quarta-feira, 22 de maio de 2019

PARABÉNS PARA MIM

INUSITADO TELEFONEMA

Hoje é dia do meu aniversário, data para lá de emblemática e motivo mais do que suficiente para acordar sob toda inspiração de sentimentos positivos, de regozijo e de alegria, sobretudo, de muito agradecimento pela vida.

Reforço o que já disse outras vezes: se tivesse que apresentar um requerimento aos céus, ele seria em branco, nada tenho a reclamar.

Talvez por isso nunca escrevi nada a respeito do 22 de maio, nem mesmo sobre Santa Rita de Cássia (a fervorosa pacifista das causas impossíveis) ou sobre o Dia do Abraço, algo que tem tudo a ver comigo, eu que gosto de gente.

Sim, me sinto bem no meio da família, de colegas, de amigos e mesmo de desconhecidos: gosto de ver a paisagem humana, de sentir as pessoas de perto, dessa “coisa de pele”.

Mas, às vezes, prefiro momentos de recolhimento, para estar sozinho ou até em algum isolamento, coisa que a família inteira sabe, que alguns dizem ser bipolaridade e que um irreverente diagnosticou brincando como sendo “meio autista”: faz sentido, acho, talvez tenha a ver com humores duplos, de geminiano.

Já que uma letra sequer havia sido jamais escrita no dia do meu aniversário, por quê, então, tanta coisa dita logo agora?

Eu pergunto e respondo de cara, sabendo que todos entendem a razão de tantas palavras compartilhadas com quem as lê.

É que justo nessa manhã de 22 de maio de 2019 o telefone fixo de casa tocou.

Como é misto de empresarial e particular, geralmente atendo apenas no horário comercial, se e quando me encontro em casa, o que é raro, principalmente numa quarta-feira.

Mas, não costumo atender a ligação quando estou a ler e/ou a escrever, muito menos hoje que estava exatamente debruçado na leitura e na resposta nas dezenas de mensagens de parabéns recebidas até aquela hora.

Mas, a premonição veio, senti vontade de atender o (in)esperado telefonema.

Afastei a hipótese de que fosse mais uma recorrente oferta de vendedor de um desses “planos imperdíveis prestes a expirar em alguns minutos”.

Sei lá, pensei numa expectativa razoável: deve ser alguém querendo desejar feliz aniversário a mim.

Não era nem uma coisa nem outra.

Olha o que o sujeito perguntou:
“Eu estou falando com Paulo da Boa Morte?”

Perplexo, intrigado e já sorrindo, respondi:
“Não, meu amigo, quem está falando aqui é o Magalhães, como sou mais conhecido. Meu primeiro nome é João e estou bastante vivo, graças a Deus, nem um tiquinho interessado em morrer, Ele sabe.”

Nem preciso dizer que o cara do telefonema e eu caímos na risada, numa gaitada só, tão estrondosa que deve ter ecoado escandalosamente na sala onde ele trabalha, lá.

Fiquei imaginando o paradoxo do suposto alvoroço.

O telefonista rindo do nada num desses ambientes barulhentos e lotados, mas frios, gélidos e quase inertes, onde – tal se vê em feias imagens de internet e se ouve nas queixas relatadas – pessoas cumprem rotinas diárias monótonas (estafantes, chatas, dirão os mais críticos), em diminutos e nada confortáveis espaços (baias, é assim que o chamam), horas a fio falando não com gente, mas com um número qualquer de alguma operadora dessas que funcionam bem apenas para essas finalidades.

Espero que, se, de fato, o gajo do outro lado da linha deu mesmo uma gargalhada como pareceu, não tenha sido por isso prejudicado, não sofra repreensão nem muito menos perca o emprego, o drama maior de milhões de brasileiros. Oro, por ele, claro: que tenha um chefe descontraído.

Cá, do meu lado, sou grato à oportunidade dessa reflexão que interrompeu um pouco minha lida, tirou meus olhos da telinha do celular ou da telona do computador, mudou hábito que troco só por um livro, essa, sim, minha eterna paixão, depois da família e, por óbvio, de Tutuca.

O dia promete. Trouxe novidade. Mostrou que até o aparentemente ilógico acaso pode ter propósito, significado, função.

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