Cena III – Ei, Você Aí, Me Dá Um Dinheiro
Aí, Me Dá Um Dinheiro Aí...
A
música de Homero Ferreira é carnavalesca, brincalhona, sarcástica, mas o tema é
sério, povoa a conturbada agenda do país, ocupa a seleta primeira página do Valor Econômico, do Frankfurter Allgemeine, do Wall Street Journal, da The Economist ou do Asahi Shimbum; o assunto estressa transeunte comum, engravatado
executivo, especialista burocrata ou amanuense de balcão, interessa a Barack
Obama, Ângela Merkel, Xi Jinping ou Dilma Roussef, pertence a Antônio
Pechincha, Generosa Farias, Inocêncio Coitadinho, Vera Lama.
Zé-Povinho
tem ele contado mês-a-mês no miudinho, Dona-Maria quando vai à feira o vê
sumindo mais veloz do que piloto de Fórmula 1 contumaz no pódio, Filhinho-de-Papai
conhece ele pelo barulhento ronco do milhar de cilindradas de sua supermoto, Playboy-de-Carteirinha
o transforma em homérica farra na noitada de boate chiquérrima, Patricinha-da-Oscar-Freire
faz de um monte dele única peça de roupa grifada querendo ser mais
exibicionista que a Paris Hilton, Mauricinho-da-Barra-da-Tijuca enxerga ele
pulsando no autêntico Rolex que assaltante de olho clinico reconhece no braço dele numa piscada e
Corrupto-de-Colarinho-Branco sabe a alquimia que o transmuda em patrimônio de
quem jamais se descobre.
O
portelense e alvinegro Paulinho da Viola cantou a pedra que dinheiro na mão é vendaval, (conceituando inquestionável a natural efemeridade, o risco inerente), o pornográfico genial Nelson
Rodrigues escreveu que dinheiro compra
tudo, até amor verdadeiro (insinuando ser ele chegado à promiscuidade, a
rodar bolsinha no trottoir), o progressivo
roqueiro britânico Roger Waters profetizou sonoro money is a crime (provavelmente se referindo à diabólica apropriação
indevida, à injusta riqueza anticristã) e o pai de amiguinho daqui de casa
disse que ele é igual amendoim, só presta bem torradinho (certamente se
referindo ao prazer salutar que se pode obter dele).
Dinheiro
foi simbolizado em cigarro, búzio, concha, gado ou sal, e, quando ele não
existe ou se não é aplicável ad hoc, a
solução é o escambo, mercadoria permutada por mercadoria, semente por fruto,
tomate por cebola, um bicho por outro, cuidando para que não seja gato por
lebre. Como todo país tem o seu, alguns marcaram época, fizeram história, como
no Brasil, o pau que lhe deu o nome (cinco paus é cinco reais, todos entendem),
o açúcar (é o mel que lambuza o beiço de quem não o tem costumeiramente?), o
cacau (ainda na boca do povo), o tabaco (quem não tinha levava fumo?) e até o
pano (da costa? Do Maranhão?).
Por
definição, é bem escasso, que sobra de montão na conta de uns poucos; é tido como
abstração, mas é concreto acima de qualquer suspeita; um diz que ele tem parte íntima com o cão, outro o vê tão sagrado quanto castiçal de altar. Não rebentou o dito cujo por
geração espontânea, evoluiu junto com a humanidade, desde que ela encontrou um padrão,
primitivo, muito antigamente, milênios para trás, e hoje, é diuturno, tão
arraigado no imaginário e na cultura que cofrinho-mealheiro é dado de presente
a criança.
Nas
trevas do mundo, se achou que mortalha deveria ter bolso, urna funerária vir equipada
de guarda-valor chaveado, mausoléu ser caixa-forte majestosa para além de
simplória tumba, onde - de costume,
vestido a caráter, com retumbante pompa, trombetas audíveis quilômetros
distante e ritualíssima circunstância - se sepultava, junto, o morto e seus valiosos
bens, à espera do mais que improvável prodígio bíblico da ressuscitação dele e
da multiplicação dos respectivos pertences, simultaneamente, o que - já é corroborado
em sobejo - só ocorrerá no Dia-De-São-Nunca.
Depois,
já no ronca, se guardava tudo debaixo da cama, dentro do colchão e até do travesseiro
ou na barrica sem tampa, em reforçado baú num canto caseiro, quando havia um, ou
em compartimento que reproduzia casamata de parede revestida a chumbo, nem um
tico parecido com esses estilosos cofres mecânicos, boca-de-lobo, de variada
cubagem, à venda em caminhões na beira da estrada, tão inseguros que os
atrapalhados Irmãos Metralha abririam fácil, sem precisar sequestrar gerente,
subornar funcionário ou explodir pelos ares com petardo de romper couraça de
blindado de guerra.
Mais
ou menos à época do pacto firmado a sangue, documento lavrado por escrivão de cartório,
contrato fechado em envelope a lacre quente e acordo a fio-de-bigode,
olho-no-olho ou aperto de mão, aquele que tinha algum disponível (o
interesseiro) emprestava a juro ao que dele precisava (o interessado), simples
assim. Faz uns bons dias, se tem simulador na internet, a operação de
toma-lá-dá-cá é feita em linha, transformada em céleres bits, sem se ver a cor do
produto, só os impulsos eletrônicos, o passo-a-passo do aplicativo que guia o
prestamista. Agora, há portabilidade, imagine você, o papagaio passa de
mão-em-mão, mudo, com autorização do velho e do novo proprietário. Existe até
uma portinhola cada vez maior onde endividado com restrição de todo tipo
consegue ainda levantar bolada sem avalista,
como se anuncia na TV, mas a duras penas, por certo uma armadilha que
encaçapa o coitado sem misericórdia.
