segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

MONUMENTAL HECATOMBE FINANCEIRA NO PENÚLTIMO DIA DE 2013

Calma, pessoal, a manchete não foi tirada de qualquer veículo da prestigiada imprensa mundial, não houve registro em tabloides sensacionalistas marrons, nenhum blogueiro irresponsável inventou essa notícia e não há sequer necessidade de se investigar nada a respeito, nem pela Polícia Federal, nem pelo FBI e nem pela National Security Agency, a famigerada NSA, que Edward Snowden tenta detonar (sob evidente risco de ele mesmo vir a sê-lo, como diria aquele Jânio, o da Vassoura).

Por saber que a comunidade internacional de investidores vive antenada todo o tempo, fui cauteloso, deixei para divulgar a matéria depois da conclusão dos pregões do dia e do encerramento do expediente bancário, sem prazo hábil para convocação extraordinária do Federal Reserve, nos EUA, ou do Comitê de Política Monetária do Banco Central, no Brasil, buscando manter estável até o eixo de gravidade terreno, enquanto a noite se ocidentalizava totalmente.

Explico melhor. Na verdade, foi só uma brincadeirinha que começou dias atrás e quase se expandiu como fogo de palheiro nas mídias sociais, não tivesse circulada em âmbito restrito a amigos e familiares, o que felizmente me livrou de algum delegado excessivamente rigoroso, promotor zeloso demais ou jornalista bem maldoso distorcer, amplificar ou sensacionalizar o ocorrido, a troco de notoriedade, como às vezes se dá.

Eis que - precisamente em 19 de novembro - postei nas mídias sociais breve comentário, meio despretensioso, mas em tom de carinhosa provocação a casais muito queridos (atenção Denise e Carlos, vou cobrar, oportunamente), dizendo: "Estou no terraço da Casa de Brasília, balançando na rede com meu netinho Cauê, que dorme solto. Alguém sabe calcular quanto é isso na Bolsa de Valores do Mundo dos Avós?"

Não foi surpresa a quantidade de respostas postadas em seguida, que agora transcrevo, data vênia dos manifestantes.

Minha amiga, obstetra e avó Eugênia Moura, reagiu logo: “sem preço, cotação elevadíssima, impagável”, disse ela, sorrindo, lá de muito longe, de Roraima, de onde vieram abraços saudosos de outra boa amiga, Gel Nascimento. Meu colega de turma da PUC RIO, Luis Oliveira e Silva (o CAP 3 faz já-já 40 anos, é mole?),  lascou no inglês: “priceless”. A avó de Cauê, Dodora, mãe de Kenia (esposa de Andreas Cauê, o pai), completou que "não tem preço, mas traz bastante felicidades”; minha prima Jô Souza falou "é incalculável”, as conterrâneas Mônica Pinto (a linda Aracaju está quase tomando ela dos pessoenses) disse que é "imensurável" e Ângela Araujo (da Dinastia do Recanto do Picuí, a melhor carne de sol do mundo) chamou de "tesouro", enquanto nossa amiga brasiliense Lívia Maíra se dirigiu a mim carinhosamente como avô-coruja, porque “tenho um neto gostoso” e Maurilinho Medeiros, o Rei da Fava, desejou “alegria, saúde e sucesso”, é pouco?

Tanto não era pouco que fui forçado a dizer àquela altura da coisa que o pregão de ações desse tipo sempre dispara adoidado, pois cota os lances em moedas universais, o amor, o carinho e a felicidade, quer mais?

Sim, muita gente quis mais, veio mais repercussão. As amigas Sílvia Reis e Keyse Siqueira afirmaram que “não tem preço nenhum”, igualzinho às sobrinhas Paula Cabral (a data do casório é aguardada) e Roberta Magalhães (intimada a levar o filho na Casa da Praia do Poço), a Rangel Souza (saudades recifenses), à prima Roberta Montenegro (Doutora, como está seu pai?) e às cunhadas Raquel Cabral (quem casa primeiro, Thomas ou Yuri?) e Dulce Magalhães, que ainda completou: “é um investimento incalculável, porque envolve uma moeda forte chamada Amor”. Quem sou eu para duvidar? Muito menos após o amigo José Marcos Farias dizer que se trata de “valores infinitesimais, pois o amor dos avós transcende a qualquer paixão”.

Realmente, é legítimo associar a circunstância de se ter neto à sensação de felicidade, como registrou Virlanda Diniz (a todos nós Deus abençoe, amiga) e Rafael Batista (que ainda não é avô), ou provar que são "incalculáveis esses momentos únicos" com filhos de filhos, demonstrar que "eles valem tanto quanto a Monalisa", não é Nailde Helena? É tão fácil o vinculo entre ser feliz e ter neto que meu querido ex-aluno boavistense, Rudson Leite, repaginou o indicador de Felicidade Interna Bruta, o FIB, da Organização das Nações Unidas (ONU), com a concordância do ex-baiano (será?), meu amigo Gustavo Abreu, que escalou o Monte Roraima e me deixou invejoso numa boa.

Mas - como felicidade é coisa que se calcula de dentro para fora, olhando acima, onde está o referencial divino que tudo norteia - eu discordei levemente dos dois. Para mim, a sigla deveria ser IFP -  Índice de Felicidade Pessoal, restrito, individual e específico, porque se a ONU conseguisse somar as parcelas (ainda que contemplasse apenas alguns avós por aí afora), o montante convertido em dinheiro transbordaria os cofres dos bancos mundiais
, pois aplicações feitas em moedas cunhadas no coração (que lastreia o amor, a verdadeira língua dos homens, como diz a Bíblia) são tão rentáveis que nem bancos suíços têm coragem de estimar um prêmio de seguro correspondente.

Ora, se a mansidão de Boahil Mendes batiza de "pura magia" instantes junto de netos, se a mineirice de Eleuni Melo (amigo, também não achei a fórmula e estou vivendo tudo de perto) chama de "desafio saber a dimensão do tesouro", se a sabedoria carioca de Eloá Braga Pierre (estou aproveitando os momentos com os netos, viu?) diz que "o retorno do investimento aparece depressa no prazer, no sorriso e no brilho dos olhos", se Socorro Lima (com as bençãos sertanejas de Santa Luzia) afirma que "curtir netos é viver bem a vida" (apoiada por minha irmã Rosemary, que a filha Stephanie insinua estar querendo ser avó) e se a querida amiga maranhense Marlene Sá (Salve a Baixada, em todos os sentidos) calcula que "dinheiro algum paga esse maravilhoso sentimento", fui me convencendo naturalmente e depressa de que ser avô não tem custo e – consequentemente - não tem preço.

