terça-feira, 14 de outubro de 2014

À VISTA GROSSA O RATO ROI O QUEIJINHO DAQUI - INTRÓITO, CENA I (DAVI OU GOLIAS?), CENA II (O LEÃO NADA MANSO)

À VISTA GROSSA O RATO ROI O QUEIJINHO DAQUI

Introito

No primeiro round, houve confronto de pouca ideia, bate-boca comedido por fora e iracundo por dentro, polêmica a dar-com-o-pau no debate televisivo, um sendo acusado de nada ter, outra de esconder o jogo e aquela que ficou para trás foi culpada por rabiscar o que escrevera.

Embora o prado tenha sido suado, porrada de cara para valer não teve, mas a plateia cambaleou de ficar zonza querendo encontrar algum nexo naquilo dito todo desconjuntado, foi como achar agulha de bússola de dar norte em palheiro entranhado de tiririca, o desafio era descobrir se - no meio da montanhosa lixaria - havia algo aproveitável, ao ponto de ser reutilizado ou ao menos capaz de ser reciclado adiante.

Agora, desde quinta, 9 de outubro, o festival de promessa velha invadiu de novo a pauta, o blá-blá-blá da propaganda eleitoral nada gratuita volta com revigorado e ampliado escopo, haja ouvido disponível, tenha santa paciência.

É hora de desembaçar as lentes de óculos, enxaguar a vista e botar colírio no olho porque a baixa visibilidade da mistura de tantos alhos com quantos bugalhos turva a pescaria de rede na beirada do mangue: é a lista de intenções ao desplante batizada de plano, de programa de governo, sei lá, qualquer nome serve.

Lance-se profundo ou superficial o anzol com isca e vejamos então o que pode chegar na ponta da vara, pretenso elenco de políticas públicas dos candidatos, muito distante de ideário que se mereça.

Antes, era coisa de academia,  intelectual ou dono de conceito e de modelo de formatação delas para governo, mas por esses dias a proposta se incorpora melhor se vem da demanda da sociedade, onde o bicho pega, onde está  o X do problema. Mais: na hora-da-onça-beber-água, nada ocorre em volta da moldura sem a presença delas, a prioridade na direção do esforço, o tamanho do bolo, da bandeja e de cada fatia do orçamento a ser mordido. 

Logo, é bom ficar de butuca aberta, porque se a coisa ficar preta, na escassez de farinha, o pirão da frente sempre tem espertinho de plantão querendo.

Cena I - Davi ou Golias?

Embora o indicador contemplado não seja aquela Brastemp sonhada, a gente se acha quando irrompe na seleta lista dentre os 6 ou 8 maiores PIBs do planeta: na moral, atira com força no lixo qualquer carcomida ideia de inferioridade, cospe longe o gostinho amargo do preconceito terceiro-mundista, porque dá orgulho se misturar na elite mundial, não se faça de fingido, Meu.

Mesmo que alguma imprensa marrom tente o avanço tisnar, não se está exagerando, pois o bolo encorpou sem fofar imódico pela overdose de fermento, cresceu em termos reais, alguma notinha caiu até no bolso de neguinho que há muito nem moeda tinha para gastar.

É verdade, umas fatias maiores têm como destino agiota come-e-dorme que não merece essa vantagem e abastado esbanjador que disso não precisa, mas ninguém quer voltar no tempo da toda desigual pirâmide com gato-pingado no vértice e larga multidão na base instável.

 É a Política Econômica falando grosso, sim.

Ela revela face macro: o grande número vinculado a investidor global ou a organismo multilateral tipo FMI, o agregado onde só cabe cifra astronômica, o economês do brabo como idioma corrente aos íntimos da  oferta versus demanda, elasticidade, fundamentos, medida anti-cíclica; entretanto, se espelha também no micro: o preço do chuchu, o boom do salão de beleza, o declínio da viagem de ônibus interestadual e a invasão da pele morena não bronzeada de sol em ambiente antes restrito a socialite que torce o nariz e diz que perdeu a graça até em viagem ao exterior mesmo em classe distinta.

Na recente agenda mundial, aqui, ali ou acolá, é crise atrás de crise, zunzunzum diário em bolsas de valores, quebradeira de empresa sem jeito, emprego de farol baixo versus salário embicado para cima, produtividade do trabalho abaixo do normal contrapondo lucratividade do capital em alta.

Na tresloucada corrida da competição com equipes de primeira linha,  aqui tem  derrapagem feia na curva da competitividade e (in)consequente intervenção branca ou negra de governo, conforme  ele regulamenta bem ou mal a relação entre os agentes, corrige de pronto ou em atraso a bagunça pontual ou se mete enxerido onde não devia.

