
A morte de centenas de pessoas num único dia na Itália e na Espanha, todas diretamente oriundas da pandemia do coronavírus, é desoladora, inaceitável e inacreditável: em muito parece – guardadas as proporções – a repetição, na Europa, das pestes medievais e das gripes do século passado.
Analisadas sob lupa política isenta de vieses ideológicos inaplicáveis, considerando os avanços da ciência e da tecnologia disponíveis nos dois países, reconhecido o estágio de desenvolvimento sócio-econômico das populações atingidas e até mesmo se observada a tradição da cultura de prevenção mais arraigada naquelas áreas críticas, a tragédia poderia ter sido evitada ou – no mínimo – não ser tão alarmante.
Apesar das evidências mundiais que impõem medidas drásticas (explicitadas nas orientações da OMS) para mitigar os efeitos da Covid 19 na saúde da população, certo é que alguns governantes retardaram decisões e estão pagando muito caro em baixa popularidade na opinião pública e em alta rejeição no eleitorado, com risco de perda irrecuperável nas campanhas já vizinhas no calendário democrático.
O caso mais emblemático é o de Trump, que capitulou diante da realidade, sob ameaça de não seguir na Casa Branca, tanto que ele – além de o FED estar de novo socorrendo a economia, “sem quaisquer pruridos liberais”, como fez em 2008 – agora prioriza o sistema de saúde (que abominou), os pequenos negócios, os empregos e até os vulneráveis.
No Brasil, felizmente, a cada dia, a irracionalidade do negacionismo vem sendo atropelada pelos fatos e se rendendo ao próximo drama, à medida em que o número de infectados se expande em curva assimptótica e a maioria das pessoas se assusta, por óbvio.
Enquanto isso, há crescente pressão de empresários – uns legitimados pelo histórico de sensibilidade com os interesses nacionais, outros credenciados apenas pela estima de ou acesso privilegiado a autoridades de governo – clamando por um plano emergencial de socorro geral (nos moldes do célebre esforço de recuperação do último pós-guerra), para que o desemprego formal não seja quadruplicado, em breve, como preveem.
É incrível que esse “outro tipo de alarmismo” seja lastreado inclusive por coro de “vozes-médicas-da-politica” (algumas delas velhas conhecidas pelo oportunismo), maximizando a economia em detrimento da vida.
Nas circunstâncias, a solução mais adequada é a matricial: um misto equilibrado de intervenções horizontais (de caráter geral, amplas, por tempo indeterminado, para grupos de risco, por exemplo), mantendo a essencialidade da produção vital, ao lado de intervenções verticais (pontuais, ad hoc, just in time, just in case), graduais no esforço, ritmo e intensidade, conforme o locus e o focus.

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