Para completar, meu sobrinho Agenor Cabral (Agenor Natuba, de uns tempos para cá) diz "ter fé em realizar o sonho de ser avô", o poeta Cícero Melo antecipou que o "será neste dezembro" (queira Deus tenha chegado saudável a descendência e que a resposta prometida a mim em versos venha logo), Iremar Marinho avisou que "já tem quatro netos" e eu informei que tenho por enquanto três príncipes (Ian, Jean e Cauê), uma princesa (Anne Margareth) e a segunda neta a caminho, a princesa Isadora (vai ser a primeira com esse nome?).

No fim, quando o casal Leandro e Simone enviou mensagem apontando que "tudo valia mais do que Eike Batista sonhou em ganhar", eu - apesar de achar que o falido empresário torou na emenda, diferente de netos, que são para sempre, graças a Deus - vi  claros os indicativos de que o sistema financeiro mundial iria mesmo se espatifar rodopiando na incontrolável ciranda, tamanho era o impacto, nela, do valor, fortuna, botija, relíquia, achado, desse pote de ouro no fim do arco-íris: os netos, de todos os avós, não só os meus.

Portanto, mantendo a prudência devida, antes que me esqueça ou seja mais uma vez cobrado pela imperdoável falha original, publiquei junto o instantâneo nosso (meu e do netinho Cauê) dormindo na rede, a prova documental de que o título desta postagem se justifica, pois-pois. Além disso, para não incorrer em crime nenhum nem deixar margem para amigos e parentes acharem que enlouqueci a ponto de atirar pedra na lua, proponho e solicito preventivamente que – na hipótese de alguém questionar a divulgação inicial feita, entrar com ação na justiça ou simplesmente querer me desacreditar na família ou em círculos próximos  das mídias sociais – retifiquem a manchete para:


BOLSA NOVA-IORQUINA QUEBRA DE NOVO E BANCARROTA INTERNACIONAL SE ALASTRA IGUAL TSUNAMI DEVIDO A IMAGINÁRIO TÍTULO ESPECULATIVO LANÇADO NO MERCADO POR AVÔ BOBÃO, DE CORAÇÃO MOLE E MENTE FÉRTIL.


sábado, 28 de dezembro de 2013

CAUÊ 1 ANO

Casar, plantar árvore, ter filho, diz-se que é o fluxo natural da trajetória nossa aqui nesta esfera que gira. Não importa a ordem, nem sempre é o que se dá, mas ouso dizer que filho resume o significado de tudo, ser dois em um, é amálgama, semente, fruto que viceja hoje, resgata antepassados, empurra a gente adiante, ao futuro.

Na gravidez é sempre o mesmo: espera, ansiedade, surpresa a cada mexida, sobretudo torcida e oração para que venha saudável. Quando nasce, é inevitável pensar com quem se parece, de quem são os traços, a cor dos olhos, cabelo ou pele, o formato do rosto, do corpo, pés e mãos, a quem puxaram a boca, nariz e cada dedo, traços físicos que a infalível genética aponta logo de cara ou revela no passar do tempo. A família cresce, novas atividades vêm, círculos se alargam, nada é igual a cada dia, mas chegar aos doze meses é maravilhoso, simbólico para cada criança, acho que abre de vez o ciclo da vida para toda a família, o milagre cotidiano de acordar, respirar, dormir, trabalhar ou nada fazer, ir ou vir, sorrir ou chorar, ter sonhos ou encarar a realidade.

Ontem, 15 de outubro, Cauê fez 1 ano. Este primeiro aniversário tem algo mais, traz lembranças, exibe felicidade, impõe reflexões para nós, famílias, parentes amigos, colegas e uma infinidade de gente espalhada mundo afora, perto e longe. Para as famílias Cabral/Magalhães e Tavares/Pinheiro, principalmente para Andreas Cauê e Kenia, nosso Cauê materializa o milagre da vida, o maior presente que podíamos ter recebido, a prova inconteste de que Deus existe e Sua bondade é infinita. Certo de que falamos em nome de todos, eu e Margareth queremos compartilhar este inesquecível momento de alegria que a graça Dele nos concedeu.

MONTREAL 2013

Não é de agora que venho compartilhando com família, amigos e colegas: o mundo é pequeno, redondo, gira, de vez em quando passa no mesmo lugar, querendo todo o tempo nos falar que tudo é transitório, efêmero e fortuito, que temos de aproveitar intensamente cada instante vivido, cada lugar visitado e, sobretudo, cada pessoa com quem convivemos como se pudéssemos congelar de uma hora para outra a roda da vida, este maravilhoso dom que Deus nos presenteou de graça, o maior de todos os motivos que temos para a Ele agradecer, a cada dia, sempre.
Quando nossa filha Bertha Carolina, há três anos, disse que gostaria de passar uns tempos no Canadá, aprender outro idioma, quem sabe abrir novos horizontes, não tivemos dúvida nem medimos esforço em apoiar a decisão dela, acreditando que as coisas seriam mais uma vez guiadas pela Mão Divina que a todos protege. Nossa família em especial sabe disso, a compreensão e o carinho de Andreas Cauê e Kenia, de Catarina Emília e Gustavo, dos parentes e amigos foram decisivos.
Ano passado, em junho, fomos todos presenteados com o nascimento do netinho Jean, nossa família cresceu, passou a ter um ramo canadense (igualmente bem vindo), com Alex, John, Cathie, Hailey e Andrew. Estivemos eu e Margareth aqui, fomos muito bem recebidos.
Em julho deste ano, outro presente maravilhoso: Anne Margareth. Não pudemos estar presentes no nascimento, mas, nos últimos 40 dias, desde 4 de setembro, foi maravilhoso desfrutar da companhia de todos aqui, mais uma vez. Agradecemos a hospitalidade irrepreensível em Montreal e em Saint-Lazare, nos sentimos à vontade, adoramos a casa de Alex e Bertha Carolina. Hoje, 14 de outubro, de volta ao Brasil, mas, se Deus quiser, voltaremos, porque - como se diz na minha terra - isso aqui está virando caminho de rato, ora.
Agora Ian e Cauê têm mais um primo e mais uma prima, mais um tempinho, Catarina Emília e Gustavo vão nos brindar com outro nascimento, mais uma obra-prima Dele, como diz Margareth.
Estamos torcendo para que tudo dê certo na vinda de Andreas Cauê, Kenia e Cauê a Montreal, próximo mês, enquanto esperamos Alex, Bertha Carolina e Jean, no Brasil, de novo, agora em João Pessoa, com Anne Margareth, se Deus quiser.