Há
também a popularíssima caderneta de poupança, secular até em agência postal
alemã (onde tem nome semelhante, Postsparbuch, livro de poupança postal,
literalmente), em geral tão sólida quanto rocha (tremeu durante as grandes
guerras, mas atravessou quase incólume aquelas até lá horrendas beligerâncias).
Com distintos apelidos, ela existe em todo o mundo, mas não é apenas para uso
de pé-rapado ou de pouco-tostão; muita vultosa fortuna foi, é e continua nela aplicada; tanta, que, dela, volumosa parte direitinho se escafedeu por um desses vazados escaninhos
de instituição caloteira disfarçada ironicamente de sociedade de crédito
imobiliário, às claras, nas barbas do
omisso, conivente, viciadíssimo Banco Nacional da Habitação, o extinto BNH
(Deus o guarde sepulto), escudada adicionalmente por influente associação poupadora
militar, ex-toda poderosa no regime, nos Anos 80, de horrorosa lembrança: quem
perdeu jamais esquece o Grupo Delfin, aquele que manteve o patrimônio oculto
nalgum lugar, deu fim literal ao que ‘custodiava’ dos outros e estende tentáculo
até hoje, quem diria, atado à UniverCidade, essa mesma que frequenta noticiário
policial diário, lamentavelmente ao lado de fundos estatais de pensão,
Postalis, por exemplo.
Anos
a fio, criativa falcatrua alimentou gordo enriquecimento ilícito, escandalosa fraude
recheou conta secreta em paraíso fiscal, empresa de fachada brotava mais que de
repente e desaparecia numa clique d’olho, muitos viam tudo de soslaio ou a
conveniente meia-luz, faziam ouvido-de-mercador à convulsiva balbúrdia ou se
calavam diante do crescente rumoroso burburinho, até que o prédio já em ruínas
desabou completo em plena campanha política e culminou em espetacular tiro-de-chabu
colorido inocuamente disparado na espiral inflacionária que coriscava como fogo
de artifício no céu, confiscando injusto até o que se poupava honestamente em diminuta
escala.
Ninguém
está totalmente imune ao difuso contágio oriundo de doente exógeno contaminado
por moeda podre, nenhuma vacina é potente o suficiente a ponto de barrar completa
a inoculação de mutantes vírus de incredulidade surgidos sabe-se lá quando, em
quem ou onde. Tanto que, agora mesmo, a (im)pura agiotagem ainda sobrevive em comandante
que abandona o barco e deixa ele submergir cheio de náufragos, de plano
ergue-se contínua pirâmide oportunista feita com otário na base e espertalhão
no cume, do nada surge diuturna e segue avante corrente que sempre arrebenta no ponto mais fraco, uma cadeia onde poucos permanecem o tempo certo e merecido.
Mas,
justiça se faça, duns anos para cá, após o sufoco passado no custoso incêndio
debelado que carbonizou mais de duas dezenas de bilhões de reais no questionável PROER
da Era FHC, abalo sísmico no sistema financeiro pode ser perceptível
antecipado, a solidez se robusteceu, o leque de opções se modernizou, agregou-se
alerta prudencial ao vocabulário, ficou menos ininteligível ao vulgo a linguagem
da conta corrente, do depósito a prazo, do Fundo DI, do desconto de duplicata e
de cheque no factoring; o efêmero overnight e o compromisso a 30 anos são pacíficos
vizinhos de porta, deu-se mais transparência à dívida mobiliária, sem nenhuma jocosa
menção ao carnê de pagamento de utensílios domésticos, sofá, cama, berço,
móveis em geral, comprados no crediário a perder de vista, confortavelmente
agasalhado na verba familiar.
Trata-se,
afinal, da bem tradicionalíssima mediação entre ativo e passivo, um recinto carregado
de nomenclaturas específicas. Decorar todas elas é impossível, nem com assessoria
de pós-doutor da Universidade de Harvard, não perca nisso seu precioso dia, amigo;
não adianta pesquisar glossário, manual ou dicionário, em nenhuma língua do
planeta, porquanto tradutor algum identifica apenas pela grafia, fonema ou
sílabas o significado de cada sigla, nome ou locução, este idioma é babélico,
relaxe, sem gozação.
Na
principal corrida de fundo, a parada é federal: tem LTN (Letra do Tesouro Nacional),
LFT, LFT-A, LFT-B (Letra Financeira do Tesouro, com respectivas Série A e Série
B, nada a ver com campeonato de futebol,
felizmente) e NTN (Nota do Tesouro Nacional, Série A, de NTN-A1 a NTN-A10, mais
Série B, Série B Principal, Série C, Série D, Série F, Série H, Série I, Série
M, Série P, Série R, Série R2, ufa, a lista tem cara de enunciado de exercício
simulado de análise combinatória caída em questão de vestibular, em prova do ENEM).
Mesmo
sendo confuso e apesar da dívida total do tamanho da Muralha da China, caudalosa
igual às Cataratas do Iguaçu na cheia, leigo nela se fia, visto título público
ter garantia de governo, que - diz a lenda - fica inadimplente, enverga e não
quebra, como pé-de-goiaba. Mas, atenção:
Tesouro Direto, até via internet, a partir de R$30, populariza, educa, facilita
captação, mas não deixa de ser merreca equivalente a cervejinha mixuruca com
parede simples, tipo batatinha frita, nem de longe significa ter ao seu dispor a
chave-mestra da tesouraria, não é botar a Mão-na-Botija, no popular, nem no
teto do milhão.
