumaz uns chopes regados a petiscos, risadas e um incrível relato dos “sobreviventes” (um de muleta, outro com braço na tipoia) duma briga feia havida de madrugada na arquibancada do desfile das escolas de samba.

Década e meia mais tarde e milhares de quilômetros rodados desde o Nordeste atravessando curvas, montanhas e águas marinhas de remanso da deslumbrante Rio-Santos e passando em Angra dos Reis, chegamos eu, Margareth, Biu Nogueira e Raquel à Ilha do Governador e – de cara – fomos batizados no caótico trânsito em batida do nosso Fiat Tipo na traseira doutro carro qualquer.

Foi susto pequeno, dano besta, prejuízo nenhum e – ao contrário – tudo acabou no lucro, porque o episódio ampliou o prazeroso desfrute da generosa hospitalidade dele, deu chance à partilha de mais chopes.

A Constituição Cidadã era recente, morávamos em Recife, tivemos o privilégio da contagiante visita dele e vimos quanto tudo passara rápido: Bertha Carolina (que ele conheceu na volta de Bremen e se apaixonou empurrando ela umas horas no carrinho de bebê pelo aeroporto) crescera e Andreas Cauê (o abençoado segundo presente sergipano da família) já aprontava das suas.

Sim, as areias de Boa Viagem distavam poucas quadras da Hélio Falcão, mas, ao invés de mera sunga de praia, ele preferia sandália, bermuda e uma camisa qualquer, que servia só para compor provisoriamente o figurino na suposta arrumação, porque na hora de sair de casa era automático nele tirar a camisa, dobrar enrolando ao comprido e jogar por cima de um dos ombros: o hábito vinha de longe, lembro dele anos depois agindo igual e vejo no despojado gesto uma atitude de desapego, símbolo da pouca importância que dava a bens materiais, acho.

Duma semana e meia da estadia pernambucana, há uma estória que jamais será apagada. Falo do magistral porre que terminou com nós dois arrastados um de cada lado de Margareth da Conveniência do Posto Shell da Ernesto de Paula Santos (metros à esquerda, pertinho, na esquina) até em casa: foi o saldo do histórico desafio de só parar as talagadas quando a torre de bolachas de chope passasse da altura dos olhos e um não mais visse o outro, parâmetro surreal, passível de explicação só como mania clássica de bêbado.

Voamos num piscar a Brasília, a partir de onde desde 1990 São Paulo e Campinas viraram na prática “caminhos-de-rato” em férias escolares de meio do ano da galera, uma delas estendida à então “oculta”, bucólica e meio “rural” Sepetiba para visitá-lo num saltinho de pressa por uns dias, com esticadinha a Pedra de Guaratiba num domingo de sol.

Claro, uma hora a Praia do Poço e o Bar de Quebé entrariam em destaque neste maravilhoso enredo, justo naquele pedaço que chamamos de paraíso onde ele revia o velho amigo dos tempos pessoenses de juventude: ousaria comentar que sonhou em morar por ali na aposentadoria, pelo brilhar do olhar dele que vi repetido nuns verões.

Da casinha da Monsenhor Renato Pires Ferreira, escolhi a imagem do brinde que fazia à primeira ou qualquer cerveja oportuna: “não sou maior, não sou menor, somos iguais”, dizia ele medindo (de modo alternado, beira com fundo, em cima e embaixo) o que na hora estivesse usando como recipiente, copo, taça ou tulipa, tocando ao final a dele na do parceiro da vez no mesmo nível, de frente, com ênfase. Impossível não concluir que a sequência era uma espécie de ritual declaratório de amizade, de reverência à cumplicidade e companheirismo, de prova maior de ausência de preconceito do vascaíno, que os de agora e os que vierem têm o simples compromisso de honrar adiante no democrático território que sempre abrigou, equidistante, à sombra do eclético cajueiro, botafoguense (Marcelo), torcedor pó-de-arroz (Zé Boquinha) e flamenguista (Zé Cabra).

Pois é: infelizmente, não deu para cumprir a promessa do ano passado combinada com Suzana (que esteve com ele meses atrás), um rolê em setembro para matar a saudade do Rio e abraçar o Oitentão no aniversário dele a compensar nossa ausência na última data redonda festejada.

A pandemia nos impediu de estarmos com Marcone, Serginho, Carlito, Larissa, Zezita e Marilene para dar adeus a ele, mas o faço agora – tranquilo, tristeza contida e algo conformado – finalizando estes selecionados instantes de relevo compartilhados com ele, as melhores cenas vindas à tona comigo de espectador ou coadjuvante, ele de protagonista.

Realmente, num momento enternecido, gravoso e pesado por tradição, não me ocorreu no mês todo mínima dúvida nem surpresa qualquer de aflorarem somente referências positivas, inspiradoras e leves. Nada de diferente seria de esperar, até porque os depoimentos de todas as irmãs corroboram a excelência humana do caráter fraternal, elas que jamais ouviram dele uma grosseria menor que fosse.

É assim o tempo, o mundo e a vida, trocam as estações, endereços mudam, segue em curso a dinâmica redonda da terra: o cardápio de alcunhas é variado, pode ser destino, sorte, acaso, o que cada um quiser adotar de descritivo.

A quem até aqui viajou este fascinante percurso, digo: mandem daí os “pingos-de-is” que faltaram, sem acanhamento de acrescer o que vier na telha .

Quedo em silêncio orando a Deus que receba e com Ele guarde bem direitinho Agenor Cabral de Lira Filho. Amém.

Postagens relacionadas: 1) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2016/04/23/catarina-emilia-a-autentica-primogenita/; 2) Renato (https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/26/renato-simples-assim/); 3) (https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2016/06/07/dorinha-um-ser-maiusculo-de-nome-dominutivo/; 4) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/11/30/moleque-ian-seis-anos-de-vida-e-felicidade/; 5) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/23/ao-avesso-do-gorducho-lapao/; 6) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/28/jean-1-ano/; 7) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/28/montreal-2013/; 8) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2013/12/28/caue-1-ano/; 9) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2019/05/23/parabens-para-mim-18/; 10) https://jbmagalhaesneto.wordpress.com/2019/07/21/celebracao-da-vida-da-familia-e-da-amizade-10/

PS: há lacunas a preencher, sei que estou em dívida e espero em breve pagar outras promissórias: nada me vão custar, são recortes já prontos da minha própria colchas de retalhos. Basta só que o Senhor de Todos Nós oportunize a inspiração.

via Blogger https://ift.tt/2EuFNAt

via Blogger https://ift.tt/2YtCP6u