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JEAN, 1 ANO

Hoje, 21 de junho, em Hudson, Quebec, Canadá se está comemorando 1 ano de nosso netinho Jean Magalhães Oster. No nascimento, compartilhamos a alegria da chegada dele junto com a família e amigos canadenses, durante um mês inteiro, em Montreal, No início deste ano, em Brasília e em João Pessoa, muitos de nós da família e dos amigos brasileiros tivemos o privilégio de estar com Alex, Bertha Carolina e Jean, por maravilhosas semanas, Agora, estamos curtindo nossas saudades, não estamos lá soprando a vela do bolo, mas - de coração e espírito alegres - todos estamos muito felizes e daqui enviamos nossos parabéns. Que Deus o ilumine e estenda generosa benção aos nossos queridos familiares.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

RENATO, SIMPLES ASSIM

Principalmente lá pelas bandas nordestinas, além dos Cabral de minha esposa, eu conheço muitas famílias de prole avantajada, que - para contar seus rebentos - precisam de mais que dos dedos da mão e que enfrentam o desafio de lembrar dos nomes de todos criando regras mnemônicas, na base do apelido ou simplesmente enumerando eles, na sequência, até em francês (un, deux, trois, por aí vai), como fizeram conhecidos potiguares, os Rosado, todos aqui mencionados com máximo  respeito.

Minha família, não; longe de ser grande, é apenas de tamanho médio, para os padrões de antanho: tirante dois prematuramente falecidos (Ramon, aos poucos meses de vida, e Ruth, quando se ia bacharelar em direito) que deixaram vazios impossíveis de serem preenchidos, tenho apenas uma irmã, Rosemary, oito anos mais nova, e apenas um irmão, Renato, dez anos mais velho que eu, diferença que parece bem menor se estamos lado a lado, ele bem mais conservado (é o que dizem a mim mesmo), talvez porque seja tranquilo e dirija a 20 km por hora, certamente porque é sábio, meio indiferente a esse mundo louco.

Justo esse Renato é que, hoje, 26 de dezembro, faz aniversário e me fez mergulhar de cabeça na memória, resgatar cenas longínquas, buscar inspiração sei lá onde e rabiscar palavras seletas para descrever inesquecíveis lembranças que quero compartilhar sobretudo com familiares e amigos, com a devida licença, prévia, acredito.

Bem que eu gostaria de ir bem atrás, nos meus tempos de engatinhar, porque desde os primeiros passos trago ensinamentos dele, mas - logo me desculpando - só consigo puxar do fundo do baú coisas de meio século, por aí, muito pouco na cronologia das doces reminiscências da infância e da adolescência da gente, que nunca deveriam se esmaecer, nem mesmo se e quando envelhecidas.

Graças a Deus, são estórias lindas, que me dão nó na garganta, me trazem lágrimas aos olhos e me enchem o coração de alegria. Nada dessas encrencas no meio de vendavais de grana que fazem irmão desconhecer irmão (como diz o samba de Paulinho da Viola), nem aquelas horrendas tragédias bíblicas de ódio e inveja tipo Caim e Abel.

Sim, não nego, para um moleque desobediente como eu fui, ter em casa um irmão todo certinho, bem comportado e disciplinado nos estudos era um baita incômodo, um modelo referencial que amplificava minhas estrepulias. Era toda hora se repetindo que eu devia ser igual a ele, dormir cedo e parar num canto, em vez de viver jogando pelada na rua, andar horas a fio nos mangues do Porto do Capim pegando caranguejo ou varar noite adentro tocando violão na farra. Aquele cotejo me incomodava um tiquinho, era verdadeiro, mas acho que às vezes me sentia literalmente a Ovelha-Negra-da-Família, que Rita Lee imortalizou na MPB.

Miro, José Marcos Farias e outros vizinhos contemporâneos da saudosa Rua Padre Azevedo, no Varadouro (o nome do bairro é esse mesmo), são testemunhas de que Renato não conseguia evitar minhas travessuras, me segurar quieto, me impedir de mexer no que tinham, me meter nas brincadeiras deles, até as bem perigosas, como no dia em que montaram um canhão, acenderam o pavio, esqueceram de me amarrar com força e não deu outra: soprei no buraco do artefato quase bélico, a trolha explodiu com tudo, foi pólvora para todo lado, rostos ficaram cinzentos, ouvidos ainda guardam o estouro e a vista de alguns por milagre não foi para sempre perdida.

Era meu anjo da guarda nos jogos de futebol. Ele (que lembra Garrincha na fisionomia) dizia a todo mundo que eu era craque, torcia por mim a valer, só faltava pisar o gramado junto, chutar a redonda comigo, também emplacar o gol, coisa de irmão, claro. Aliás, muitas vezes chegou de fato a entrar em campo, fosse para me afastar, quem sabe me defender ou de vera tomar minhas dores no meio dessas brigas de bola, algumas delas iniciadas exatamente porque zagueiros me caçavam, tentavam me barrar na porrada, no tranco e na falta desleal, pois nada conseguiam fazer com a bola nos pés, já que ela nunca estava nos deles, só nos meus, desculpem a imodéstia.

Acho que ele desconfiava, se sabia nunca me disse de frente e agora estou certo de que vai me perdoar pelas incontáveis vezes em que – sorrateiro, ávido por conhecimento e com alguma chave encontrada em casa ou gazua improvisada feita com tralhas em desuso – eu abria a estante de livros dele, corria ligeiro e fascinado os olhos naqueles deslumbrantes fascículos da Tecnirama e da Segunda Guerra Mundial, ora sedento por compreender como funcionavam complexas gerigonças da época (agora, peças de museu) ou degustar croquis de magistrais inventos de Da Vinci e de outros gênios da humanidade, ora marchando na imaginação com Tropas Aliadas para libertar do horripilante nazismo Paris, Varsóvia e Stalingrado ou vivenciando batalhas históricas em Monte Castelo, Iwo Jima ou no Desembarque da Normadia, no Dia-D. Se houve culpado nesse meu assalto literário foi ele mesmo, que se descuidou ao escolher um móvel com portas envidraçadas deixando à mostra o tesouro, a biblioteca. Eu, de minha parte, sou inocente, tenho consciência de que mereço misericórdia, pois fui expressamente autorizado pela Santa Maria da Curiosidade e pelo Santo Protetor das Crianças Trelosas.

