terça-feira, 7 de junho de 2016

DORINHA, UM SER MAIÚSCULO DE NOME DIMINUTIVO

DORINHA, UM SER MAIÚSCULO DE NOME DIMINUTIVO

Por mais vontade que se tenha ou maior esforço que se faça, há palavras impossíveis de serem ditas sob incontida e indisfarçável emoção. 

Se for assim - quando cérebros parecem diminuir ou neurônios se embotar, ao menor sinal de que sinapses esmaeceram, goelas se deram nós e línguas preferiram silenciar - resta tentar guardar as ideias e só as expressar se e quando resplandecer a poderosa e benfazeja luz da inspiração.

É esse o caso: no velório, não ousei falar, muito menos no sepultamento dela pude dizer alguma coisa. Ainda bem que a tristeza daquelas horas me inibiu e quem estava lá foi poupado da provável voz minha embargada, trêmula e inaudível, se é que eu teria conseguido abrir a boca.

Agora, nestas poucas letras eivadas de grande sentimento, é o momento de homenagear a quem eu tanto gostava.

Foi longa e insone a noite depois que meu cunhado - ao confirmar o grave prognóstico feito por ele hora antes - ligou de volta de Campinas e de pronto antecipou que não tinha boa notícia: ela falecera, o livro da vida terrena dela se fechara.

Aquele telefonema vindo do longínquo interior paulista trouxe chocante tristeza, é claro, mas logo fez disparar a recarga na minha memória só de coisas boas, de alegres momentos, de marcantes e inconfundíveis traços da destacada cunhada.

Exatamente de lá, duma nada comedida farra na noite campineira de muitos anos atrás com a amiga Onelice vieram fresquinhas lembranças da mulher idealista, pragmática e guerreira, que sonhou crescer a vida inteira, até mesmo já de cabeça esbranquiçada.

Dali, foi um pulinho até João Pessoa, aos dias e às tardes em que tive o privilégio de compartilhar com ela e Helena que se preparavam à ascensão na carreira professoral alguma intimidade minha  com as mais cabeludas equações matemáticas e com o vernáculo todo escorreito, duas eternas paixões nossas.

Desse jeito singular fui de fato apresentado a uma mulher de fibra, de luta e de coragem, vem daí a admiração por ela, à meia-idade e ávida por conhecimento: era o que saltava aos meus olhos, ela querendo tudo absorver do que ainda não dominava direito, do que ensinaria mais tarde decerto melhor do que aprendera, a velha e infalível receita da dedicação e do amor à mais nobre de todas as profissões, o magistério.

Esse gosto pelo acúmulo e transmissão do saber era recíproco e comum em nós dois, acho que por isso ela nunca economizava elogios falando de mim, outra inconteste prova da benquerença dela comigo, mais uma característica da sua enorme generosidade.

Num piscar, já me vi na casa dela em Itabaiana, um oásis no meio daquela poeirenta e pedregosa estrada margeando o Rio Paraíba até a Barra, que só molhava os pneus nas treze passagens de água já no trecho final. Era um desconfortável estirão de um solavanco só, muita ladeira acima e abaixo, que reforçava a platitude emblemática daquela obrigatória parada nas viagens de João Pessoa a Natuba, um inesquecível endereço onde - mais que refresco geladinho, bolo-de-lamber-beiço e café quente da hora - se servia à vontade muito carinho, acolhimento e abraços indescritíveis, impagáveis.

Como é bom resgatar aqueles cheiros, sabores e gestos afetuosos, sei que eles permanecem em mim, em toda a família. Inclusive porque lembram um passado maravilhoso, vivo e presente, instantes para sempre, dignos de pompa, de reverência e de agradecimento.

