sábado, 30 de novembro de 2013

MOLEQUE IAN, SEIS ANOS DE MUITA VIDA E PURA FELICIDADE

Tem pessoa que acumula grana, riqueza, vive por isso, falsamente, mas, às vezes, se diz feliz, saber quem haveria-de? Há outros que nada têm ou até se despem consciente do que possuíam e testemunham ter, assim, encontrado paz interior, duvidar, quem poderia? Certo mesmo é que todo mundo diz ser a vida feita de momentos, cada um deles pode se traduzir em felicidade, materializar o que acho deve ser um divino conjunto de acontecimentos ao longo de nossa passagem neste espaço-tempo finito, para nós.

Deve ser isso a felicidade, estado de alma que nos faz chorar, sorrir, num instante, mas pensar, sonhar longe, até a eternidade; deve ser isso a vida, maravilhosa sensação de estar com a família, amigos e quem mesmo ausente em sentimento presente se faça, aqui, agora, como se estivéssemos voando juntos, desde então e para sempre, neste balãozinho azul a flutuar por aí. Ainda bem que Ele, que tudo governa, nos limita e nos amplia, faz de tudo um ciclo, um processo, nos interrompe e nos dá a chance de gerar outra vida, arremessar ao incógnito futuro uma parte de nós, um pingo de gente.

É assim: uma herança de ontem, uma obra de hoje, um projeto que segue adiante. Tem nome, pode ser João, José, tanto faz; tem rosto, não importa o formato, lembra alguém, mas é único; tem voz de timbre e sonoridade próprias, estridente que seja tem som de mágica flauta se quem ela escuta é suspeito por proximidade de sangue ou por benquerença de qualquer origem; se move, um devagar, outro que nem bólido de corrida, este é calmo, aquele hiper-ativo como modernamente se diz; tem gosto que ninguém sabe de onde veio: um é sereno, obedece natural, outro é arrebitado a valer, encara adulto de qualquer tamanho; um se aquieta num canto, outro salta, pula, grita, xinga, fala palavrão, se comporta como se nunca tivesse escutado conselho, nem aquele gritado, nem aquele no pé-de-ouvido.

É assim: o sujeitinho veio pronto, vai se moldando e nunca termina. O que acha de tudo nem ele mesmo sabe ainda, mas tem opinião arraigada, ora, pois. Não se meta a imaginar como ele vai ser um dia, ninguém jamais saberá, essa pretensão só Deus pode ter, não é? Pai ou mãe, avô ou avó, fique na sua, se contente em contar o que ele apronta no dia-a-dia, se delicie com cada gesto, careta, resmungo, silêncio ou barulho. Se quiser dar de comer direito a quem é biqueiro por natureza invente o que for possível, aproveite enquanto ele não se dá conta: simule um aviãozinho na colher, crie um personagem, uma imagem qualquer, mas nunca prometa sobremesa que não existe, nem ofereça quantidade pequena demais, exceto se for um chapeuzinho de marinheiro feito com rodela de banana e pedaço de goiabada, talvez funcione por um um tempo, como numa época distante ocorreu.

Olha só o que o moleque está fazendo! Onde ele aprendeu isso? De quem é esse menino? Pegou uma palmada, pegou? Levou puxão de orelha, levou? Ficou de castigo, ficou?

E você? Deu de mamar, deu? Se lambuzou de cocô trocando fralda, foi? Se fez de bobo para agradar ele, se fez? Virou cavalinho com ele saltitante na garupa, virou? Buscou na escola, buscou? Ensinou o dever de casa, ensinou?

É assim: o tipinho é nós, é você, sou eu, é ele, que está aí, respirando, vivendo, crescendo, para que a gente conjugue o verbo olhar, ouvir, tocar, sentir, babar, se emocionar, orar, agradecer.

Ontem, 29 de novembro de 2013, meu Primeiro Neto, Ian, fez seis anos. Vi, nele, Gustavo, Catarina Emília, Margareth, Milton, Vilma, um monte de gente lá atrás; mergulhei no passado, fiquei alegre, me senti triste, me recolhi, refleti, não tive mais dúvida: ter filhos, netos, viver feliz é isso, no mínimo, graças a Deus. Que Ele lhe dê saúde e muitos anos de vida.

