
Sabemos que lembranças (adjetivadas a gosto) são mesmo imperdíveis oportunidades de resgate (quase sempre no frio e distante passado) de profundas emoções ou de intensos sentimentos, a maioria arranca da memória pessoas, fatos e coisas que estavam “perdidas” sabe-se lá onde, umas trazem com elas lágrimas despencando no rosto, outras abrem sorrisos abundantes de morder orelha: é o que se dá comigo, certamente parecido a outros mortais, todos por aqui de passagem.
É verdade que para uns chegados escrevi curtas loas tentando render ao menos umas modestas homenagens (no rodapé há indicações de acesso a elas), mas confesso que raras vezes me encorajei a remexer minhas rasas e leves arcas para debruçar nelas olhos tão alegres como os de hoje, paradoxalmente na missa de trigésimo dia do muitíssimo querido Agenorzinho, assim escrito para distingui-lo doutros de igual nome, do mitológico rei de Tiro ao patriarca dos Cabral.
Tirante saber na Amaro Coutinho que era do fisco estadual, das épocas em que morei em João Pessoa e em Natuba (antes de ir estudar no Rio), pouco recolhi, mas da Cidade Maravilhosa há tanto que não caberia num disco rígido de capacidade normal: a escolha impositiva foi garimpar na cuca o que estava disponível fácil, logo, à bateia, nada perfunctório, contudo.
Começo à porta de apartamento em Laranjeiras onde ele morou, aberta na maior parte quando minha sogra Nailde estava por lá com Margareth: quem poderia esquecer a acolhida sempre afetuosa naquela selva de concreto quente que já era infernal nos Anos 70 até num recanto arborizado? Como não cotejar os banquetes de sofisticados pratos com as léguas de distância do Bandejão da PUC?
Por cerca de quatro anos de andanças entre a Marquês de São Vicente e os lugares onde dormi pela Zona Sul, ouvi ele falar de Denasa, de agropecuárias no Centro-Oeste, de ligações com JK: no fundo, era de política que se tratava, do velho PSD, de uma turma de paraibanos talentosos (com um Cunha Lima no bolo), deduzi das conversas tidas em fortuitas aparições minhas em visita a ele. Soube que trabalhou também nos escritórios das Docas do Rio, concursado, suponho eu.
Na Barata Ribeiro, ele nos hospedou às vésperas do embarque para a Alemanha e foi apresentado a Catarina Emília, nascida poucos meses antes em Aracaju: era uma terça-feira de carnaval, o voo partia tarde da noite e tomamos num daqueles botecos típicos de frequência contumaz uns chopes regados a petiscos, risadas e um incrível relato dos “sobreviventes” (um de muleta, outro com braço na tipoia) duma briga feia havida de madrugada na arquibancada do desfile das escolas de samba.
Década e meia mais tarde e milhares de quilômetros rodados desde o Nordeste atravessando curvas, montanhas e águas marinhas de remanso da deslumbrante Rio-Santos e passando em Angra dos Reis, chegamos eu, Margareth, Biu Nogueira e Raquel à Ilha do Governador e – de cara – fomos batizados no caótico trânsito em batida do nosso Fiat Tipo na traseira doutro carro qualquer.
Foi susto pequeno, dano besta, prejuízo nenhum e – ao contrário – tudo acabou no lucro, porque o episódio ampliou o prazeroso desfrute da generosa hospitalidade dele, deu chance à partilha de mais chopes.
A Constituição Cidadã era recente, morávamos em Recife, tivemos o privilégio da contagiante visita dele e vimos quanto tudo passara rápido: Bertha Carolina (que ele conheceu na volta de Bremen e se apaixonou empurrando ela umas horas no carrinho de bebê pelo aeroporto) crescera e Andreas Cauê (o abençoado segundo presente sergipano da família) já aprontava das suas.
Sim, as areias de Boa Viagem distavam poucas quadras da Hélio Falcão, mas, ao invés de mera sunga de praia, ele preferia sandália, bermuda e uma camisa qualquer, que servia só para compor provisoriamente o figurino na suposta arrumação, porque na hora de sair de casa era automático nele tirar a camisa, dobrar enrolando ao comprido e jogar por cima de um dos ombros: o hábito vinha de longe, lembro dele anos depois agindo igual e vejo no despojado gesto uma atitude de desapego, símbolo da pouca importância que dava a bens materiais, acho.