A
infinitas léguas do Pote-de-Ouro-no-Fim-do-Arco-Íris, há o mercado aberto da
promessa de compra-venda-recompra-revenda, do intermediário fundo coletivo de
investimento, do dono de suculenta carteira, um nebuloso universo privado onde a
máxima precaução é benvinda, chá de qualquer folha remedeia, haja vista que inexiste risco de alguém se intoxicar
com antidoto, nem mesmo em exorbitante porção, como caldo de galinha.
Aqui,
lampeja outra galáxia de abreviaturas, tipo CDB (certificado de depósito
bancário), LCI (letra de crédito imobiliário), LCA (Letra de Crédito do Agronegócio),
debêntures (incentivadas, de infraestrutura, etc.), algumas delas ligadas a
papel de rolagem de divida (sinal de que o gato subiu no telhado) e, por fim,
os recebíveis, que, apesar do vínculo securitizador, pelo nome, é, talvez, possibilidade
de se ter de volta ao menos o investido.
Quem
precisa fazer caixa, na esquina onde mora, pode deixar sob taxinha na penhora
cordão de ouro, trancelim de prata, anel de noivado, casamento ou formatura
(com ou sem pedra preciosa, ornado de diamante meio falsificado, cravejado ou
não de brilhantes), joia da coroa de casa e/ou da família, lembrando que não se
aceita por depósito o que é feito de latão, nem micheline barata ou bijuteria
enegrecida pelo tempo, mesmo que tenham algum valor, até para além do afetivo,
que não é pouco não.
Entrementes,
pelo amor do Divino Pai Eterno, deixe no bolsinho do cós ou no pescoço e jamais
pendure sua própria medalha de Santa Edwirges, a concorrida Padroeira dos
Endividados, porque, havendo infortúnio, mesmo sendo ela pródiga em milagre,
nenhuma prece por mais forte que seja é capaz de livrar qualquer ser humano da
amaldiçoada bancarrota, da inscrição nada triunfal na lista negra creditícia, da
crucificação no SPC, no SERASA.
Mas, alto lá, apressadinho: retorno ao crédito
de colherinha se aplica só a pobretão que corre rapidinho para limpar a sujeira
do seu nome na praça, o bem de maior valor de muitos deles, enquanto inadimplência
de fortuna é tratado por vezes como esquisito indicador de prestígio no credor,
endividamento elevado pode ser estranhíssimo sinal exterior de riqueza, por
incrível que pareça gentinha se gaba de ser grã-fino-que-deve-não-nega-e-paga-quando-puder.
Uma
hora oferta-se crédito a rodo, até sem lastro qualquer, só virtual (cerca de 20
vezes mais que em espécie, R$ 125 bi contra R$ 2,17 tri, cifra pouco menor que
o orçamento brasileiro de 2014), como tutu de plástico, generosidade
oligopolista digna de desconfiança, já que cinco gigantes bancários detém três
quartos dos ativos, migraram da função original de intermediação entre poupador
e empreendedor para a de clássico agente oficialmente autorizado a
operacionalizar a ciranda creditícia: fácil (até o Banco Central pega do
Tesouro Nacional), polpuda (é tanto zero que não cabe em visor de calculadora
normal) e lucrativa (42% do gasto anual é só pagamento do serviço da dívida,
sem amortização, enquanto o fiado segue adiante corrigido), uma dinheirama que dona de
casa alguma jamais gastaria numa vida inteira, tanta fartura que até sobra para
graúdas doações a campanhas políticas, como se diz, alto e bom som, em conversa
de botequim.
Noutro
instante curtíssimo, se recolhe o suposto circulante interbancário quase todo no
vassourão de cerda potente, o compulsório, cujo nome já diz não haver alternativa
à aceitação. Neste métier, prudente seria que se salvasse do sacrifício a
galinha-dos-ovos-de-ouro a caminho do matadouro, se interviesse preventivo
estacando a vazão antes da impositiva cobertura do rombo, se notasse nítidas as
primeiras evidencias objetivas de que se vai dar-com-os-burros- n’água,
exemplificando:
1 1) borrachudo retornando
ao emitente-sem-vergonha-na cara igual veloz bumerangue;
2 2) visível saque
feito a descoberto;
3 3) empréstimo
novo feito contínuo a pagar empréstimo velho;
4 4) patrimônio
torrado na despesa corrente igual cachorro comendo o próprio rabo; e
5 5) saldo avermelhando
próximo de fazer a hipótese de inadimplemento beirar a certeza, ou de a obrigação
breve virar letra morta junto com o defunto que a assinou.
Portanto,
quem é do ramo, normal recomenda não por todos os ovos na mesma cesta, orienta a
se ligar no leilão anunciado, a garimpar consistente parâmetro de decisão para
encontrar a melhor blue chip, confrontando:
renda fixa ou variável, remuneração pós ou pré-fixada, nível de liquidez, prazo
de carência e/ou de resgate, spread, rendimento
histórico versus rentabilidade
recente, isenção de IR e/ou IOF, custódia ou fidúcia contra
insolvência, indexação (sim ou não, a quê), seguro ou seguro do seguro (que é o
resseguro) à (des)proporcional insegurança. Mas, todo cuidado é pouquíssimo com
a taxa de administração, de carregamento, ela pesa demais, dói as cadeiras,
deixa a espinhela caída, afeta terminal nervoso, pode quebrar a coluna
vertebral, a do sistema, a sua, particularmente.