Ah, por falar em Natuba, como poderia eu esquecer da matriz e da praça da cidade onde morei, fui docente e festeiro de tantas vastas madrugadas adentro? Sim, ela trazia no nome a padroeira do lugar de nascimento: haveria devoção mais adequada a uma autêntica Mariana? Sim, o espaço no pé da subida da serra, defronte ao posto de saúde e ao lado do córrego na lateral da casa de Seu Agenor e de Dona Nailde tinha o nome dela também. Eu seria até capaz de imaginar ela subindo no pontilhão, brincando na calçada e correndo ali na rua, quase com a mesma nitidez que a vi umas vezes ajudando a arrumar a missa, a decorar o ambiente do culto prestes a começar e a sentar naqueles bancos de madeira, de terço na mão e de escapulário à volta do pescoço.

Para mim, tinha suficiente boca-de-siri, via fortuitas cenas potencialmente comprometedoras e as recolhia pelo prazo necessário em segredo conveniente, para preservar a imagem e a reputação de quem era dela preferido. Tanto que  eu mesmo sei e não vou contar a ninguém dum namorico passageiro que ela flagrou e jamais testemunhou a quem talvez interessasse.

Não era alcoviteira, mas é sabido que ora ajeitava no bastidor namoro de gente conhecida, ora criava clima favorável à paquera de alguém: como se dizia então, cortava jaca de montão para incentivar casamento na família. Mas, o dela próprio não teve como segurar, sabe-se lá por quê. Só sei que - infelizmente, por acaso, numa folga da minha faculdade no Rio de Janeiro - fui testemunha de parte do processo da separação, acompanhei a triste audiência no Fórum de Itabaiana. Meu noivado já estava firme e sólido, em nada ficou abalado, mas me impressionou a força, a altivez e a firmeza de propósito que mostrou diante de todo aquele constrangimento, provavelmente um denominador nas mulheres da família dela, hoje também minha, graças a Deus.

Enxergava nela às vezes uns ares de mansidão ou de aparente fragilidade, nunca de subserviência. Ao contrário, estava à frente da maioria na independente atitude feminina, era ativa a ponto de amealhar boa grana no mascate de joias de ouro, prata e pedras preciosas. Convivi pouco com ela, certamente insuficiente tempo para descrever dotes e habilidades dela com finanças, mas cheguei a ver de soslaio no Pedro Gondim como brilhava no meio de ricas peças, era uma comerciante nata.

Alegria foi quase sempre uma constante nela, que o diga os bailes do Mercado Municipal de Natuba, que superavam toda a precariedade do ambiente com o transbordante entusiasmo dela. Era assim também na Casa da Praia do Poço, que ela regularmente frequentava nas nossas férias anuais, ao menos num ou noutro final de semana, nos churrascos regados a cerveja farta, sempre. A ausência era notada, a presença mais ainda, por conta do seu carisma e das histórias familiares que contava. Aliás, o relato que nos fez de um dos muitos carnavais passados com suas amigas em Salvador foi o empurrão que precisávamos para incluir no nosso roteiro as esplendorosas festanças baianas. Eu digo que valeu, foi bom demais ter prestado atenção à precisa descrição feita, nunca iremos nos arrepender de ter seguido o conselho.

Acho que em todas as nossas estadias em João Pessoa visitamos aquela casa do Conjunto João Agripino em clima de alto astral. Mas, passar de carro lá por perto na BR 230, traz de volta fatídica lembrança, tragédia jamais esquecida. A perda de Juliana fez aquela exemplar mãe-substituta envelhecer décadas em míseras semanas: nunca mais ela foi a mesma, tentava disfarçar, mas todos sabíamos que as lágrimas escorridas pela face dela levaram abaixo sua jovialidade, a mulher festeira deu lugar à sofrida avó.

Essas curtas reminiscências vieram à tona numa lapada ao ver, na Central de Velórios São Joao Batista, Dinoá alisando os cabelos dela. Ouvi apenas algumas frases ditas por ele, nada parecido com os eloquentes discursos; mas aquele gesto dele, os sussurros dele no ouvido dela pareciam uma desesperada tentativa de último diálogo, fraterno e comovente ritual que Lili repetiu quase igual.

Chorei junto com o mea culpa de Tarcísio, ele definiu de uma vez por todas a mãezona que tinha, sempre disponível a apoiar em qualquer circunstância a correção de todo erro.