Ian, by Papai Gustavo, genética e artisticamente





quinta-feira, 28 de novembro de 2013

PENA QUE A HISTÓRIA NÃO SE REPETE

Fundos de Previdência financiaram boa parte da construção de Brasília, houve gritaria de gente contrária, o orçamento público foi afetado, gerou inflação, mas hoje se vive numa cidade Patrimônio Cultural da Humanidade. O que dizer dos micos dos fundos de pensão que caíram em esparrelas megalomaníacas, engodos empresariais e trapaças financeiras?

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA GANANCIOSA MATA TODO CHARME DE QUALQUER CIDADE POR MAIS LINDA QUE SEJA

Vi na internet um movimento arregimentando forças pelo Tombamento do Colégio Marista Cearense, contra a construção de um shopping center em seu lugar, tendência que se alastra no país inteiro e me deixa perplexo. Não tive dúvida em apoiar e repassar adiante a informação na rede de amigos, tentando compartilhar com todos minha revolta e buscando engrossar a onda de protestos em desfavor do interesse econômico que anda desfigurando a paisagem urbana brasileira.

Minha fonte de indignação não é propriamente o Colégio Marista Cearense, mas ele me fez mergulhar fundo no tempo e chegar ao Colégio Marista do Recife, onde meus filhos estudaram enquanto fui dirigente dos Correios em Pernambuco, por quase quatro anos, no final da década de 80.

O espaço ocupado pela tradicional escola católica em plena avenida Conde da Boa Vista, emblemática e histórica, parecia (ou sonhava eu ingenuamente) que iria ter capacidade de resistir àquele frenesi comercial que o rondava com toda força já naquela época. Era quase um oásis no cenário caótico reinante no entorno, nas proximidades, logo ali, do lado de fora, bem nas calçadas: tenho certeza que Andreas Cauê, Bertha Carolina e Catarina Emília enquanto esperavam Margareth ir lá buscá-los devem se lembrar - além das lições impregnadas de valores cristãos - apenas das árvores frondosas nos pátios internos, da paz silenciosa da igreja e das alamedas que serviam de área de lazer para eles, sem nunca terem notado direito o burburinho dos camelôs, o empurra-empurra nos pontos de ônibus e o mal cheiro exalando dos bueiros externos. Mas dava para ver que o esquisito progresso estava chegando rápido e o Marista respirava cada vez mais sufocado.

Pois a coisa ficou bem pior do que se podia imaginar, a degradação veio em ritmo insuportável e o lucro especulativo torrou sem dó nem piedade o que restava da Conde da Boa Vista (que um dia se chamou Rua Formosa), do Colégio Marista (que nem existe mais) e das outrora charmosas artérias no miolo da chamada Veneza Brasileira.

Testemunhei isso, duas semanas atrás, de passagem do aeroporto Gilberto Freire para João Pessoa via Boa Viagem, quando ousei desviar da Agamenon Magalhães (que nos levaria reto a Olinda), para passar de carro no Cais do Porto, no Recife Antigo e no ainda magnífico conjunto de prédios da Rua da Aurora, para, dali, rever a Sede dos Correios onde trabalhei e mostrar a pessoas de Brasília que estavam comigo um pouquinho do centro da capital pernambucana. Foi um naco de tempo, nem tive a chance de dar umas passadas, só vi as coisas de soslaio, mas foi mais que suficiente para ficar chocado, triste e envergonhado, tão logo tomei a Conde da Boa Vista.

De cara, peço mil desculpas aos meus amigos e familiares pernambucanos e recifenses se me excedo na descritiva, mas o que vi é horrível, dantesco, apocalíptico.

Lá, no meio da rua, agora tem um ridículo corredor de transporte coletivo apinhado de tráfego desordenado e grossa fumaça de óleo diesel a tornar o ar irrespirável, é um cercado cheio de barreiras feiosas, faixas ininteligíveis e cartazes que nada comunicam, abrigos de muito mal gosto nas paradas dos ônibus, cabos e fios pendurados por toda parte; ali, numa nesga de chão passam taxis apressados disputando no grito clientes e motos em disparada sem direção lógica, fazendo pedestre virar par de pernas estressadas querendo atravessar a bagunça sem ser atropelado ou disposto a estripulia para botar o pé em escada de ônibus lotado; ninguém consegue ver qualquer coisa que preste ou encante os olhos, ao contrario, é incalculável a quantidade de tabuleiros que de tudo vendem ao longo dos passeios, tem sujeira e entulhos no meio-fio, nas paredes e nos postes, até uma absurda passarela aérea cruza a via ligando provavelmente a burrice à insanidade, uma maluquice total que agride a arquitetura que nos deu Niemeyer e a inteligência dos conterrâneos de João Cabral de Melo Neto.