A
lógica aeronáutica é aplicável aqui, parcial: se pode voar sob nevoeiro, à
noite escura, em dia ventoso, às cegas, por instrumento, se estiver ele regulado,
se a torre é ocupada por profissional capacitado. Em trajeto pertinho, reserva
de combustível mínima é suficiente para algum desvio, mas é insensato levantar
do chão para longo curso, sem aeroporto opcional A, B, C, sem tanque cheio,
porque pode ser obrigatório mudar a imissão feita, trocar uma aplicação por
outra, resgatar o aplicado antes do previsto. Aliás, aqui, jeitinho improvisado
pode ser fatal, inclusive em cenário de inesperada turbulência aparentemente
contornável, porque tudo pode ocorrer se o caminho for escolhido ao acaso, no
chute despreparado, ao bel-prazer de quem quer que seja metido a entendido: sem
informação prévia, confiável, é evidente que nem Chico Xavier consegue prever a
rota menos arriscada, e, se a aeronave entrar em parafuso, nem Mãe Dináh
saberia guiar o piloto no impraticável pouso de emergência, seja onde for.
Por
dentro, para que a rodinha opere à volta da mesa no compasso acordado, sem
sobressaltar os protagonistas nem aterrorizar os ocupantes dos assentos
na plateia, pessoas físicas ou jurídicas, entra na passarela o Fundo Garantidor
de Crédito (FGC) e a Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia (CBLC), não
se surpreenda, ele e ela existem, têm essas responsabilidades autoexplicativas.
Contudo, não raro, o inquieto mico pula de galho em galho, cresce ao tamanho de
chimpanzé e se aloja à sombra de frondosa copa, a risível provisão para empréstimo de
recuperação duvidosa, conveniente guarda-chuva que abriga rubrica do traído Marido-da-Viúva,
suspeito aval do Herdeiro-Nobre-do-Banco-Liquidado e imoral endosso do Amante-da-Farra-do-Extinto-Dinheiro-Alheio.
Lá,
por fora do borne, o mercado de título estrangeiro detesta instabilidade
entrópica, a vitrine gosta de se exibir menos cosmética, mais discreta ou quiçá
camuflada; a prateleira, a baia e o guichê têm preferência por conter produtos solventes,
que atraem babando ávidos pretendentes, fazem eles percorrer milhas à procura
deles. Idealmente, é verdade, mas nem tudo anda sempre certinho aqui, como
prova o Crash da Bolsa dos EUA, em 1929. A quebradeira generalizada que se
alastrou mundo afora se tentou explicar de toda maneira, nem marciano escapou
da suspeição, porque, de fato, se teria escondido o choco do ovo da serpente
até da Pitonisa de Delfos, o local onde a artimanha foi engendrada é
ultrassecreto, só esperto tomador cobiça e descobre irrestrito acesso a
facilidade encoberta aos demais, infelizmente com rentável sucesso na aventura
extremada, de momento.
É
assim no misto cassino da inversão capitalista: para além da pura sorte ou do blefe
premeditado, acertar a mancheia o Royal Straight
Flush no pôquer internacional jogado alhures ou atirar a carta sortuda
gritando truco enquanto esmurra a mesa daqui com ficha dolarizada não requer
apenas suficiente cacife, habilidade de campeão, tráfico de influência fluido e
acabadíssima informação privilegiada, precisa também incluir certa dosagem de
probabilidade, com erro mínimo, derivativo matemático que exigiria consulta ao
Supremo Mestre Pierre Laplace, se ele não tivesse morrido. De modo assemelhado,
no caso de se desejar por completo a eliminação da trapaça do carteador, se
trata então de exercício de ciência oculta, adivinhação tão esotérica que carece
recorrer a Bita do Barão, o Rei da Bruxaria, aquele que - no Terecô de Codó - dá
conselho infalível a celebridades, ricos e políticos.
Traz
um oceano de possibilidades, esse aparato que abriga finanças. Ele funciona ao
ritmo das marés, subindo na preamar e descendo na baixa-mar, normalmente calmo,
cíclico, previsível, mas se o pélago fica mais revolto, como nessas procelosas crises,
tem bastante irresponsável à deriva e louco-de-rebolar-pedra-na-lua que adoram
repetir despreocupados manobras radicais. Tanto que, em 2008, até malandro
criado foi pego de calça-curta na crista da onda que julgava maneira, CEO
regiamente pago perdeu o short de praia, se expôs nu ao relento, de bunda lisa na areia,
e, quando finalmente clareou, relações de troca feitas por debaixo do pano deixaram injustificável marca de batom na cueca do alto escalão do severo
FED: o até então respeitável mercado, àquela altura já era feira livre, findou
anoitecendo na penumbra de lupanar.
Por
não ter percebido o tsunami se formando invisível como rastro de cobra, quando
o maremoto penetrou o costado da Casa-de-Mãe-Joana, o aparato travou feio, se
ficou igual cego em tiroteio, contendores brigaram de foice no escuro, o modelo
colapsou e agora nem o mais concentrado dos detergentes limparia a nodosa mancha
da insolvência impregnada na arranhadíssima reputação do controlador, ora em malcheirosa
liquidação, inconclusa, insepulta.