Eu vi Carla a toda emoção mostrar o quanto estava sofrendo, a mão tremia, a voz saiu a fórceps, cumpriu o prometido: ficar ao lado da mãe até o fim.

Aprendi com Felipe, um dos netos ali, uma inesquecível lição da metodologia de formação do caráter da gente: ele provou que parte dos nossos valores são herdados, parte vem por osmose, da convivência, do exemplo.

O celebrante da encomenda do corpo falou dela como mulher da igreja, solidária na partilha até das frutas que vinham dos sítios da família no interior. Quando ele reforçou a imagem dela como uma pessoa de fé, acho que quis nos relembrar o quanto isso foi importante nas tantas dificuldades vividas por ela; de minha parte, lembrei da doença que ela enfrentou com dignidade impar, que fez daquele extirpe um abalo pra lá de besta, no máximo.

Sou grato pela oportunidade que tive de estar aqui, de vê-la pela última vez. 

Como valeram os inúmeros telefonemas e as horas a fio na internet tentando achar uma passagem aérea para chegarmos a tempo em João Pessoa, prestar a devida homenagem a quem tão importante foi, é e continuará sendo para a nossa família.

Andreas Cauê soube depois, mas tenho certeza que sentiu muito a perda e a impossibilidade de estar presente; Catarina Emília esteve a noite inteira conosco e até no caminho do aeroporto de Brasília lembrava de coisas boas vividas em comum com ela; Bertha Carolina lembrou da visita feita quando esteve no Brasil há dois anos, recordou que ela fez questão de registrar o momento como uma despedida. Eu também tive essa estranha sensação em março deste ano quando a visitei: olhar distante, voz mais baixinha que a de sempre, fraquinha, sem o charme de outrora, o andar lento demais para que tão faceira e diligentemente viveu quase toda a vida.

Agradeço a Margareth por me ter estimulado a escrever essas breves  linhas em memória de Maria das Dores Dinoá Cabral, a nossa queridíssima Dorinha, um Ser Maiúsculo de Nome Diminutivo, como disse no merecido título. 

Que Deus a tenha.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

O IMPAGÁVEL E ENIGMÁTICO CALOTE DIALÉTICO

A propósito de recente postagem feita pelo meu filósofo preferido, o querido amigo Luiz Oliveira e Silva, que - mais uma vez ousou tentar esclarecer nas mídias cibernéticas a nossa cotidiana bagunça institucional - larguei minha besta, simplória e linear rotina diária, resolvi incursionar no complexo, hermético e desalmado mundo dos rentistas e tomei a liberdade de me manifestar sobre o troncho status quo da vida nacional, tomando emprestado dos cambistas a esfíngica linguagem, incorporando a deliberadamente confusa lógica dos investidores e usando o sempre eficiente e reconhecidamente perverso sofisma dos acionistas de bolsas com perfis comportamentais que mais se aproximam de punguistas à procura de desavisados, ingênuos ou otarios bolsos alheios.

O insolvente déficit civilizatório brasileiro referido é astronômico, com expressivo viés de alta, e, por consequência,  tendente a cumulativo: provavelmente, assumirá volume irrecuperável, se for mantido o atual ritmo de inserção cidadã, que é de lento compasso, baixíssima produtividade e desastrosa efetividade, porque se lastreia em falsas premissas secularmente repetidas e flutua ao sabor da manipulação comandada por escusos interesses estrangeiros em conluio com idiotas elites autóctones que até hoje insistem na manutenção da desumana equação composta por commodities sem valor agregado, uma matriz unicamente solúvel por meio da educação, este luminoso vetor de incalculáveis efeitos benéficos, ora despotencializado, quiçá inativo.

Por associação, deduz-se que o irreparável dano político já causado com as perdas sociais tupiniquins não é meramente conjuntural.

Abstraídos ou isolados até mesmo todos os conhecidos atributos de recorrência e de sazonalizade, ele revela tanto a vulnerabilidade sistêmica do país quanto a presença de fatores estruturais negativos que o transformaram em derivativo nitidamente não prudencial, porquanto contaminado por elevada taxa de risco democrático. 

