Recebi via internet diagrama meio conhecido (de autoria indeterminada), denominado Teoria da Vaca, que usa o ruminante altamente produtivo para esclarecer em linguagem simples de boteco teses políticas complexas, missão tipo impossível, porque tenta definir confusas relações e tênues limites entre público e privado sob socialismo, democracia, comunismo, burocracia, capitalismo, anarquia e por aí vai.
Como fui cobrado por vários amigos das mídias sociais, incluindo ex-alunos Brasil afora, tomo de conta da brincadeira com o mamífero artiodáctilo chifrudo (que já me serviu de fonte de inspiração muitas vezes) e agora compartilho de modo ampliado uma dessas ideias diferentes que tenho usado em sala de aula e em reuniões de trabalho para falar de coisa séria na base da parábola com fundo de verdade.
Todos sabem que o modelo clássico de formulação de políticas públicas parte da identificação de demandas da sociedade e busca atendê-las por meio de programas governamentais, na quase totalidade usando recursos oriundos do orçamento oficial, enfim, com dinheiro do povo, de tributos recolhidos, principalmente da classe média (por retenção na fonte, no caso dos salários), porque ricos pagam menos de tudo (escondidos em espertas pessoas jurídicas ou usando muitas das brechas fiscais) e pobres são alcançados de todo jeito (inclusive pela inflação), tirante o imposto de renda. O perfil descritivo é geral, as particularidades são nossas, tem nosso jeitinho.
Como o estado democrático é aberto, o governo é dependente em larga escala da ciranda financeira para financiar a dívida interna e a frágil administração pública acaba polvilhada por interesses externos enfiados na máquina oficial, na prática, muitas vezes, o que se vê são arremedos do orçamento engendrados no círculo vicioso que mistura capital privado, tecnocrata subserviente e político financiado por lobista, enfim a alocação das prioridades bota o povão na rodinha, em linguagem no popular.
É como se uma vaca fosse cortada ao meio, na vertical. A parte da frente é de responsabilidade da sociedade, que tem de prover (a seu custo) os alimentos (impostos, taxas, contribuições), enquanto o estado, o governo e a administração pública têm função burocrática no processo metabólico (operam a grana auferida e a aportam como prescreve a conveniente lei, o acordo tácito mascarado de política pública ou a mais pura negociata), mas a parte de trás, que gera os benefícios (leite, estrume), especialmente as tetas, fica sob os auspícios dos interesses privados, que transforma tudo em lucro ilegítimo e/ou em riqueza adubada pelo corrompido modelo.
Aí, surgiu um tal de orçamento participativo, uma espécie de praça do povo onde quem comparece apresenta o que quer, alguém anota os pedidos e tudo vai parar num liqüidificador imaginário, cuja mistura é feita com modo de preparo mais oculto que receita de Pastel de Belém e na qual os ingredientes são adicionados na proporção que convém ao resultado previamente definido ou manipulado depois. Ou seja, a vontade da galera expressa no conclave popular, comunitário e/ou de grupos organizados vira um reles assembleísmo popularesco inócuo, um clone muito mal acabado dos irreconhecíveis cromossomos democráticos originais ou um ícone politiqueiro de gênero absolutamente indescritível, um travesti na escuridão da noite mais negra que asa de corvo.
É como se uma vaca fosse cortada ao meio, na horizontal. A parte macia de cima, o lombo, as gorduras e os cortes nobres são apropriados pela elite econômica, política, estatal, governamental e administrativa dos ditos poderes constituídos, dos supostos saberes institucionalizados ou do poderio capitalista cada vez mais concentrado: filé (inteiro, nada de contra-filé), picanha (até maturada) e maminha (palavra melhor não haveria, ela deve vir mesmo do verbo mamar) são a síntese do privilégio. Enquanto isso, a parte pobre de baixo, o osso, a sobra e o que pouco vale vão parar na mesa da periferia da sociedade: vísceras misturadas viram buchada ou sarapatel, rebotalho triturado enche linguiça, mocotó é apresentado como iguaria que dá sustança e a mundialmente famosa feijoada brasileira aproveita tudo que couber no caldo grosso da grande panela. Com cachaça pura no quengo ou sob generosas goladas de caipirinha goelha adentro, sobretudo em clima de festa, a combinação final tem sabor ainda melhor, pode até parecer chique, servir de mecanismo eleitoral em campanha de político malandro pelo interior do país, estratégia com mais de cinco séculos de indiscriminado uso.
Provavelmente, em português castiço, a tal vaca cortada ao meio (na vertical ou na horizontal) possa ser essa tal de parceria público-privada, uma falsa modernidade, uma velha artimanha com charmoso figurino, uma versão ardilosa da casa grande-senzala, uma cruel materialização da dialética elite-massa.
É claro que um dia a vaca vai parar no brejo, a farra do boi vai acabar. Por precaução, acho bom a gente ir modelando o paladar para se adaptar a uma dessas insossas dietas magras ou aderir a qualquer corrente natureba que só come folha plantada no quintal de casa; enfim, buscar proteína em alguma coisa alternativa, porque estilo vegetariano, natural ou macrobiótico anda custando os olhos da cara.
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