A vontade foi de chispar dali urgente, antes de ser contaminado por tanto vírus de incompetência governamental, desrespeito aos cidadãos e falta de bom senso. Encapsulado naquela loucura, me senti como se estivesse nas barracas das ruelas do grudento Mercado de São José (que também vi com rabo de olho) ou na feira livre da Favela Roque Santeiro, em Luanda, Angola, a visão mais dramática que tive de um aglomerado de pessoas.

É assim, vem sendo essa a via-crucis das velhas metrópoles e até das cidades ditas modernas, todas sitiadas muito mais pela ganância imobiliária do que pela incontrolável urbanização que as transformou em depósitos humanos que lá trabalham e que dormem na periferia cada vez mais distante. Que Deus nos afaste deste insólito destino, nem que seja nos mandando de volta à caverna.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

DE VACAS E OUTRAS PARÁBOLAS


Recebi via internet diagrama meio conhecido (de autoria indeterminada), denominado Teoria da Vaca, que usa o ruminante altamente produtivo para esclarecer em linguagem simples de boteco teses políticas complexas, missão tipo impossível, porque tenta definir confusas relações e tênues limites entre público e privado sob socialismo, democracia, comunismo, burocracia, capitalismo, anarquia e por aí vai.
Como fui cobrado por vários amigos das mídias sociais, incluindo ex-alunos Brasil afora, tomo de conta da brincadeira com o mamífero artiodáctilo chifrudo (que já me serviu de fonte de inspiração muitas vezes) e agora compartilho de modo ampliado uma dessas ideias diferentes que tenho usado em sala de aula e em reuniões de trabalho para falar de coisa séria na base da parábola com fundo de verdade.
Todos sabem que o modelo clássico de formulação de políticas públicas parte da identificação de demandas da sociedade e busca atendê-las por meio de programas governamentais, na quase totalidade usando recursos oriundos do orçamento oficial, enfim, com dinheiro do povo, de tributos recolhidos, principalmente da classe média (por retenção na fonte, no caso dos salários), porque ricos pagam menos de tudo (escondidos em espertas pessoas jurídicas ou usando muitas das brechas fiscais) e pobres são alcançados de todo jeito (inclusive pela inflação), tirante o imposto de renda. O perfil descritivo é geral, as particularidades são nossas, tem nosso jeitinho.
Como o estado democrático é aberto, o governo é dependente em larga escala da ciranda financeira para financiar a dívida interna e a frágil administração pública acaba polvilhada por interesses externos enfiados na máquina oficial, na prática, muitas vezes, o que se vê são arremedos do orçamento engendrados no círculo vicioso que mistura capital privado, tecnocrata subserviente e político financiado por lobista, enfim a alocação das prioridades bota o povão na rodinha, em linguagem no popular.
É como se uma vaca fosse cortada ao meio, na vertical. A parte da frente é de responsabilidade da sociedade, que tem de prover (a seu custo) os alimentos (impostos, taxas, contribuições), enquanto o estado, o governo e a administração pública têm função burocrática no processo metabólico (operam a grana auferida e a aportam como prescreve a conveniente lei, o acordo tácito mascarado de política pública ou a mais pura negociata), mas a parte de trás, que gera os benefícios (leite, estrume), especialmente as tetas, fica sob os auspícios dos interesses privados, que transforma tudo em lucro ilegítimo e/ou em riqueza adubada pelo corrompido modelo.
Aí, surgiu um tal de orçamento participativo, uma espécie de praça do povo onde quem comparece apresenta o que quer, alguém anota os pedidos e tudo vai parar num liqüidificador imaginário, cuja mistura é feita com modo de preparo mais oculto que receita de Pastel de Belém e na qual os ingredientes são adicionados na proporção que convém ao resultado previamente definido ou manipulado depois. Ou seja, a vontade da galera expressa no conclave popular, comunitário e/ou de grupos organizados vira um reles assembleísmo popularesco inócuo, um clone muito mal acabado dos irreconhecíveis cromossomos democráticos originais ou um ícone politiqueiro de gênero absolutamente indescritível, um travesti na escuridão da noite mais negra que asa de corvo.
É como se uma vaca fosse cortada ao meio, na horizontal. A parte macia de cima, o lombo, as gorduras e os cortes nobres são apropriados pela elite econômica, política, estatal, governamental e administrativa dos ditos poderes constituídos, dos supostos saberes institucionalizados ou do poderio capitalista cada vez mais concentrado: filé (inteiro, nada de contra-filé), picanha (até maturada) e maminha (palavra melhor não haveria, ela deve vir mesmo do verbo mamar) são a síntese do privilégio. Enquanto isso, a parte pobre de baixo, o osso, a sobra e o que pouco vale vão parar na mesa da periferia da sociedade: vísceras misturadas viram buchada ou sarapatel, rebotalho triturado enche linguiça, mocotó é apresentado como iguaria que dá sustança e a mundialmente famosa feijoada brasileira aproveita tudo que couber no caldo grosso da grande panela. Com cachaça pura no quengo ou sob generosas goladas de caipirinha goelha adentro, sobretudo em clima de festa, a combinação final tem sabor ainda melhor, pode até parecer chique, servir de mecanismo eleitoral em campanha de político malandro pelo interior do país, estratégia com mais de cinco séculos de indiscriminado uso.
Provavelmente, em português castiço, a tal vaca cortada ao meio (na vertical ou na horizontal) possa ser essa tal de parceria público-privada, uma falsa modernidade, uma velha artimanha com charmoso figurino, uma versão ardilosa da casa grande-senzala, uma cruel materialização da dialética elite-massa.
É claro que um dia a vaca vai parar no brejo, a farra do boi vai acabar. Por precaução, acho bom a gente ir modelando o paladar para se adaptar a uma dessas insossas dietas magras ou aderir a qualquer corrente natureba que só come folha plantada no quintal de casa; enfim, buscar proteína em alguma coisa alternativa, porque estilo vegetariano, natural ou macrobiótico anda custando os olhos da cara.