Assim, pode-se afirmar com certo grau de previsibilidade que o nosso mercado republicano interno apresenta inquestionável contorno volátil, cuja confiabilidade institucional endógena parece severamente comprometida no curto prazo, a recomendar - em nome da elementar governança explícita da nação - emergencial intervenção direta, sob pena de inevitável desagregação federativa intrínseca e de intensificação popular das já bem acentuadas tensões conflituosas existentes nas disputas entre estratos econômicos da histórica frágil textura da nossa sociedade.

Ou seja: previna-se, proteja-se, feche-se, porque a trolha está vindo aí e, para além disso, tudo é colapso absoluto, nada mais se poderá fazer, afinal.

Um último aviso a quem não prestou devida atenção ao dito ou se embotou no entendimento da coisa: essa não é uma minuta de ata da próxima reunião do COPOM, nem resumo preliminar da nova edição do Boletim do BACEN.

Trata-se tão somente de uma reflexão insone, lavrada sob garantia de total ausência de influência etílica, um pretenso testemunho analítico deste observador pouco sintético, nada minimalista e muito verborrágico.

A todos deseja-se uma boa noite, uma tranquila madrugada ou um calmo raiar de dia.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

METODOLOGIA FICTÍCIA DE INCENTIVO À REAL APOSENTADORIA MASCULINA DE RETICENTES

As Forças Armadas Americanas perceberam que tinham muitos oficiais dos mais altos postos ainda na ativa e precisavam que alguns deles se aposentassem rápido.

Eles sugeriram diversos planos de aposentadoria aos veteranos, mas nada parecia agradar a todos.

Desesperados, eles prometeram que, para qualquer oficial das mais altas patentes que se aposentasse imediatamente, seriam dados os seus benefícios anuais completos, e mais 1.000 dólares para cada centímetro medido em uma linha reta entre quaisquer dois locais do seu corpo. 

Por exemplo, o potencial interessado no plano de incentivo à aposentadoria poderia escolher o seu cotovelo como ponto A e o seu dedão da mão como ponto B. Se a distância entre A e B fosse, digamos, 45 cm, ele receberia 45.000 dólares. 

O primeiro homem, um Brigadeiro da Força Aérea, aceitou a proposta. 

Ele escolheu que medissem do topo da sua cabeça até a ponta dos dedos dos pés. 

O resultado foi 1,83 cm e ele saiu de lá com um cheque de 183 mil dólares.

O segundo homem, um General do Exército, pediu que medissem da ponta dos dedos das mãos até a ponta dos dedos dos pés. 

Antes de medirem, ele estendeu as mãos o mais alto que pôde. 

O resultado foi 240 centímetros e ele saiu de lá com 240.000 dólares!

Quando chegou a vez do terceiro veterano de guerra, um Almirante da Marinha, ele escolheu: "Quero que meçam da ponta do meu pênis até os meus testículos".

O homem que tomava as medidas, surpreendido, sugeriu que o oficial reconsiderasse sua escolha, mostrando o quanto os outros dois haviam recebido, mas ele insistiu que queria isso mesmo. 

O homem então pediu que o Almirante abaixasse as calças, para fazer a medição em causa.

Ele colocou a fita métrica no lugar e, assim que começou, percebeu que havia algo errado.

"Meu Deus!! Onde estão os seus testículos?!", exclamou o homem. 

O Almirante, com um sorriso no rosto, respondeu: "No Vietnã". 

(Texto adaptado de piada de domínio público, agora disponibilizado para reflexão de conhecida estatal em busca de estratégia de convencimento aplicável a teimosos jurássicos remanescentes dos seus longínquos tempos de glória) 

sábado, 23 de abril de 2016

CATARINA EMÍLIA, A AUTÊNTICA PRIMOGÊNITA


CATARINA EMÍLIA, A AUTÊNTICA PRIMOGÊNITA.



Como era esperado, deveria ter sido e de fato se deu, ela desencadeou a linhagem da nossa abençoada família em grande estilo.

