
Do outono nublado e de temperatura baixando de Montreal, não tive notícia precisa do programa de hoje da nossa porção canadense, mas em Brasília foi tarde quente e seca típica da época, os dois casais de filhos vizinhos fanáticos rubro-negros da família assistiam o time deles jogar na televisão, Margareth estava de olho aberto na netalhada se esbaldando na piscina lá atrás e de repente me atirei de cabeça sem desconfiar o porquê meio século numa cena distante de um cafundó a mais de dois mil quilômetros, que foi meu doce exílio em amargosos anos parecidos aos de agora.
A coisa tem quase nada a ver com o tipo de acontecimento natural de fim de semana de metrópole de cerrado de planalto, mas cabe que nem uma luva macia a reflexão da memória emergida.
Domingo é dia de acordar mais tarde em todo mundo, mas não naquele lugarzinho para mim tão significante, encravado fundo embaixo das serras das uvas e das bananeiras que um dia tiveram primoroso café de montão à sombra de majestosas árvores.
Em Natuba, o mercúrio passou molinho de trinta graus, a umidade foi ao meio da escala e decerto havia candidato na rua cabalando voto a troco de promessa que a gente só crê porque esse caríssimo preço da democracia é mais barato do que qualquer ditadura.
Ali, quando morei no antigo ex-posto de saúde, era dia de feira, de barulho, de matuto arrastando pés, de cascos de cavalo trotando nos paralelepípedos, de caçuás pesados nas cangalhas de burros repletos de mangaios para entregar, vender e trocar.
Mas, eu, que intimidade com tudo aquilo tinha igual a fazer enxertos de pé de suculenta laranja-de-umbigo ou tirar leite de vaca no esguicho, acordava cedo também, à minha moda.
Sim, domingo era dia de ouvir, de ver e de curtir a vida no largo da Igreja de Nossa Senhora das Dores, cedinho, tanto que – antes de levantar, ir no banheiro fazer xixi ou escovar os dentes – saudava eu sorridente cada feliz manhã domingueira sob inspiração dos Beatles e de uma obra-prima do quieto George.
Ainda que debaixo de chuva, o que não era novidade por lá, os acordes de Here Comes The Sun (https://youtu.be/KQetemT1sWc) abriam suaves para mim todo domingo os tímpanos e a esperança de que a luz sempre volta a brilhar em qualquer dia ou lugar, até na friorenta noite natubense, simbolicamente.
Sim, sentia falta da paixão que estava longe, mas não vivia triste ali: de algum modo, me vinha alegria que fazia tudo ficar bem, compensando as lacunas, preenchendo as carências com os garotos de Liverpool e, no caso, com os versos do guitarrista da banda, que eu ousava tentar às vezes imitar dedilhando no meu Di Giorgio, inseparável amigo das horas de solidão.
O meu Transglobe Philco me falava do que se passava fora daquela acolhedora brenha, pela VOA eu sabia que estava desabando napalm no Vietnã para ter ideias nos papos com Donald (o gringo que morava lá, não o tosco ocupante da Casa Branca que odeia negritude) e pela grandiosa Rádio Clube de Pernambuco chegava notícia da nossa tensa e escura realidade política, mas – fosse ruim como era ou até pior do que se sabia depois de crivado pela censura – os cabeludos ingleses eram um alento e a harmonia magistral daquela faixa do Abbey Road carregava leveza, era um bálsamo de cura, uma benção entrando pelas oiças, balançando os miolos e tocando o coração.
O repertório de autoria dele era menor em cotejo com Lennon e McCartney, mas aquele toque sutil nas cordas da Fender no solo que entremeava o refrão me despertava uma sensação de paz, me levava junto com ele aos gurus indianos que admirava e seguia, era pura mansidão, um grito de luta contra a nojenta guerra, uma ode à não violência que me cativou desde então.
Por uma centena de semanas da temporada que estive a escutar sem cansaço naquele quartinho a melodia que trazia o sol a mim, jamais alguém me pediu para mudar o disco nem perguntou o que diziam os versinhos cantados naquela voz de sussurro e numa língua tão estranha, mas acho que a fraterna solidariedade ao povo faminto de Bangladesh por trás da barba e do bigode dele eram audíveis e inteligíveis do mesmo jeito ali onde pouco havia igualmente, a ponto de dar dó de cortar alma de quem notasse.
Se as estrofes aparentemente ingênuas de Harrison que falam de um amor idealista e de sóis repetitivos que nos aquecem por dentro me levaram a Ravi Shankar e me ajudaram a refletir o quanto ariscos momentos duram por décadas, espero que todos neste domingo ainda teimoso de inquietante pandemia tenham por semelhança, mas à sua própria sensibilidade, podido descobrir hoje a dádiva de se estar vivo.
Que Deus o tenha, George Harrison, e que o seu brilho por aqui nos afaste da treva. Amém.

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