A coisa foi concebida numa noitada ébria, tresloucada e adúltera, teve gestação às tontas e às escondidas e nasceu a fórceps com equipe parteira clandestina, mal treinada e que se achava esperta o suficiente.
Foi assim porque o médico especializado já de bisturi na mão cobrava os tubos para a cesariana, tinha de emitir nota fiscal bonitinha e documentar direitinho o completo procedimento.
Tentando apressado limpar as mãos, o ambiente e a cena da operação feita a toque de caixa, um aloprado deixou álcool se espalhar pela sala e contaminou tudo, pois o produto era "batizado", impuro, de péssima qualidade, nem para cana servia: era daquele que deixa marcas para sempre, no fígado, nos neurônios, no juízo.
Por isso, ali, o vicio se instalou com força e eles nunca deixaram a bebedeira: vivem de porre todo tempo, embriagados também de insuperável ignorância cultural, cega intolerância política, incorrigível arrivismo social, preferência compulsiva por grana suja e extrema soberba do poder.
Tanto que se descambou em supostamente generosos ágapes de sofisticado cardápio, regados a destilados de fino gosto e vinhos de castas nobres, raros mesmo em premiadas e custosas adegas, tudo celebrado à penumbra e sob rica cortina de fumaça vinda de charutos insulares.
Celebridades até internacionais faziam visitas, assinavam livro de ouro, beliscavam uns petiscos, tomavam uns tragos, sentavam à farta mesa, davam declarações de chancela e indireto respaldo à tramoia urdida e em andamento, uns por ingenuidade, outros por encantamento e alguns por acreditar, de fato, simples assim.
Num passe de mágica, expertise em quase tudo surgiu do nada, milionários cachês pingavam na conta toda hora, foi doação à mão tão cheia que se criou o bolso-família da parentada todinha.
O bolo da sobremesa tinha tanto ingrediente, fermento e mexe-mexe que cresceu para além da forma, inchou até rachar, espalhou caramelo à vontade, tão fácil e na moleza que a patota se lambuzou como nunca antes se tinha visto, nem aqui, nem lá, nem acolá, nem na baixa-da-égua, nem no cafundó-do-judas.
Mas, por incompetência, descuido ou puro desdém com a já feita coisa, parte da sobra visível do fausto banquete, das iguarias apimentadas demais e do grosso caldo melado acabou sendo exposta depois à luz do dia como se nada valesse, pensando que ninguém iria notar, como se lixo fosse, rebotalho tão desprezível ao ponto de sequer merecer ser catado.
Acontece que antes de alguém passar o rodo na meleca, coletar a sujeira ou lavar tudo depressa, gente curiosa, bisbilhoteira e de lupa nos olhos quis remexer o entulho, abriu a tampa do depósito, enfiou o dedo de cima a baixo na porcaria, fez o ar circular dentro da imundície e gerou uma fermentação violenta e sem controle.
Aí se começou a descobrir que - além de se revelar ter sido caríssima ao invés de gratuita como anunciada - a indigesta mistura da comida com a bebida produziu no anfitrião e nos ilustres convidados indisfarçáveis gases mal cheirosos e diarreia de borrar cueca, calça e chão de privada.
Deu no que deu, o sonho acabou e agora é isso que está rolando por aí, todo jeitão de pesadelo, que ainda vai demorar para chegar ao fim.
Infelizmente, porém, quem não era comensal, nunca foi convidado e jamais pousou lá para compartilhar da alegre festança desregrada e nela sequer tomou um mísero golinho ou mordeu um pedaço da apetitosa bandeja, agora paga compulsoriamente a bem salgadinha despesa, tenta limpar o fétido vômito espalhado por toda parte e vai curtir solidário a tremenda ressaca longamente, sem ter opção.
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