Nestes quatro meses de crise sanitária, a maioria das capitais dos estados brasileiros mais populosos turbinou forte a estatística dos casos oficiais de infectados por coronavírus: a curva da pandemia empinou para cima com aceleração máxima nas megalópoles mais densas e/ou mais frágeis (São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Fortaleza, Manaus, Belém, São Luís, etc.), com exceções que ainda aguardam para serem melhor esclarecidas, como BH. Evidentemente, o alastramento do coronavírus deriva das condições sociais, econômicas, habitacionais e de qualidade de vida da população, principalmente nas periferias, favelas, palafitas e outros arranjos precários.

Obviamente sem ter relação direta com o processo de contaminação das pessoas (que é afetado diretamente pela taxa de isolamento social), o perfil quantitativo e qualitativo dos novos casos diários tem comportamento flutuante ao longo dos dias da semana, sobretudo se concentrando nos dias úteis, em geral entre terça-feira e quinta-feira, com bem acentuada queda nos finais de semana e nos feriados, por causa dos registros computados tão somente a posteriori: o gráfico acima mostra o ciclo repetido a cada novo patamar, com um ou dois picos semanais.

A segunda onda maciça da pandemia vem arrastando com força as áreas metropolitanas para dentro dela, com certa tendência aparente de desacelaração na taxa dos casos de infectados, malgrado as cidades sejam entre si bem diferenciadas, conforme a natureza de cada aglomerado urbano, do grau de proximidade e do nível de frequência das interrelações entre os municípios componentes: a expectativa é de que as curvas se mantenham crescentes por algum tempo a mais, infelizmente.
Mesmo sendo abstraída a elevada subnotificação, a curva de óbitos por Covid 19 é chocantemente assimptótica, a partir do segundo mês da pandemia, por volta de 15 de abril. A proporcionalidade observada entre os infectados, os ativos e os mortos no mesmo período passa a nítida impressão de que o sistema de saúde não teve como enfrentar de forma planejada e organizada o crescimento (de todo previsível) no número de pacientes em busca de atendimento, um descompasso oriundo de múltiplos problemas, todos solucionáveis, é lamentável.

Malgrado ainda se mantenha muito alta, o (evitável) deslocamento da pandemia das capitais para as cidades do entorno delas parece estar interferindo bastante na evolução da crise sanitária, em intensidade e em ritmo distintos, de acordo com o porte, a localização e/ou a atividade econômica predominante, o que sinaliza a hipótese de a incidência de óbitos por Covid 19 no país estar sendo empurrada para abaixo de mil por dia, afinal uma notícia alvissareira no meio da persistente tragédia, porquanto essa ocorrência já havia ultrapassado a impactante média diária de mais mil mortes, a partir da segunda quinzena de maio.

À luz do gráfico acima, o cotejo entre a quantidade de pessoas curadas e o surgimento de novos casos estaria apontando de chofre a possibilidade de melhoria da situação, talvez a caracterização de uma tendência. Entrementes, já está em curso espraiada terceira onda de expansão da pandemia para o interior dos estados, atingindo em cheio inclusive as cidades menores, com precária infraestrutura básica de saúde e sem capacidade de atendimento especializado, circunstância que inevitavelmente mascara parte da compreensão do fenômeno, porque muitos dos pacientes são transportados para distantes unidades hospitalares de referência, às vezes inviabilizando quase que por completo o monitoramento dos casos. De qualquer modo, a expectativa é que o pico da curva esteja ficando perto.

O heróico esforço que vem sendo feito pelas equipes de saúde dos estados e dos municípios é reconhecido e aplaudido pela quase totalidade dos brasileiros, tanto quanto a imensa maioria da população está na torcida para que se intensifique a reversão da expectativa negativa (mostrada pela abertura da “boca de jacaré”) da evolução comparada das taxas de mortos e de curados: uma projeção segura e não episódica certamente depende da escolha de período de observação mais elástico da crise pandêmica da Covid 19. Aparentemente, o cenário segue embaçado e o vislumbre de uma perspectiva positiva consistente parece ainda estar longe, além do que há muita probabilidade de que o país demore semanas adiante em sucessivos platôs (ainda que gradativamente menores), mas sem uma inflexão acentuada de todas as curvas.
Tirante a corrupção endêmica, as raras ilhas de excelência e as honrosas exceções de seriedade e espírito público, do quê ninguém consciente, profissionalmente honesto ou isento de ideologia tem dúvida no Brasil, é: a) não se aproveitou as persuasivas lições nem as eloquentes experiências boas e ruins ocorridas antes semelhantemente nos EUA e nos países europeus mais afetados, que poderiam ter aqui servido de modelos e de parâmetros, ad hoc, just in case, em prazo hábil; b) faltou uma orientação estratégica única capaz de conduzir de forma inteligente a operacionalização descentralizada, customizada e otimizada nos entes federativos subnacionais; c) houve imperdoável retardo nos processos decisórios críticos, que provocou gigantescas perdas de preciosos tempos e recursos. Sem exagero, o que de fato sobrou e campeou à solta foram a incompetência, a improvisação, o descontrole.
Claro, com a Graça de Deus, ainda resta lugar para otimismo, esperança, fé e oração, em casa para quem puder.
via Blogger https://ift.tt/3frCzuJ
via Blogger https://ift.tt/30Md3MJ
via Blogger https://ift.tt/2BYqy1c
Nenhum comentário:
Postar um comentário