Na gravidez da mãe foi tudo tranquilo, mas no intercorrente parto ela já se distinguiu, chegou causando numa boa, talvez querendo dizer: gente, cheguei, sintam-se todos felizes.

E foi exatamente assim: casa cheia todo o tempo, visitantes de montão, parentes a rodo de longe, muitos amigos de perto, extensa romaria de festa e de alegria atraída pelo brilho que ela já irradiava, vindo do imenso carisma materno e de algumas pitadas genéticas minhas.

A bebedeira do mijo começou no dia da saída da maternidade e durou semanas, nem resguardo houve porque a fama da magistral quituteira paraibana já tinha se alastrado pela capital de Sergipe del Rey, a linda e acolhedora Aracaju.

Daqueles dias e noites adentro, até hoje vejo profusos sinais divinos que desde lá anunciavam ter nascido de nós uma pessoa iluminada, o marco primeiro de uma verdadeira e plena família cristã que sonhamos e queremos ser.

No nome da filha, Margareth - com indisfarçável benquerença e justo afinco às raízes - homenageou a Tia Tita, que vi umas poucas vezes em Natuba e de quem retenho na memória a marcante figura e os expressivos olhos.

Do meu lado, acho que ela tem muito de minha saudosa irmã Ruth: é expansiva, do tipo que é notada logo na chegada, que nunca passa despercebida onde está e que enche o espaço até então ávido por ser ocupado por alguém habilitado e disposto.

Catarina Emília estreou e segue do jeito que sempre foi: atraente, dada, agregadora.

Fosse alguém da querida tropa de Leninha e Batista, de Ivan e Concita, de Elba e "Frei" Beto ou dos incontáveis convivas chegados a nós, era a mesma simpatia e carinho: não importava a patente, a titularidade ou outro adereço da besta vaidade humana, ela vivia de braço em braço no meio deles, convergindo a  partilha de tantos inesquecíveis momentos na terra natal dela, também nossa, por grata afinidade.

Foi igual em Saarbrücken, no mês da aclimatação nossa no sudoeste da Alemanha, fronteira com a França, para onde iam alunos-bolsistas desse mundão inteiro, que à época parecia ser ainda bem maior.

Bastava a gente entrar no refeitório coletivo do hotel-albergue que colegas europeus, latinos, asiáticos, africanos ou sei lá-de-onde logo tomavam ela de nós e a faziam passar de mão em mão, como se fosse um emblemático troféu daquele caloroso e indescritível caleidoscópio humano. 

A brasileirinha, a única criança ali, mitigava a saudade da família deles que não viera junto, alguns se emocionavam só de vê-la porque nela tinham retratada a Maria, a Samira, a Raquel ou a Aisha que deixaram com a mãe em casa, enquanto eu e Margareth nada podíamos fazer senão dividir com todos nossa pequenina mascote.

Até os gélidos anfitriões germânicos se derretiam com o contagiante sorriso, o cativante olhar e a aura luminosa da "lourinha bela dos trópicos", eu conseguia fácil receptivas portas, corações rápido amoleciam e do nada a generosidade vinha quando eu levava ela em alguma reunião, visita ou encontro em Bremen.

Nunca foi calada, nem mesmo nas primeiras letras alemãs, à volta de um ano de idade: que o diga nossa inesquecível anjo-da-guarda da longínqua Waldbüttelbrunn, um lugarzinho perdido que virou nosso porto seguro. Lá, aquela mulher, Helene, mais aquele vilarejo com nome de fonte são testemunhas da precocidade da nossa falante pequerrucha.

As rosadas bochechas de Frau Brich não escondiam o riso surpreso quando Catarina Emília construía frases difíceis no idioma deles e uma vez ruborizaram de todo quando a rechonchuda franca soltou uma sutil bufa na sala e foi inocentemente denunciada em perfeito alemão: "Frau Brich hat gefurzt", disse nossa filha na frente de todos.

Opinativa, veemente e assertiva são atributos notáveis de cara, foram mantidos quase intactos, o tempo não os empalideceu nela; talvez tenham sido eles levemente domados na personalidade dela com a maturidade que vem chegando, sem perda da autenticidade, da força e da espontaneidade, graças a Deus.