Na
fronteira de mão-dupla do fluxo de investimento internacional, já trafegou aqui
denúncia de orgia alienígena na mesa de operação, se acusou de entreguista quem
tinha parceria fora do país, houve empolgante campanha patriótica contra
remessa de multinacional ao exterior, bandeira de fortíssimo apelo no combate
ao imperialismo.
Afastado
na data, mas atrelado no contexto, quando o prego do FMI foi zerado, bem
recente, comemorou-se no estrondoso megafone o feito como virada de página
histórica: derrubou-se o Pelourinho, extinguiu-se a escravidão, rompeu-se a
amarra, abriu-se o grilhão, rompeu-se o jugo, malgrado ela, a dívida - renascida
indesejável, fênix tupiniquim que sequer verteu lágrima a curar antigos males -
esteja de novo engatinhando, ativa, rastejando baixo na casa dos cem bi de reais.
Visto
que - triste e ironicamente, esse era o registro do montante do débito interno
há vinte anos - é torcer para que a novíssima versão da promissória externa seja
anã, não cresça rapidinho como aquele lá, cedo amadurecido, prematuramente tornado
adulto com trilhão a pagar, preocupante expectativa de se desfigurar igual Frankenstein, de não morrer natural e honrosamente de velhice ou, pior, ressuscitar, indefinido,
até quase se eternizar, longevo, Matusalém, com filhote gerador de
irreconhecível neto, que Deus nos perdoe. No cotejo com ele, é fervoroso rezar para
que ela não se mostre balzaquiana sem atrativo algum, nem se demore aqui caquética,
esclerosada, rabugenta e trabalhosa ou se alongue velha-de-morrer-vivinha-da-silva.
Sobretudo, se vier a falecer, que seja de vez, em pleonasmo, não seja
mumificada.
Detonada
a farra do banco estadual que financiava até a fundo perdido negócio de
amiguinho do plantonista do poder, vários lazarentos remanescentes do
pervertido molde insistem em contrair empréstimo elástico, pagável por
sucedâneo em cuja mão o atilho esticado vai bater de volta quando solto, o dono
do colo onde a bomba vai explodir um dia.
Mas
- graças ao santificado céu, à bendita Lei de Responsabilidade Fiscal e à
abençoada vontade férrea contrária de alguém - estado e município não mais
emitem títulos públicos de captação em nenhum outro lado da fronteira, senão
voltaria o caos do frouxo endividamento deles, que ainda é elevadíssimo. Hoje,
há controle no critico visor do painel central da espaçonave, já que somente a
União é guardiã dessa competência, autorizada pelos nobilíssimos senadores,
tudo porque há inevitável repercussão externa, a soberania do país aí se encanga,
é preciso antever possível prognóstico catastrófico no trajeto, impedir trágica
rota de colisão no extrassensível cosmo das nações intensivas em capital.
A
propósito, se algum terráqueo for abduzido e tentar apreender a hipotética arte
da avaliação, a partir da expectativa de expressivo ganho de capital,
perda em alguma medida ou malogro total, adotada por agência internacional de classificação, como a Moody’s
(conforme o humor?), Standard & Poor’s (padrão dum lado, pobre doutro?) ou Fitch
(cheira ou fede?), depara-se com plêiade de conceitos incompreensíveis a não-iniciados,
assim, do melhor para o pior: AAA, AA e A (parece tamanho de pilha, né?), BBB (Bronze-Benvindo-no-Bolso,
é isso?), BB (Bem-Bom, por enquanto?) e B (B de Bancarrota à vista, parece),
CCC, CC e C (C é de calote, acho), e, finalmente, D (a moratória, com D de
Desastre, decerto), acrescido ainda de sinais (+) ou (-) e da cor vermelha, negativa,
a partir de BB+, que é quando o país começa a ratear no rating.
A
nota avaliativa dos países oscila na sequência a cada choque mais que o Pêndulo de Newton, e, no Brasil, todos
estonteiam na frenética gangorra especulativa, de acordo com favoritismos nas
pesquisas de intenção de voto da eleição presidencial, explosiva mistura de
política e economia, pode? Sim, pode. Mais: isso ocorre, contrapondo – de forma
elevada ou de modo rebaixado – os candidatos e seus respectivos luminares,
diretamente, como porta-vozes e até por ventriloquia, sem que se saiba quem é
quem.
Logo,
quando banco lucra bilhões num único semestre, manufatura definha anêmica,
emprego se abala fazendo tremer a confiança do mais-que-volúvel mercado de
ponta não é o tinhoso maligno se vingando dalgum infiel de ontem, não, é a Política
Financeira.
A
preço de todo dia, ela tenta por naipe pesado na mesa, apostando como pode e
deve, buscando prevenir que se mele o jogo, se necessário, porque:
1 a) ricaço traz o
ás oculto na manga (faz dinheiro quem tem dinheiro);
2 b) argentário
ligeiro tira lasquinha de posse do coringa do baralho (dívida oficial como
maior fonte de investimento);
3 c) usurário sem
dó se aproveita da roleta girando solta (gasto público maior que receita); e
4 d) onzeneiro
ladino especula na maior enquanto crupiê muda regra toda hora, fazendo oscilando uma aparentada desta mexida no vil metal.
Refiro-me
à Política Monetária, prima carnal daquela outra.
Essa
daqui tem igualitária complexidade, é a Dona-do-Pedaço, diz quanto de notas roda
por aí à solta ou o que deve ficar retido no cofre da banca, do governo ou em
ambos; influencia a taxa de juros, a remuneração da transação básica, o volume
de crédito, o ritmo do crescimento, a dose da inflação, medida por qualquer dos
muitos índices, IPC, IPCA, IGP, IGP-M, IGP-DI, por aí.