Não me envergonho de revelar que usava camisas dele para dar uma voltinha nas redondezas, ir a festas (assustados, assim se chamavam elas) me sentindo na moda ou talvez impressionar a namorada parecendo ser maior do que era. É verdade, meu guarda-roupa era franciscano, muito franciscano, põe franciscano nisso, mas, em minha mente, me achava bonito naquelas vestes, embora faltasse bastante massa corpórea para encher manequim bem acima do meu, como ficou provado anos depois quando Margareth me disse que notava a eloquente desproporcionalidade, mas disfarçava, nada falava, discreta como sempre foi, certamente para não me desagradar.

Quando meu irmão foi estudar na famosa Escola Politécnica de Campina Grande e voltou de lá diplomado com aquele enorme anel azul no dedo minha admiração foi tamanha que se fosse medida num desses visores analógicos o ponteiro de marcação estaria girando descontrolado até este momento. Para ele, foi um sonho transformado em realidade, levou junto toda a família, meus pais se encheram de legítimo e indisfarcável orgulho, acho que lutaram toda a vida por isso, choraram de emoção toda a vida por isso. Para mim, foi tanta influência que na primeira oportunidade surgida - mesmo sem vocação suficiente para pranchetas, réguas de cálculo e teodolitos – até engenharia fui cursar na UFPB.

Já ele casado, morando então na Rua das Trincheiras (já não se tem mais ruas de tão lindos nomes, não é?), ainda bem que achei um jeito de me manter por perto, sem importunar os dois (Dulce aprovava, isso bastava). Como poderia eu (ou qualquer mortal) viver sem escutar aquelas esplêndidas coleções de discos clássicos que – mansas, disponíveis e generosas – estavam lá à espera de quem as quisesse ouvir? Era o que fazia, tardes inteiras, enquanto eles estavam trabalhando: deitava no chão limpo, ligava a vitrola e voava alto com as retumbantes sinfonias de Beethoven, o piano macio das melodias de Chopin e as tocantes árias das dramáticas operas italianas.

É assim a vida, é disso que ela é feita, de pessoas que nos marcam para sempre, de circunstâncias que tudo desenham em definitivo e de relógios que jamais engripam e deixam inexorável seguir o tempo, o meu, o seu, o nosso.

Querido irmão Renato, parabéns. Saúde, muitos anos adiante. Sinta-se carinhosamente abraçado. Muito obrigado por tudo. 

PS: foi impossível estar junto com você e sua família, mas - parodiando o Tremendão Erasmo - espero que estas mal traçadas linhas expressem de certo modo o que é amor fraternal.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

FELIZ NATAL AO AVESSO DO GORDUCHO LAPÃO









Eu não nasci no Pólo Norte, não tenho vasta barba branca, não sei escalar paredes para entrar fortuito por chaminés na calada da noite, nem tenho sacolas de moedas de ouro para ajudar quem passa dificuldade financeira, como fazia São Nicolau, dizem. Minha capacidade de vender ilusões é próxima de zero, nunca andei de trenó puxado por renas, conheci neve só de raspão em alguns lugares: achei inusitada, interessante, até meio mágica, por assim dizer.


Diferente do tal Bom Velhinho, sou da beira do mangue, fui rato-de-praia, carrinho de rolimã e patinete de madeira eram meus brinquedos de movimento, que pilotava mirando destinos de infinita lonjura e endereços de entrega viável para miniaturas de caminhões de lata cheias de biscoitos Pilar (o gostinho deles está na boca até agora), ansiosamente esperadas a cada ano quando meu Padrinho Leal vinha me presentear.
Os anos muitos me trouxeram proeminente alça de gordura que dá a volta na pança tendo o umbigo como referência, resultado de quilos a mais e adiposidades teimosas, mas – longe de ser barrigudo ou obeso como os clássicos imitadores que atraem para compras dessa época – ainda sou capaz de aguentar sem culpa nem grandes traumas a comilança, perus recheados de tudo que engorda e montes de panetones achocolatados.
Tenho certo sotaque, uso linguagem típica, falo alto, às vezes sou meio espalhafatoso, minhas exclamações não são comedidas, mas Rô-Rô-Rô para mim lembra aquela Ângela que compôs melodias pesadas, de dor-de-cotovelo, daquelas que fazem veias pularem como pipoca na panela quente e olhos ficarem encarnados de tanto choro.
Vermelho não é minha cor preferida, mas gosto do branco e acho boa a combinação delas duas, talvez porque em Pernambuco sou Náutico e por causa das listras alvas nas camisas do Belo (Parabéns, Campeão da Série D) e do Glorioso (Tô na Libertadores!), minhas primeiras paixões futebolísticas, algo distante das preferências esportivas de quem vem dalguns lugares gelados e pouco afetos à Copa do Mundo.
Não me chamo Papai Noel, nem distribuo coisas em embalagens coloridas com laços de fita afora. Esse consumismo maluco de fim de ano não me agrada, mesmo que os tempos natalinos contaminados pelo comércio tenham certa de dose de partilha, generosidade, doação. Prefiro atender pedido sorteado de aluno carente de escola pública feito aos Correios, enfiar grana nestes maravilhosos projetos solidários tipo Médicos Sem Fronteiras, aderir a campanhas da minha igreja, pois – desse jeito – imagino fácil a lágrima de emoção do abraço dado a quem se ama sem conhecer, os olhos brilhando de crianças recebendo presentes anônimos, a felicidade de velhinhos em asilos perdidos de alma disponível a visitas de sensíveis estranhos nunca antes vistos.
Meu nome não é Santa Claus. Sou um Joãozito bem pessoense, paraibano, nordestino, brasileiro, gente do mundo simples. Ah, sim, que nem ele, eu uso óculos com um monte de graus, mas a lente não chega a ser fundo de garrafa, nem a armação fica pendurada na ponta do nariz. Meus olhos não são azuis, eles constavam na antiga carteira de identidade como sendo castanhos; não sei nem de que raça sou, pouco me importa se minha pele tem melanina, se fica quase negra no sol e não me toco se ela – quando do astro-rei se esconde – desbota a ponto de se tornar meio cor-de-burro-quando-foge, indefinível, sem graça, eu diria.
Em Brasília, nos platôs centrais do Brasil, onde hoje moro, de vez em quando faz frio, mas nunca abaixo de zero como acima do Trópico de Câncer, na calota polar. Com todo respeito a quem vive lá nas alturas do mundo ou anda rodeado de pinguins na vizinhança, aqui, torrando entre o Equador e o Trópico de Capricórnio, me sinto bem, melhor ainda quando perambulo sem camisa, descalço e de sunga de banho na Praia do Poço, meu pequeno paraíso onde o Sol Nasce Primeiro nas terras americanas, a Paraíba.
Eu sonho, tenho utopias mil, ainda acredito nas pessoas, sou mesmo religioso, vou à missa, rezo antes de dormir e depois de acordar, me benzo quando passo defronte de templos católicos, pedia a benção a meus pais, tios e avós, costumes que tento passar adiante à minha turma, ora sutil, ora veemente, esperando que entendam a vida como sagrada passagem de bastão, um ritual divino herdado sem custo qualquer e de incalculável valor, inclusive para quem nem sabe o que é ter fé, crê em qualquer entidade ou a nada dá crédito.
Portanto, como o Menino Jesus é universal, diferenças nos fazem iguais, afetos humanos eliminam extremos e a data Dele é de todos e de cada um, independente do lugar onde nasça, da cor da pele, olhos ou cabelos, seja qual for as posses ou valores que tenha: é a festa da cristandade, da humilde manjedoura, das estrelas que guiam passos, da realeza sem trono, do poder transformador do coração, enfim, do amor ao próximo, como querem todos os credos.
Então – em meu nome,  de Margareth, dos Cabral Magalhães (Catarina Emília, Bertha Carolina, Andreas Cauê, meu Maravilhoso ABC) e das nossas muito bem-vindas, queridas e abençoadas porções Roberto/Soares (Gustavo, O Rei do Churrasco, e Ian, Meu Primeiro Netinho, que aguarda a chegada de Isadora, a Segunda Netinha, se Deus quiser), Tavares/Pinheiro (Kenia, Mais que Nora, Filha de Coração, e Cauê, que enfrenta sorrindo qualquer baixa temperatura, porque o DNA também vem das terras altas de Natuba e Macaparana) e Main/Oster (Alex, Mais que Genro, Filho Vindo de Longe, Jean e Anne Margareth, Alô Canadá, Montreal e Saint Lazare, Aquele Abraço) – Feliz Natal é o que desejamos a todos os parentes e amigos, extensivos às suas famílias, também elas nossas, graças a Deus.