De acordo com a regulagem certa ou errada feita na máquina, se pode subir campeão ao pódio, abandonar a corrida com motor fumegando ao esforço desproporcional ou se estabanar sem freio no guard-rail, se houver.

Mas, sob devida competência e com carteira recheada tranquilo se pode sentar à mesa do ágape internacional, em igualdade aproximada e apreciar o cardápio variado que inclui joelho de porco alemão, sushi japonês, hot-dog norte-americano, rolinho primavera chinês e até feijoada brasileira apimentada, suculenta e colorida, que saliva boca de gringo, mais ainda se regada a caipirinha de cachaça de lamber-beiço.

De fato, o país cresceu, se desenvolveu, progrediu, melhorou, mas é bom reconhecer que parte do sucesso todo vem da abençoada natureza, da riqueza que brota da fértil terra e do generoso minério enterrado por Ele no subsolo dela, mais o crucial esforço da sociedade: a ousadia do pioneiro Barão de Mauá, o valoroso sangue pracinha derramado na II Segunda Guerra lutando pelo aço, visionários modernistas, quixotescos empreendedores, muito anônimo suor heroico, tudo recém-turbinado na estabilidade real, intocável, queira Deus.

Cena II – O Leão Nada Manso

Por ironia ou felicidade, igualmente ou não, existe a Política Fiscal.

Para quem dela discorda, é por ela afetado ou nela mais bota do que tira, é troço mais-ou-menos que meneia na eterna gangorra de altos e baixos, uma engenhoca pendular com ciclo dependente do humor da autoridade que toma decisão quando se lhe dá na telha, uma insulada trolha que envolve milhares de empresas, milhões de pessoas e bilhões de cédulas, na sequência.

Em tese, lá a receita entra (onde se enchem as burras), dali a despesa sai, a máquina se custeia; ela lastreia a estabilidade, chucha no caudaloso manancial da riqueza numa boa e irriga dosado recurso arrecadado onde árido é, por gotejamento pinguinho-a-pinguinho ou por tubulação de grosso calibre, conforme a sede, se ela for justa.

Vive às turras com fluxo de mufunfa, capacidade de pagamento, resultado primário, estoque de dívida e demais itens que cozinham toda hora no efervescente tacho. Dele pode sair destilado de pureza cristalina ou melado de indescritível textura.

Por princípio, ela dependeria de diploma legal proposto e de subsequente aprovação parlamentar, mas a margem discricionária da caneta de mando é mais larga que o Delta do Rio Amazonas, sem falar na medida provisória que antecipa até para ontem o pretendido, empurra prazo adiante à barriga, renova efeito noutras manhosas letras e, afinal, um dia, passa a valer, malgrado estivesse valendo já outrora, para muito aquém do tempo gerúndio.

Tal expedito e adestrado utensilio para meter institucional a mão no bolso do contribuinte atrela-se umbilical à política tributária, essa mesma da qual se fala diário aos borbotões, uma confusão tão danada que só iniciados têm coragem de traduzir a linguagem hermética dela, um conjunto de normas tão intrincado mais parecendo um cipoal que nem Tarzan ousaria nele pendurar-se. 

Uma hora vem a ela o elogio natural de quem é isento ou bem pouquinho paga, noutro instante é a posição equilibrada dos que nela veem a lógica certa de transferência de renda de quem tem muito a quem nada tem e não falta momento à crítica feroz que delata mão grande no pequeno e pequena no grande.

 Ela é o pomo da discórdia entre todo mundo, ninguém com ela está satisfeito, uns acham soberbo que pagam demais e recebem de menos, outros que a arrecadação é de Primeiro Mundo e a qualidade do serviço em troca é até de Quarto Mundo, se ele existisse, ou do imperial Quinto dos Infernos, de desagradável memória, Cruz Credo.


Fisco competente na coleta, sonegador garroteado com nó bem apertado e ordenador austero no dispêndio é o Jardim do Éden, o Paraíso Terrestre, e, em sintonia, os dois obram maravilhas, juntos eles fazem tanto lastro que a Casa da Moeda só imprime o que for obrigado para substituir o papel esgarçado pelo manuseio.

Mas, na mínima discórdia de bastidor entre eles, embaça a cortina, esquenta o pano-de-fundo e no inflamável bate-boca deles faísca voa, pega fogo na plateia inteira, torra-se por completo o imposto, se esfumaça a esperança de futuro, todo cenário vira pó desde já, a qualidade do gasto escorre pelo chão e vaza brecha adentro até o magma, a desigualdade sobe como foguete à estratosfera.

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