Deve
ser reverenciada como protetora mãe que não descuida minuto da cria, só é
respeitada se tiver autoridade de pai na gestão das contas e na provisão da
mesada, com necessário rigor, inclusive, se, de leve, puxar a orelha dos bancos, ou
intervindo eventual para botar rédea curta no próprio governo. E - para que a
disciplina venha natural, apenas no olhar com jeitão de reprimenda, ou que sua
aparição seja saudada com arrebatada admiração - além de honesta (que é
atributo imperioso), precisa ser exemplar, manter reputação ilibada.
Lida
diária com superávit primário, déficit nominal, base monetária, meio circulante,
auditagem final, investimento produtivo ou capital desapaixonado e transitório,
dito de motel, talvez porque rapidinho tira casquinha de qualquer oportunidade,
onde ela estiver, seja com quem; sob seu comando, se emite ou imite, ela drena
ou injeta recurso se, quando e onde precisa.
Tocando
nele, o meio de pagamento, na sua expressão característica, a moeda, ora é cara,
ora é coroa, mas ela própria teve faces, entrementes. Esse de agora, o real, já
existiu, como o mil réis de lá atrás que nem tostão-furado vale hoje, e, a
meio- tempo, teve pataca (incluindo as versões menor, a meia-pataca, e a
grandona, o patacão), cruzeiro, cruzeiro-novo, cruzeiro-real, cruzado, novo-cruzado,
acha pouco? O que se obtém com o valor facial da dita cuja é que é o cerne, porque,
no longuíssimo prazo, tanto faz, estaremos todos noutra dimensão, quem ficar aqui
que se vire para escolher outra ou nenhuma grandeza.
Felizmente,
não é laxo o nó do cordão que segura a gaita brasileira. Há, sim, quem tenha
aqui domínio, coordenação, mando, o Banco Central, mas a responsabilidade é tanta
que não cabe num único gabinete, termina validada em faustosa sala de reunião,
cheia de experts, em meio a cenários, números, gráficos, tendências: é o Comitê
de Política Monetária (Copom), esperado ansioso a cada ciclo como rebento nascituro,
em clima de expectativa nervosa.
Diz-se
que, lá, no Copom, se decide independente, no voto dado ao relato da proposta
em pauta, justificado a cada item, nada contra, é boa metodologia. Mas, o que
se divulga frequente suscita interpretação, palavra por palavra, vírgula a
vírgula, incluindo reticências, como se faz em relação a certames nos quais a
participação prescinde de entendimento detalhado de cada um e de todos os
requisitos, como edital de leilão antes de ir para hasta pública, no caso o
Boletim Focus.
Tudo
bem, se o destinatário é o do ramo, o economês se basta no pergaminho, parece
conselho a ser pago com pepita, e, de fato, é mesmo, porquanto aumenta muita
fortuna pré-existente, cria condição para ganho de milhão duma hora para outra,
se o recado for bem entendido. Ou, caso contrário, pode levar à falência total num
estalo de dedos, na marcação-a-mercado malfeita na Catedral-da-Graninha-Movida-a-Expectativa,
a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa): por exemplo, o que era ação de glorioso
futuro, morre de graça muito antes da véspera, cujo solene atestado de óbito é emitido
e entregue transverso pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
No
meio da rua, a escrita rebuscada do Comitê, de tão incompreensível, se achega a
hieróglifo, ou, no barato, o texto estudado do Bacen dá impressão de ser da
lavra de algum recente laureado com o Nobel de Economia, como o francês Jean
Tirole e seu brilhante olhar (à direita?) sobre a imbricada teia que mistura
desenvolvimento organizacional, teoria dos jogos, finanças e psicologia, em
mercados de capitais monopolistas ou menos competitivos do que deveriam.
Importante, porém, é que o Comunicado do COPOM ou o Boletim Focus tenham
credibilidade total, senão fica o dito pelo não dito, confunde mais que
explica, e, pior, envia sinais trocados indicando direção oposta à que se deveria
tomar, exatamente como queria cinicamente a sectária hoste capitalista dos
oportunistas adoradores do deus-mercado, conclui-se, se adotada ao menos um dos
muitos vieses da abordagem (à esquerda?) do também francês Thomas Piketty, o
queridinho da vez.
Luz,
Câmera, Ação: oito vezes ao ano, o evento ocorre, com tudo a que o espectador tem
direito. Na data marcada, tapete vermelho, o palco se arma, o auditório se
enche, o sucesso é garantido. O título do seriado é repetitivo, o anúncio
bombástico, o gênero da película mutante: suspense sempre, drama é quando aponta
subida, e, oposto, o enredo é alegre se indica baixa; um episódio tem script de
aventura, outro pode receber crítica como ficção, mas nunca se apelou em atrair
cinéfilo de comédia pastelão, faroeste italiano ou pornochanchada. A atriz
principal é a Taxa SELIC, Sistema Especial de Liquidação e Custódia, a taxa
básica de juros, é ela que se quer ver, nela se aposta dia-a-dia, a alavanca do
sistema; na plenitude do vigor, aos 25 anos, a mocinha desperta em uns desejo,
muitos a cobiçam, talvez alguém a tenha antes dos demais. O Presidente do Banco
Central, Bacen, é importante, claro, pode ser mocinho ou vilão, aplaudido ou vaiado,
mas parece coadjuvante, não mais que isso, no caso.