sábado, 30 de novembro de 2013

MOLEQUE IAN, SEIS ANOS DE MUITA VIDA E PURA FELICIDADE

Tem pessoa que acumula grana, riqueza, vive por isso, falsamente, mas, às vezes, se diz feliz, saber quem haveria-de? Há outros que nada têm ou até se despem consciente do que possuíam e testemunham ter, assim, encontrado paz interior, duvidar, quem poderia? Certo mesmo é que todo mundo diz ser a vida feita de momentos, cada um deles pode se traduzir em felicidade, materializar o que acho deve ser um divino conjunto de acontecimentos ao longo de nossa passagem neste espaço-tempo finito, para nós.

Deve ser isso a felicidade, estado de alma que nos faz chorar, sorrir, num instante, mas pensar, sonhar longe, até a eternidade; deve ser isso a vida, maravilhosa sensação de estar com a família, amigos e quem mesmo ausente em sentimento presente se faça, aqui, agora, como se estivéssemos voando juntos, desde então e para sempre, neste balãozinho azul a flutuar por aí. Ainda bem que Ele, que tudo governa, nos limita e nos amplia, faz de tudo um ciclo, um processo, nos interrompe e nos dá a chance de gerar outra vida, arremessar ao incógnito futuro uma parte de nós, um pingo de gente.

É assim: uma herança de ontem, uma obra de hoje, um projeto que segue adiante. Tem nome, pode ser João, José, tanto faz; tem rosto, não importa o formato, lembra alguém, mas é único; tem voz de timbre e sonoridade próprias, estridente que seja tem som de mágica flauta se quem ela escuta é suspeito por proximidade de sangue ou por benquerença de qualquer origem; se move, um devagar, outro que nem bólido de corrida, este é calmo, aquele hiper-ativo como modernamente se diz; tem gosto que ninguém sabe de onde veio: um é sereno, obedece natural, outro é arrebitado a valer, encara adulto de qualquer tamanho; um se aquieta num canto, outro salta, pula, grita, xinga, fala palavrão, se comporta como se nunca tivesse escutado conselho, nem aquele gritado, nem aquele no pé-de-ouvido.

É assim: o sujeitinho veio pronto, vai se moldando e nunca termina. O que acha de tudo nem ele mesmo sabe ainda, mas tem opinião arraigada, ora, pois. Não se meta a imaginar como ele vai ser um dia, ninguém jamais saberá, essa pretensão só Deus pode ter, não é? Pai ou mãe, avô ou avó, fique na sua, se contente em contar o que ele apronta no dia-a-dia, se delicie com cada gesto, careta, resmungo, silêncio ou barulho. Se quiser dar de comer direito a quem é biqueiro por natureza invente o que for possível, aproveite enquanto ele não se dá conta: simule um aviãozinho na colher, crie um personagem, uma imagem qualquer, mas nunca prometa sobremesa que não existe, nem ofereça quantidade pequena demais, exceto se for um chapeuzinho de marinheiro feito com rodela de banana e pedaço de goiabada, talvez funcione por um um tempo, como numa época distante ocorreu.

Olha só o que o moleque está fazendo! Onde ele aprendeu isso? De quem é esse menino? Pegou uma palmada, pegou? Levou puxão de orelha, levou? Ficou de castigo, ficou?

E você? Deu de mamar, deu? Se lambuzou de cocô trocando fralda, foi? Se fez de bobo para agradar ele, se fez? Virou cavalinho com ele saltitante na garupa, virou? Buscou na escola, buscou? Ensinou o dever de casa, ensinou?

É assim: o tipinho é nós, é você, sou eu, é ele, que está aí, respirando, vivendo, crescendo, para que a gente conjugue o verbo olhar, ouvir, tocar, sentir, babar, se emocionar, orar, agradecer.

Ontem, 29 de novembro de 2013, meu Primeiro Neto, Ian, fez seis anos. Vi, nele, Gustavo, Catarina Emília, Margareth, Milton, Vilma, um monte de gente lá atrás; mergulhei no passado, fiquei alegre, me senti triste, me recolhi, refleti, não tive mais dúvida: ter filhos, netos, viver feliz é isso, no mínimo, graças a Deus. Que Ele lhe dê saúde e muitos anos de vida.