Duma semana e meia da estadia pernambucana, há uma estória que jamais será apagada. Falo do magistral porre que terminou com nós dois arrastados um de cada lado de Margareth da Conveniência do Posto Shell da Ernesto de Paula Santos (metros à esquerda, pertinho, na esquina) até em casa: foi o saldo do histórico desafio de só parar as talagadas quando a torre de bolachas de chope passasse da altura dos olhos e um não mais visse o outro, parâmetro surreal, passível de explicação só como mania clássica de bêbado.
Voamos num piscar a Brasília, a partir de onde desde 1990 São Paulo e Campinas viraram na prática “caminhos-de-rato” em férias escolares de meio do ano da galera, uma delas estendida à então “oculta”, bucólica e meio “rural” Sepetiba para visitá-lo num saltinho de pressa por uns dias, com esticadinha a Pedra de Guaratiba num domingo de sol.
Claro, uma hora a Praia do Poço e o Bar de Quebé entrariam em destaque neste maravilhoso enredo, justo naquele pedaço que chamamos de paraíso onde ele revia o velho amigo dos tempos pessoenses de juventude: ousaria comentar que sonhou em morar por ali na aposentadoria, pelo brilhar do olhar dele que vi repetido nuns verões.
Da casinha da Monsenhor Renato Pires Ferreira, escolhi a imagem do brinde que fazia à primeira ou qualquer cerveja oportuna: “não sou maior, não sou menor, somos iguais”, dizia ele medindo (de modo alternado, beira com fundo, em cima e embaixo) o que na hora estivesse usando como recipiente, copo, taça ou tulipa, tocando ao final a dele na do parceiro da vez no mesmo nível, de frente, com ênfase. Impossível não concluir que a sequência era uma espécie de ritual declaratório de amizade, de reverência à cumplicidade e companheirismo, de prova maior de ausência de preconceito do vascaíno, que os de agora e os que vierem têm o simples compromisso de honrar adiante no democrático território que sempre abrigou, equidistante, à sombra do eclético cajueiro, botafoguense (Marcelo), torcedor pó-de-arroz (Zé Boquinha) e flamenguista (Zé Cabra).
Pois é: infelizmente, não deu para cumprir a promessa do ano passado combinada com Suzana (que esteve com ele meses atrás), um rolê em setembro para matar a saudade do Rio e abraçar o Oitentão no aniversário dele a compensar nossa ausência na última data redonda festejada.
A pandemia nos impediu de estarmos com Marcone, Serginho, Carlito, Larissa, Zezita e Marilene para dar adeus a ele, mas o faço agora – tranquilo, tristeza contida e algo conformado – finalizando estes selecionados instantes de relevo compartilhados com ele, as melhores cenas vindas à tona comigo de espectador ou coadjuvante, ele de protagonista.
Realmente, num momento enternecido, gravoso e pesado por tradição, não me ocorreu no mês todo mínima dúvida nem surpresa qualquer de aflorarem somente referências positivas, inspiradoras e leves. Nada de diferente seria de esperar, até porque os depoimentos de todas as irmãs corroboram a excelência humana do caráter fraternal, elas que jamais ouviram dele uma grosseria menor que fosse.
É assim o tempo, o mundo e a vida, trocam as estações, endereços mudam, segue em curso a dinâmica redonda da terra: o cardápio de alcunhas é variado, pode ser destino, sorte, acaso, o que cada um quiser adotar de descritivo.
A quem até aqui viajou este fascinante percurso, digo: mandem daí os “pingos-de-is” que faltaram, sem acanhamento de acrescer o que vier na telha .
Quedo em silêncio orando a Deus que receba e com Ele guarde bem direitinho Agenor Cabral de Lira Filho. Amém.
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PS: há lacunas a preencher, sei que estou em dívida e espero em breve pagar outras promissórias: nada me vão custar, são recortes já prontos da minha própria colchas de retalhos. Basta só que o Senhor de Todos Nós oportunize a inspiração.
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