Fala-se
muito no Bacen como Guardião da Moeda, que regula barganha de quem deve com quem
empresta, audita à lupa bem de pertinho toda negociação interbancária feita, vigia
submerso a normalidade situacional com periscópio sem ser visto, tem obrigação
de proteger a sociedade (o componente vulnerável da engrenagem), sem dar mole, tarefa
que, na prática, só funciona com instrumento de altíssimo padrão, tipo canivete
suíço de múltiplo uso, legítimo, certificado. É temeridade inadmissível querer
fazer ajuste fino com caixa de ferramentas clandestina, barata, descalibrada, one way, porque, no Reino-da-Pecúnia-Sem-Cheiro
não tem bronca safada, toda ela é feia: ora engripa o encaixe das peças na
geringonça econômica, o parafuso espana na sociedade e vira rosca-sem-fim, alui
a cremalheira do progresso.
Para
não se enrolar, a instituição deve ter autonomia, não apenas em tese; na
realidade, precisa ser intransigente com vendilhões do templo, aberto ou
fechado, coibir a banda podre de narinas ávidas pela fragrância do lucro fácil,
adotando nas atividades fiscalizatórias postura liberal ou se imiscuindo absolutista,
por ideologia, doutrina, necessidade ou imposição. Nela, a escolha do ocupante
da cadeira de mais alto espaldar, a do Chefão-De-Toda-Cunha-Oficial, passa por
crivo interno e externo, chancela dos pares, aval internacional, e, ele, no
assento, tem de ser verossímil na Avenida Paulista, endossável em Wall Street, crível
em Davos. Pois, ao oposto, se escalão superior diz de manhã veemente, desdiz à
tarde eloquente, dorme à noite sereno e amanhece sem incômodo no cargo
inalterado, deixando outros insones, abalados ou doentios crônicos por causa do
pesadelo, Zé-Ninguém pode dar pitaco descompromissado toda hora, é o vale-tudo.
É
delicadíssimo este mundinho das finanças, dos valores monetários predominando sobre
todos os demais, da mais-valia obtida sem suor. A relação entre envolvidos na
arena (governo, operador de mercado, financista, empreendedor) deve ser de
parceria customizada, na qual quem dita a regra facilita a vida de quem a põe
em prática, e, sob desacordo, na disputa, que haja código de honra, sem golpe
baixo, legítimo duelo de titãs. Nele, o juiz do tablado tem de mostrar pulso, para
a luta ser combativa, não demorar tempão nas cordas, nem ficar encurralada no
canto do ringue, em troca de tapinhas, cansando a assistência, que quer nocaute
de primeira, não está nem aí se voltar mais cedo para casa.
Bom
deveras que a temporada traga novidade, desperte curiosidade a cada estreia, como
a do recente Índice de Confiança do Consumidor ICC), que se auto-define. Pouco
importa se é invenção de europeu, talvez da Suécia, ou se vem da América do
Norte, dos EUA ou do Canadá, interessa é que chegou dizendo a que veio aqui, sob
o beneplácito da emérita Fundação Getúlio Vargas (FGV). A mídia abre espaço à
sondagem periódica, é manchete quando algo sai fora da normalidade, porque ele,
o ICC, é consanguíneo do otimismo, do preço, do salário, do consumo, da vontade de poupar, da intenção de compra e da capacidade de aquisição. Se o
cara está de bem com a vida, confiante, feliz,
empregado, tende a meter a mão na carteira, gastar, ou, ao reverso, se
há insegurança na renda familiar, se o emprego está ameaçado, o cobertor encurta,
o ambiente fica recessivo. Tudo a ver com a inflação, para mais ou menos.
Falando
nela, a inflação, que insiste em desfilar com paetê, pluma e lantejoula na
avenida e obriga jurados a interminável bate-boca, um teimoso expurga dela o
negativo para turbinar a imagem positiva, outro raivoso inclui nela o indevido para
piorar falação que já era muito ruim. É polêmica infindável: depois que se criou o pontual
centro da meta, quando o índice sobe, quem olha de baixo vê o copo meio cheio,
e, quem olha de cima, o pressente meio vazio, o que não faz o menor sentido,
porque - se ela é medida exata - não pode ser questão-de-ponto-de-vista, se
afeta a vida de todos não pode ser parte dum mundo-de-faz-de-conta.
É
bom que se persiga todo décimo de ponto, porque, em volta do 6%, a subida de
preço relativo dá frio na espinha de Mariazinha, a mão de Chiquinho gela,
esquenta a cabeça de Mané, porque, sem premonição, valha-nos Deus, fique longe
daqui, no infinito, a alucinante espiral inflacionária, que nunca mais surja
por perto ninguém se dizendo fiscal credenciado presidencial a fechar porta nem
mesmo de bodega de bairro, que a corrida diária à prateleira de supermercado
atrás do produto escasso seja notícia em seção internacional de jornal
brasileiro, por exemplo, reportando feíssimo retrato da lindíssima vizinha
Venezuela, acostumada a brilhar na passarela em concurso de beleza com suas
misses.