Ian, by Papai Gustavo, genética e artisticamente





quinta-feira, 28 de novembro de 2013

PENA QUE A HISTÓRIA NÃO SE REPETE

Fundos de Previdência financiaram boa parte da construção de Brasília, houve gritaria de gente contrária, o orçamento público foi afetado, gerou inflação, mas hoje se vive numa cidade Patrimônio Cultural da Humanidade. O que dizer dos micos dos fundos de pensão que caíram em esparrelas megalomaníacas, engodos empresariais e trapaças financeiras?

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA GANANCIOSA MATA TODO CHARME DE QUALQUER CIDADE POR MAIS LINDA QUE SEJA

Vi na internet um movimento arregimentando forças pelo Tombamento do Colégio Marista Cearense, contra a construção de um shopping center em seu lugar, tendência que se alastra no país inteiro e me deixa perplexo. Não tive dúvida em apoiar e repassar adiante a informação na rede de amigos, tentando compartilhar com todos minha revolta e buscando engrossar a onda de protestos em desfavor do interesse econômico que anda desfigurando a paisagem urbana brasileira.

Minha fonte de indignação não é propriamente o Colégio Marista Cearense, mas ele me fez mergulhar fundo no tempo e chegar ao Colégio Marista do Recife, onde meus filhos estudaram enquanto fui dirigente dos Correios em Pernambuco, por quase quatro anos, no final da década de 80.

O espaço ocupado pela tradicional escola católica em plena avenida Conde da Boa Vista, emblemática e histórica, parecia (ou sonhava eu ingenuamente) que iria ter capacidade de resistir àquele frenesi comercial que o rondava com toda força já naquela época. Era quase um oásis no cenário caótico reinante no entorno, nas proximidades, logo ali, do lado de fora, bem nas calçadas: tenho certeza que Andreas Cauê, Bertha Carolina e Catarina Emília enquanto esperavam Margareth ir lá buscá-los devem se lembrar - além das lições impregnadas de valores cristãos - apenas das árvores frondosas nos pátios internos, da paz silenciosa da igreja e das alamedas que serviam de área de lazer para eles, sem nunca terem notado direito o burburinho dos camelôs, o empurra-empurra nos pontos de ônibus e o mal cheiro exalando dos bueiros externos. Mas dava para ver que o esquisito progresso estava chegando rápido e o Marista respirava cada vez mais sufocado.

Pois a coisa ficou bem pior do que se podia imaginar, a degradação veio em ritmo insuportável e o lucro especulativo torrou sem dó nem piedade o que restava da Conde da Boa Vista (que um dia se chamou Rua Formosa), do Colégio Marista (que nem existe mais) e das outrora charmosas artérias no miolo da chamada Veneza Brasileira.

Testemunhei isso, duas semanas atrás, de passagem do aeroporto Gilberto Freire para João Pessoa via Boa Viagem, quando ousei desviar da Agamenon Magalhães (que nos levaria reto a Olinda), para passar de carro no Cais do Porto, no Recife Antigo e no ainda magnífico conjunto de prédios da Rua da Aurora, para, dali, rever a Sede dos Correios onde trabalhei e mostrar a pessoas de Brasília que estavam comigo um pouquinho do centro da capital pernambucana. Foi um naco de tempo, nem tive a chance de dar umas passadas, só vi as coisas de soslaio, mas foi mais que suficiente para ficar chocado, triste e envergonhado, tão logo tomei a Conde da Boa Vista.

De cara, peço mil desculpas aos meus amigos e familiares pernambucanos e recifenses se me excedo na descritiva, mas o que vi é horrível, dantesco, apocalíptico.

Lá, no meio da rua, agora tem um ridículo corredor de transporte coletivo apinhado de tráfego desordenado e grossa fumaça de óleo diesel a tornar o ar irrespirável, é um cercado cheio de barreiras feiosas, faixas ininteligíveis e cartazes que nada comunicam, abrigos de muito mal gosto nas paradas dos ônibus, cabos e fios pendurados por toda parte; ali, numa nesga de chão passam taxis apressados disputando no grito clientes e motos em disparada sem direção lógica, fazendo pedestre virar par de pernas estressadas querendo atravessar a bagunça sem ser atropelado ou disposto a estripulia para botar o pé em escada de ônibus lotado; ninguém consegue ver qualquer coisa que preste ou encante os olhos, ao contrario, é incalculável a quantidade de tabuleiros que de tudo vendem ao longo dos passeios, tem sujeira e entulhos no meio-fio, nas paredes e nos postes, até uma absurda passarela aérea cruza a via ligando provavelmente a burrice à insanidade, uma maluquice total que agride a arquitetura que nos deu Niemeyer e a inteligência dos conterrâneos de João Cabral de Melo Neto.

A vontade foi de chispar dali urgente, antes de ser contaminado por tanto vírus de incompetência governamental, desrespeito aos cidadãos e falta de bom senso. Encapsulado naquela loucura, me senti como se estivesse nas barracas das ruelas do grudento Mercado de São José (que também vi com rabo de olho) ou na feira livre da Favela Roque Santeiro, em Luanda, Angola, a visão mais dramática que tive de um aglomerado de pessoas.

É assim, vem sendo essa a via-crucis das velhas metrópoles e até das cidades ditas modernas, todas sitiadas muito mais pela ganância imobiliária do que pela incontrolável urbanização que as transformou em depósitos humanos que lá trabalham e que dormem na periferia cada vez mais distante. Que Deus nos afaste deste insólito destino, nem que seja nos mandando de volta à caverna.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