Desapegada, jamais caberia ela no molde do crítico direito preferencial a herança de qualquer tipo ou sequer teria ela o mínimo desejo de posse exclusiva de nada, coisas típicas da progenitura distorcida, equivocada ou doentia, que traz cizânia, desconfiança e ciumeira, como se vê cada vez mais por aí.

Ao contrário, generosa e emotiva, ela é daquelas que sofrem e choram solidariamente, mas vão à luta sem medo, desafiam adversidades de frente e têm coragem de sobra para o que der e vier adiante na vida.

Por isso, meninota, era o xodó; adolescente, virou referência festiva, da Praia do Poço, em João Pessoa, à Asa Norte, em Brasília; adulta, nunca recusa convite da turma, nem do trampo, nem da igreja, nem da farra. 

É assim até hoje, eu sei, sabemos todos.

Não falei tudo, nem de longe o suficiente, mas vou ter de suspender o descritivo e retomar a narrativa outro dia, tentar completar o que falta, porque já é quase noitinha, os Peganynguem vão invadir a área de lazer de nossa casa daqui a pouco e o churrasco não vai ter hora para acabar.

SALVE 23 DE ABRIL DE 2016. QUE DEUS E SÃO JORGE TE PROTEJAM SEMPRE.

PARABÉNS, QUERIDA FILHA CATARINA EMÍLIA: VIDA, PAZ, AMOR, SUCESSO.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

GÊNIO É FEITO DE QUÊ?

Um dia, o pequeno Thomas Edison voltou da escola trazendo um bilhete da professora para sua mãe, que só ela deveria abrir.

Lágrimas nos olhos, ela leu alto o teor para ele: "Seu filho é um gênio e nossa escola não pode continuar com ele porque não temos professores suficientemente bons para isso. Por favor, ensine você mesma a ele a partir de agora."

Muitos anos depois, morta sua mãe e ele já reconhecido dentre os melhores cientistas do seu tempo, encontrou nas coisas da família o tal bilhete na gaveta duma escrivaninha de canto de sala.

Nele, estava escrito: "seu filho é mentalmente limitado e nós não gostaríamos de continuar com ele em nossa escola."

Depois do choro, ele escreveu no seu diário: "Thomas Edison foi uma criança incapaz que - graças a heroico ato de sua mãe - virou um dos maiores gênios desse século."

domingo, 13 de março de 2016

ADVINHE QUEM VEIO PARA JANTAR NO IPIRANGA

coisa foi concebida numa noitada ébria, tresloucada e adúltera, teve gestação às tontas e às escondidas e nasceu a fórceps com equipe parteira clandestina, mal treinada e que se achava esperta o suficiente.

Foi assim porque o médico especializado já de bisturi na mão cobrava os tubos para a cesariana, tinha de emitir nota fiscal bonitinha e documentar direitinho o completo procedimento.

Tentando apressado limpar as mãos, o ambiente e a cena da operação feita a toque de caixa, um aloprado deixou álcool se espalhar pela sala e contaminou tudo, pois o produto era "batizado", impuro, de péssima qualidade, nem para cana servia: era daquele que deixa marcas para sempre, no fígado, nos neurônios, no juízo.

Por isso, ali, o vicio se instalou com força e eles nunca deixaram a bebedeira: vivem de porre todo tempo, embriagados também de insuperável ignorância cultural, cega intolerância política, incorrigível arrivismo social, preferência compulsiva por grana suja e extrema soberba do poder.

Tanto que se descambou em supostamente generosos ágapes de sofisticado cardápio, regados a destilados de fino gosto e vinhos de castas nobres, raros mesmo em premiadas e custosas adegas, tudo celebrado à penumbra e sob rica cortina de fumaça vinda de charutos insulares.

Celebridades até internacionais faziam visitas, assinavam livro de ouro, beliscavam uns petiscos, tomavam uns tragos, sentavam à farta mesa, davam declarações de chancela e indireto respaldo à tramoia urdida e em andamento, uns por ingenuidade, outros por encantamento e alguns por acreditar, de fato, simples assim.