Elas,
as políticas financeira e monetária, também (in)diretamente mexem no dólar, o
fazem subir quando interessa lucrar na commodity
bruta e qualquer coisa exportada ou, ao revés, empurram acima a cotação da
moeda nossa a título de incentivar importação de bens de capital, por exemplo. Também
não se fazem nem um pouco de rogada quando um despirocado do mercado desanda a
querer desestabilizar regras postas para deixar investidor zonzo: aí, uma,
outra ou as duas partem duríssimas em cima de especulador atrevido, a caixa-forte
do tesouro nacional se abre, sacam verdinhas que forem necessárias para evitar
banguela-de-ladeira-abaixo ou fogo-de-morro-acima na cotação, dão freio de
arrumação no bonde descontrolado e deixam a alavanca de marcha no ponto-morto
até equilibrar a paridade.
Ao
se mencionar a presumida equivalência do din-din, de imediato, irrompe no
cartório fulaninha serelepe exibindo certidão de parentesco chegadíssimo às duas
citadas, querendo reivindicar participação atuante na rodinha lucrativa, talvez
pensando herdar adiante súbito interesse no espólio, sem mérito direto: é a Política
Cambial.
Pense
jamais que seja esta desimportante, ande a reboque permanente daquela potente
dupla de parentes da família ou que lhe esteja reservado o segundo ou terceiro
plano na ordem sequencial de relevância. Ledo engano esse. Já foi dito em letra
garrafal que aquelas duas afetam positiva ou negativamente a saúde das
finanças, são complexos vitamínicos aditivos ou remédios de cura, que - se
administrados na posologia indicada - fortalecem ou curam boa parte das mazelas
do país. Já no câmbio paritário, o soluto ideal é espinafre puro, daquele que
turbina a musculatura do célebre marinheiro Popeye, na verdade, equivale a ouro
em pó, ou em barra, de puríssimo quilate.
No
cotejo do poder de compra internacional, mesmo parecendo algo esquisito, é
válido adotar os preços do hambúrguer ou do refrigerante de cola como referenciais,
entretanto, o mercado cambiário é mais que isso, é embate financeiro recomendável
só para robusto peso-pesado, que possua alicerce suficiente para se garantir a
cada rodada de negociação. Esta luta sempre envolve parceiros domésticos e do
exterior, é focado no comércio de importação ou exportação: compra-se aqui,
paga-se lá, compra-se lá, paga-se aqui, produto vai, produto vem, serviço é
feito, serviço é contratado, serviço é recebido.
Todo
dia tem disputa aferrada no estrado da competição entre moedas: umas vão à lona
cedinho, outras desistem da luta antes do começo, jogam a toalha; há campeões
celebrados (dólar, euro, libra, iene), a plateia vaia, aplaude ou arrepia de
dor sentindo o impacto da porrada dada. No final, quando o árbitro pega no
braço dos oponentes (bancos centrais e financistas) pode dar empate, mas quase
sempre tem ganhador e perdedor declarado. Concluído o apurado, o vencedor pode querer
luva adicional, cobrar mais caro do erário, o que vai estourar o bolso cidadão,
arrebentar o elo mais fraco da corrente, porque o aro de casa é fragilizado
pela dívida oficial alta e poupança interna baixa, enquanto cobre de fora é
seduzido à galega, via mais privilégio.
Por
outro lado, há um astronômico espaço virtual onde transações entre moedas ocorrem,
e, nele, como dito, forasteiro sente-se igualmente atraído por supino
resultado, alcançável em único giro terrestre sobre si mesmo ou apenas numa
volta do ponteiro maior do relógio. Assim, sob regime de taxa fixa ou
flutuante, sempre aparece quem se aproveite da situação e emboque parte do que
tem na cotação oficializada, encapsulada na transparente remessa ou no envelope pardo de aceite de divisas, e,
implicitamente, no ganho distinto a partir da operação de compra ou de venda, é
normal.
Esta
rotatividade de máximo giro faz a troca cambiária ser sensível, exige se estar
atento à aferição das moedas, de modo que – ao menor ruído, ou se é acesa uma
vela no corredor escuro e quando desabrocha rumor de alteração substantiva - o
detentor da melhor apólice deve estar pronto - de costume - a trocar de
aposento, à noite, de madrugada, e - de cara lavada, bem disposto - acordar
noutro lugar de mais encantos, agarradinho nas suas posses.
Nestas
ações geralmente vinculadas ao dólar, há senhor respeitoso levando vantagem
numa boa, hospedando o que economiza e o que ganha em insuspeito hotel de
categoria acima das cinco estrelas, com inimaginável conforto e diária
proibitiva a reles mortais. Entretanto, há um pregão meio sem dono, paralelo, dito
negro, no qual o lance é deixado a render sem esforço, ao longo do dia, movido
pela diferença apreçada entre moeda fraca e moeda forte, de bitola desconhecida.
Nesta jogatina obscura, instável, volátil, dizem, imperam o versátil doleiro e
a sujíssima lavagem de dinheiro, que se acoitam em hospedaria de má fama,
albergue de mochileiro ou motel de beira de estrada, onde ninguém pede
documento de identidade.
A
dívida enferma, a inflação aleija e o cambio mata, de vera. Daí, se o real ultrapassar
o parâmetro razoável, admissível ou saudável - antes que faleça – só resta
intervir urgente para impedir o clima de velório, o alastramento caótico da
desesperança: o remédio é injetar anticorpos no sistema, os dólares da reserva,
extraordinária jazida que bate nos 400 bilhões, preciosíssima salvaguarda, tão sedutora que remete à
lembrança da Piscina-de-Moedas-de-Ouro-do-Tio-Patinhas. Que Deus a guarde para
sempre escondida de aventureiros mergulhadores em busca de relíquias a qualquer
profundidade, intocada por escafandristas persistentes à procura de tesouros a todo
custo.
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