DE VACAS E OUTRAS PARÁBOLAS


Recebi via internet diagrama meio conhecido (de autoria indeterminada), denominado Teoria da Vaca, que usa o ruminante altamente produtivo para esclarecer em linguagem simples de boteco teses políticas complexas, missão tipo impossível, porque tenta definir confusas relações e tênues limites entre público e privado sob socialismo, democracia, comunismo, burocracia, capitalismo, anarquia e por aí vai.
Como fui cobrado por vários amigos das mídias sociais, incluindo ex-alunos Brasil afora, tomo de conta da brincadeira com o mamífero artiodáctilo chifrudo (que já me serviu de fonte de inspiração muitas vezes) e agora compartilho de modo ampliado uma dessas ideias diferentes que tenho usado em sala de aula e em reuniões de trabalho para falar de coisa séria na base da parábola com fundo de verdade.
Todos sabem que o modelo clássico de formulação de políticas públicas parte da identificação de demandas da sociedade e busca atendê-las por meio de programas governamentais, na quase totalidade usando recursos oriundos do orçamento oficial, enfim, com dinheiro do povo, de tributos recolhidos, principalmente da classe média (por retenção na fonte, no caso dos salários), porque ricos pagam menos de tudo (escondidos em espertas pessoas jurídicas ou usando muitas das brechas fiscais) e pobres são alcançados de todo jeito (inclusive pela inflação), tirante o imposto de renda. O perfil descritivo é geral, as particularidades são nossas, tem nosso jeitinho.
Como o estado democrático é aberto, o governo é dependente em larga escala da ciranda financeira para financiar a dívida interna e a frágil administração pública acaba polvilhada por interesses externos enfiados na máquina oficial, na prática, muitas vezes, o que se vê são arremedos do orçamento engendrados no círculo vicioso que mistura capital privado, tecnocrata subserviente e político financiado por lobista, enfim a alocação das prioridades bota o povão na rodinha, em linguagem no popular.
É como se uma vaca fosse cortada ao meio, na vertical. A parte da frente é de responsabilidade da sociedade, que tem de prover (a seu custo) os alimentos (impostos, taxas, contribuições), enquanto o estado, o governo e a administração pública têm função burocrática no processo metabólico (operam a grana auferida e a aportam como prescreve a conveniente lei, o acordo tácito mascarado de política pública ou a mais pura negociata), mas a parte de trás, que gera os benefícios (leite, estrume), especialmente as tetas, fica sob os auspícios dos interesses privados, que transforma tudo em lucro ilegítimo e/ou em riqueza adubada pelo corrompido modelo.
Aí, surgiu um tal de orçamento participativo, uma espécie de praça do povo onde quem comparece apresenta o que quer, alguém anota os pedidos e tudo vai parar num liqüidificador imaginário, cuja mistura é feita com modo de preparo mais oculto que receita de Pastel de Belém e na qual os ingredientes são adicionados na proporção que convém ao resultado previamente definido ou manipulado depois. Ou seja, a vontade da galera expressa no conclave popular, comunitário e/ou de grupos organizados vira um reles assembleísmo popularesco inócuo, um clone muito mal acabado dos irreconhecíveis cromossomos democráticos originais ou um ícone politiqueiro de gênero absolutamente indescritível, um travesti na escuridão da noite mais negra que asa de corvo.
É como se uma vaca fosse cortada ao meio, na horizontal. A parte macia de cima, o lombo, as gorduras e os cortes nobres são apropriados pela elite econômica, política, estatal, governamental e administrativa dos ditos poderes constituídos, dos supostos saberes institucionalizados ou do poderio capitalista cada vez mais concentrado: filé (inteiro, nada de contra-filé), picanha (até maturada) e maminha (palavra melhor não haveria, ela deve vir mesmo do verbo mamar) são a síntese do privilégio. Enquanto isso, a parte pobre de baixo, o osso, a sobra e o que pouco vale vão parar na mesa da periferia da sociedade: vísceras misturadas viram buchada ou sarapatel, rebotalho triturado enche linguiça, mocotó é apresentado como iguaria que dá sustança e a mundialmente famosa feijoada brasileira aproveita tudo que couber no caldo grosso da grande panela. Com cachaça pura no quengo ou sob generosas goladas de caipirinha goelha adentro, sobretudo em clima de festa, a combinação final tem sabor ainda melhor, pode até parecer chique, servir de mecanismo eleitoral em campanha de político malandro pelo interior do país, estratégia com mais de cinco séculos de indiscriminado uso.
Provavelmente, em português castiço, a tal vaca cortada ao meio (na vertical ou na horizontal) possa ser essa tal de parceria público-privada, uma falsa modernidade, uma velha artimanha com charmoso figurino, uma versão ardilosa da casa grande-senzala, uma cruel materialização da dialética elite-massa.
É claro que um dia a vaca vai parar no brejo, a farra do boi vai acabar. Por precaução, acho bom a gente ir modelando o paladar para se adaptar a uma dessas insossas dietas magras ou aderir a qualquer corrente natureba que só come folha plantada no quintal de casa; enfim, buscar proteína em alguma coisa alternativa, porque estilo vegetariano, natural ou macrobiótico anda custando os olhos da cara.

sábado, 5 de outubro de 2013

NOVA CULTURA VIA WEB?


Impressiona o mapa descritivo dos sítios eletrônicos mais acessados em cada país.
Ninguém duvida da importância da internet, nem há condições de se lutar contra o avanço imprevisível das mídias na vida cotidiana: parece ser mesmo uma mistura de Aldeia Global, de Marshall MacLuhan, com o Big Brother, de George Orwell, é comunicação na frente de tudo, muitas vezes ao preço da invasão de privacidade, até da espionagem oficial conduzida sob disfarce da segurança nacional, como se viu nas últimas revelações da grande imprensa internacional.
Fato é que é irreversível a onda que se espraia, mesmo que governos fechados tentem barrar ou circunscrever o uso dos meios eletrônicos e das mídias sociais. É luta inglória de quem quer que seja contra a tecnologia, é batalha perdida para quem tolhe a liberdade de acesso e de expressão que virá de todo jeito ou de algum modo, é malhar em ferro frio se o objetivo se posta em desfavor da natureza humana que prima pela interatividade entre pessoas.
Mas, subliminarmente, há, sim, um processo intenso, sem controle viável e de elevado impacto da internet, dos meios de comunicação e das mídias sociais na cultura universal, a partir do qual - é certo - se estreitam os laços, o tempo encurta, a distância diminui e os espaços se ampliam, sem nenhum paradoxo.
Parodiando o jargão, quem vive vê.
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FOME MORIBUNDA, PROGRAMA INCÓGNITO