Num passe de mágica, expertise em quase tudo surgiu do nada, milionários cachês pingavam na conta toda hora, foi doação à mão tão cheia que se criou o bolso-família da parentada todinha.

O bolo da sobremesa tinha tanto ingrediente, fermento e mexe-mexe que cresceu para além da forma, inchou até rachar, espalhou caramelo à vontade, tão fácil e na moleza que a patota se lambuzou como nunca antes se tinha visto, nem aqui, nem lá, nem acolá, nem na baixa-da-égua, nem no cafundó-do-judas.

Mas, por incompetência, descuido ou puro desdém com a já feita coisa, parte da sobra visível do fausto banquete, das iguarias apimentadas demais e do grosso caldo melado acabou sendo exposta depois à luz do dia como se nada valesse, pensando que ninguém iria notar, como se lixo fosse, rebotalho tão desprezível ao ponto de sequer merecer ser catado.

Acontece que antes de alguém passar o rodo na meleca, coletar a sujeira ou lavar tudo depressa, gente curiosa, bisbilhoteira e de lupa nos olhos quis remexer o entulho, abriu a tampa do depósito, enfiou o dedo de cima a baixo na porcaria, fez o ar circular dentro da imundície e gerou uma fermentação violenta e sem controle.

Aí se começou a descobrir que - além de se revelar ter sido caríssima ao invés de gratuita como anunciada - a indigesta mistura da comida com a bebida produziu no anfitrião e nos ilustres convidados indisfarçáveis gases mal cheirosos e diarreia de borrar cueca, calça e chão de privada.

Deu no que deu, o sonho acabou e agora é isso que está rolando por aí, todo jeitão de pesadelo, que ainda vai demorar para chegar ao fim.

Infelizmente, porém, quem não era comensal, nunca foi convidado e jamais pousou lá para compartilhar da alegre festança desregrada e nela sequer tomou um mísero golinho ou mordeu um pedaço da apetitosa bandeja, agora paga compulsoriamente a bem salgadinha despesa, tenta limpar o fétido vômito espalhado por toda parte e vai curtir solidário a tremenda ressaca longamente, sem ter opção.

domingo, 6 de março de 2016

LAVA-JATO

LAVA-JATO

MILAGROSA JABOTICABA INSTITUCIONAL?

Tem gente fervorosa querendo a pontual operação de limpeza anticorrupção ampliada em grande angular, focando o Brasil inteiro, mesmo sob risco de incontornável embaçamento refratário e inevitável perda de profundidade: em vez de sanitizar os bólidos ora à mão na garagem, na baia ou no pátio, esses estão ávidos por espetaculosa faxina geral automática da sujeira há muito acumulada em toda a frota nacional, se esquecendo de que não haverá aspirador, vassoura, balde, água, detergente e esponja suficientes à disposição no estoque do almoxarifado da ética.

Outros se contentariam ingenuamente em vê-la como lava-pés misericordioso: a justiça anfitriã perdoando dívidas plebéias e/ou farisaicas, mantidas sujas ou convenientemente escovadas as sandálias para futuro reuso. Afinal, diriam eles, desvios sempre ocorreram, perdidos na ida serão achados na volta, a trilha da vida precisa seguir adiante, sob a normalidade costumeira. Fosse assim, cinzas renasceriam, oportunas, quaresmais, mas injustas, vergonhosas, impuras, porque não cabe renovadora páscoa aos farristas do insolente carnaval privado comemorado às custas do dinheiro público.

E, ainda, existe quem sem disfarce, pudor ou respeito torça para que tudo vire conivente, omisso ou covarde lava-mão, batizado cinicamente até de republicano, donde emergiremos todos como co-responsáveis da escandalosa roubalheira, todos igualmente culpados do gigantesco mal-feito urdido à restrita calada: aí, teremos lavada a outrora sonhada bendita alma, estaremos quiçá sublimados em unção coletiva, solidária e nada balsâmica ou, de posse do alheio, seremos para sempre amaldiçoados, por óbvio.