sexta-feira, 22 de novembro de 2013

ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA GANANCIOSA MATA TODO CHARME DE QUALQUER CIDADE POR MAIS LINDA QUE SEJA

Vi na internet um movimento arregimentando forças pelo Tombamento do Colégio Marista Cearense, contra a construção de um shopping center em seu lugar, tendência que se alastra no país inteiro e me deixa perplexo. Não tive dúvida em apoiar e repassar adiante a informação na rede de amigos, tentando compartilhar com todos minha revolta e buscando engrossar a onda de protestos em desfavor do interesse econômico que anda desfigurando a paisagem urbana brasileira.

Minha fonte de indignação não é propriamente o Colégio Marista Cearense, mas ele me fez mergulhar fundo no tempo e chegar ao Colégio Marista do Recife, onde meus filhos estudaram enquanto fui dirigente dos Correios em Pernambuco, por quase quatro anos, no final da década de 80.

O espaço ocupado pela tradicional escola católica em plena avenida Conde da Boa Vista, emblemática e histórica, parecia (ou sonhava eu ingenuamente) que iria ter capacidade de resistir àquele frenesi comercial que o rondava com toda força já naquela época. Era quase um oásis no cenário caótico reinante no entorno, nas proximidades, logo ali, do lado de fora, bem nas calçadas: tenho certeza que Andreas Cauê, Bertha Carolina e Catarina Emília enquanto esperavam Margareth ir lá buscá-los devem se lembrar - além das lições impregnadas de valores cristãos - apenas das árvores frondosas nos pátios internos, da paz silenciosa da igreja e das alamedas que serviam de área de lazer para eles, sem nunca terem notado direito o burburinho dos camelôs, o empurra-empurra nos pontos de ônibus e o mal cheiro exalando dos bueiros externos. Mas dava para ver que o esquisito progresso estava chegando rápido e o Marista respirava cada vez mais sufocado.

Pois a coisa ficou bem pior do que se podia imaginar, a degradação veio em ritmo insuportável e o lucro especulativo torrou sem dó nem piedade o que restava da Conde da Boa Vista (que um dia se chamou Rua Formosa), do Colégio Marista (que nem existe mais) e das outrora charmosas artérias no miolo da chamada Veneza Brasileira.

Testemunhei isso, duas semanas atrás, de passagem do aeroporto Gilberto Freire para João Pessoa via Boa Viagem, quando ousei desviar da Agamenon Magalhães (que nos levaria reto a Olinda), para passar de carro no Cais do Porto, no Recife Antigo e no ainda magnífico conjunto de prédios da Rua da Aurora, para, dali, rever a Sede dos Correios onde trabalhei e mostrar a pessoas de Brasília que estavam comigo um pouquinho do centro da capital pernambucana. Foi um naco de tempo, nem tive a chance de dar umas passadas, só vi as coisas de soslaio, mas foi mais que suficiente para ficar chocado, triste e envergonhado, tão logo tomei a Conde da Boa Vista.

De cara, peço mil desculpas aos meus amigos e familiares pernambucanos e recifenses se me excedo na descritiva, mas o que vi é horrível, dantesco, apocalíptico.

Lá, no meio da rua, agora tem um ridículo corredor de transporte coletivo apinhado de tráfego desordenado e grossa fumaça de óleo diesel a tornar o ar irrespirável, é um cercado cheio de barreiras feiosas, faixas ininteligíveis e cartazes que nada comunicam, abrigos de muito mal gosto nas paradas dos ônibus, cabos e fios pendurados por toda parte; ali, numa nesga de chão passam taxis apressados disputando no grito clientes e motos em disparada sem direção lógica, fazendo pedestre virar par de pernas estressadas querendo atravessar a bagunça sem ser atropelado ou disposto a estripulia para botar o pé em escada de ônibus lotado; ninguém consegue ver qualquer coisa que preste ou encante os olhos, ao contrario, é incalculável a quantidade de tabuleiros que de tudo vendem ao longo dos passeios, tem sujeira e entulhos no meio-fio, nas paredes e nos postes, até uma absurda passarela aérea cruza a via ligando provavelmente a burrice à insanidade, uma maluquice total que agride a arquitetura que nos deu Niemeyer e a inteligência dos conterrâneos de João Cabral de Melo Neto.

A vontade foi de chispar dali urgente, antes de ser contaminado por tanto vírus de incompetência governamental, desrespeito aos cidadãos e falta de bom senso. Encapsulado naquela loucura, me senti como se estivesse nas barracas das ruelas do grudento Mercado de São José (que também vi com rabo de olho) ou na feira livre da Favela Roque Santeiro, em Luanda, Angola, a visão mais dramática que tive de um aglomerado de pessoas.

É assim, vem sendo essa a via-crucis das velhas metrópoles e até das cidades ditas modernas, todas sitiadas muito mais pela ganância imobiliária do que pela incontrolável urbanização que as transformou em depósitos humanos que lá trabalham e que dormem na periferia cada vez mais distante. Que Deus nos afaste deste insólito destino, nem que seja nos mandando de volta à caverna.

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