Ninguém em sã consciência e fora das cegas paixões partidárias se recusaria a aplaudir a notícia veiculada mundo afora dando conta de que 10 milhões (em 1992 eram quase 23 milhões, em 2013 menos de 14 milhões) de brasileiros deixaram de passar fome, em números redondos. Qualquer contribuinte pessoa física ou jurídica certamente não se manifestaria contrário à ideia de que impostos pagos sejam transferidos como renda a quem tem nenhuma chance de ganhar algo com seu próprio trabalho, circunstancialmente, de uma hora para outra. Simplesmente, é fato, há um estoque histórico de miséria e de pobreza que vem diminuindo há anos, está bem perto de acabar, dizem as estatísticas, antes do prazo compromissado, que era 2015.
É certo, políticas públicas distintas, programas governamentais vários e muita grana do orçamento oficial são a chave-mestra que travou a sangria desumana responsável pelo vicioso ciclo derivado da ignorância, do analfabetismo ou da insuficiente capacitação; foi, sim, essa baba pingada mês a mês que abriu a multidões as portas de biroscas de comida, que deu acesso a muita família às prateleiras de supermercados e que até fez gente entrar em shopping-centers, romper a barreira das vitrines e chegar no caixa da loja pagando coisa comprada.
Nesta seara que é irrigada pela semente da solidariedade, pela percepção de que o bem comum tem prioridade sobre o patrimônio do indivíduo e pela perspectiva de que a riqueza precisa ter caráter social, dúvida não há, a constância de propósitos anos a fio é fator crítico de sucesso, pois subordina os salamaleques políticos e eleitorais aos impactos positivos que os benefícios trazem às pessoas, impede que quem quer que seja meta o bedelho publicamente em desfavor, reduz a chance de que a sempre perversa descontinuidade sepulte boas iniciativas simplesmente porque vieram de outros; se é bom, tem de seguir em frente, ser mantido, ainda que efeitos colaterais danosos surjam onde exista desonestidade tão canalha a ponto de desviar o dinheirinho ao próprio bolso ou mesmo que o proselitismo mais deslavado tente se apropriar como se lhe pertencesse o que é pago pela sociedade toda.
Está bem, valeu demais até agora, o Brasil disso se orgulha.
Então, se a meta de redução de pobreza foi alcançada, a exponencial curva de beneficiados deve ter um ponto de inflexão e deve passar a ter trajetória descendente compatível, a partir de algum momento que não pode ser indefinido, ora.

FOME MORIBUNDA, PROGRAMA INCÓGNITO


Ninguém em sã consciência e fora das cegas paixões partidárias se recusaria a aplaudir a notícia veiculada mundo afora dando conta de que 10 milhões (em 1992 eram quase 23 milhões, em 2013 menos de 14 milhões) de brasileiros deixaram de passar fome, em números redondos. Qualquer contribuinte pessoa física ou jurídica certamente não se manifestaria contrário à ideia de que impostos pagos sejam transferidos como renda a quem tem nenhuma chance de ganhar algo com seu próprio trabalho, circunstancialmente, de uma hora para outra. Simplesmente, é fato, há um estoque histórico de miséria e de pobreza que vem diminuindo há anos, está bem perto de acabar, dizem as estatísticas, antes do prazo compromissado, que era 2015.
É certo, políticas públicas distintas, programas governamentais vários e muita grana do orçamento oficial são a chave-mestra que travou a sangria desumana responsável pelo vicioso ciclo derivado da ignorância, do analfabetismo ou da insuficiente capacitação; foi, sim, essa baba pingada mês a mês que abriu a multidões as portas de biroscas de comida, que deu acesso a muita família às prateleiras de supermercados e que até fez gente entrar em shopping-centers, romper a barreira das vitrines e chegar no caixa da loja pagando coisa comprada.
Nesta seara que é irrigada pela semente da solidariedade, pela percepção de que o bem comum tem prioridade sobre o patrimônio do indivíduo e pela perspectiva de que a riqueza precisa ter caráter social, dúvida não há, a constância de propósitos anos a fio é fator crítico de sucesso, pois subordina os salamaleques políticos e eleitorais aos impactos positivos que os benefícios trazem às pessoas, impede que quem quer que seja meta o bedelho publicamente em desfavor, reduz a chance de que a sempre perversa descontinuidade sepulte boas iniciativas simplesmente porque vieram de outros; se é bom, tem de seguir em frente, ser mantido, ainda que efeitos colaterais danosos surjam onde exista desonestidade tão canalha a ponto de desviar o dinheirinho ao próprio bolso ou mesmo que o proselitismo mais deslavado tente se apropriar como se lhe pertencesse o que é pago pela sociedade toda.
Está bem, valeu demais até agora, o Brasil disso se orgulha.
Então, se a meta de redução de pobreza foi alcançada, a exponencial curva de beneficiados deve ter um ponto de inflexão e deve passar a ter trajetória descendente compatível, a partir de algum momento que não pode ser indefinido, ora.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

FOME MORIBUNDA, PROGRAMA INCÓGNITO


Ninguém em sã consciência e fora das cegas paixões partidárias se recusaria a aplaudir a notícia veiculada mundo afora dando conta de que 10 milhões (em 1992 eram quase 23 milhões, em 2013 menos de 14 milhões) de brasileiros deixaram de passar fome, em números redondos. Qualquer contribuinte pessoa física ou jurídica certamente não se manifestaria contrário à ideia de que impostos pagos sejam transferidos como renda a quem tem nenhuma chance de ganhar algo com seu próprio trabalho, circunstancialmente, de uma hora para outra. Simplesmente, é fato, há um estoque histórico de miséria e de pobreza que vem diminuindo há anos, está bem perto de acabar, dizem as estatísticas, antes do prazo compromissado, que era 2015.
É certo, políticas públicas distintas, programas governamentais vários e muita grana do orçamento oficial são a chave-mestra que travou a sangria desumana responsável pelo vicioso ciclo derivado da ignorância, do analfabetismo ou da insuficiente capacitação; foi, sim, essa baba pingada mês a mês que abriu a multidões as portas de biroscas de comida, que deu acesso a muita família às prateleiras de supermercados e que até fez gente entrar em shopping-centers, romper a barreira das vitrines e chegar no caixa da loja pagando coisa comprada.
Nesta seara que é irrigada pela semente da solidariedade, pela percepção de que o bem comum tem prioridade sobre o patrimônio do indivíduo e pela perspectiva de que a riqueza precisa ter caráter social, dúvida não há, a constância de propósitos anos a fio é fator crítico de sucesso, pois subordina os salamaleques políticos e eleitorais aos impactos positivos que os benefícios trazem às pessoas, impede que quem quer que seja meta o bedelho publicamente em desfavor, reduz a chance de que a sempre perversa descontinuidade sepulte boas iniciativas simplesmente porque vieram de outros; se é bom, tem de seguir em frente, ser mantido, ainda que efeitos colaterais danosos surjam onde exista desonestidade tão canalha a ponto de desviar o dinheirinho ao próprio bolso ou mesmo que o proselitismo mais deslavado tente se apropriar como se lhe pertencesse o que é pago pela sociedade toda.
Está bem, valeu demais até agora, o Brasil disso se orgulha.
Então, se a meta de redução de pobreza foi alcançada, a exponencial curva de beneficiados deve ter um ponto de inflexão e deve passar a ter trajetória descendente compatível, a partir de algum momento que não pode ser indefinido, ora.