sábado, 5 de outubro de 2019

DO JEITO QUE SE OLHA

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Toda hora surge novidade, é um moto contínuo, uma eterna caixinha de surpresa se abrindo sem parar e que submete a percepção da opinião pública e do cidadão a desafio diário: se o sujeito mora em Brasília ou tem interesse em política, o prato vive cheio, o cardápio é variado.

Malgrado as dificuldades, há de se tentar enxergar o que ocorre com visão clara e se esforçar para avaliar os fatos e as versões sob máxima isenção e com honestidade intelectual.

Por exemplo, nesses dias, teve mais uma notícia dando conta de altas labaredas de fogo-amigo chamuscando biografias profissionais, queimando o filme de pessoas e torrando de vez a carreira de ocupantes de funções estratégicas.

Se forem verdadeiros os petardos disparados por militares que bateram em retirada do Incra, acusando a suposta existência de um esquema de pressão para a titulação fraudulenta de terras patrocinado por líder ruralista ora secretário ministerial, abriu-se mais um flanco na disputa de poder no governo, uma fissura a tapar, uma externalidade a explicar.

A baixa de batedor, infante, marujo ou sapador já seria grande perda, mas – ainda que seja falsa a hipótese insinuada na denúncia publicizada de “grilagem oficial” – abala-se com tremor significante a retaguarda do regime, posto que se trata de gente bem graduada.

Enquanto isso, a vanguarda da tropa de elite segue firme adiante, em marcha batida, embora pareça meio desatenta, alheia, subestimando ou se autofiando capaz de superar percalços, divergências e rachas.

A ausência de escândalos de corrupção é a marca que aliados mais ferrenhos exibem como principal troféu dos nove meses da gestão: não é pouca coisa, mas, por excessivo medo da mancha, qualquer fato negativo assusta, a ameaça é latente, talvez até crescente.

Uma estratégia exposta pelo mandatário principal é o pedido para que haja aviso prévio pelo ministério público federal, para que a correção do erro descoberto anteceda a eventual punição. Faz algum sentido, tem certa lógica.

Mas, o modus operandi não é aplicável se e quando o rumor, o indício ou a prova do malfeito é de natureza interna, surge por delação ou desaba direto na repercussão da mídia.

Por óbvio, todos queremos o país de volta à normalidade, sem radicalismos e sem confrontos ideológicos, não pode alguém conscientemente torcer pelo pior nem apostar no caos, assim como ninguém é tão onisciente a priori que se ponha acima da crítica, se veja automaticamente isento de culpa ou se declare tão ingênuo que mereça perdão antes do justo julgamento.

Vive-se na democracia, há uma constituição e leis, as instituições têm salvaguardas, a liberdade de opinião ou de imprensa é cláusula pétrea e o benefício da dúvida é devido a cada um.

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