sábado, 5 de outubro de 2013

NOVA CULTURA VIA WEB?


Impressiona o mapa descritivo dos sítios eletrônicos mais acessados em cada país.
Ninguém duvida da importância da internet, nem há condições de se lutar contra o avanço imprevisível das mídias na vida cotidiana: parece ser mesmo uma mistura de Aldeia Global, de Marshall MacLuhan, com o Big Brother, de George Orwell, é comunicação na frente de tudo, muitas vezes ao preço da invasão de privacidade, até da espionagem oficial conduzida sob disfarce da segurança nacional, como se viu nas últimas revelações da grande imprensa internacional.
Fato é que é irreversível a onda que se espraia, mesmo que governos fechados tentem barrar ou circunscrever o uso dos meios eletrônicos e das mídias sociais. É luta inglória de quem quer que seja contra a tecnologia, é batalha perdida para quem tolhe a liberdade de acesso e de expressão que virá de todo jeito ou de algum modo, é malhar em ferro frio se o objetivo se posta em desfavor da natureza humana que prima pela interatividade entre pessoas.
Mas, subliminarmente, há, sim, um processo intenso, sem controle viável e de elevado impacto da internet, dos meios de comunicação e das mídias sociais na cultura universal, a partir do qual - é certo - se estreitam os laços, o tempo encurta, a distância diminui e os espaços se ampliam, sem nenhum paradoxo.
Parodiando o jargão, quem vive vê.
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FOME MORIBUNDA, PROGRAMA INCÓGNITO


Ninguém em sã consciência e fora das cegas paixões partidárias se recusaria a aplaudir a notícia veiculada mundo afora dando conta de que 10 milhões (em 1992 eram quase 23 milhões, em 2013 menos de 14 milhões) de brasileiros deixaram de passar fome, em números redondos. Qualquer contribuinte pessoa física ou jurídica certamente não se manifestaria contrário à ideia de que impostos pagos sejam transferidos como renda a quem tem nenhuma chance de ganhar algo com seu próprio trabalho, circunstancialmente, de uma hora para outra. Simplesmente, é fato, há um estoque histórico de miséria e de pobreza que vem diminuindo há anos, está bem perto de acabar, dizem as estatísticas, antes do prazo compromissado, que era 2015.
É certo, políticas públicas distintas, programas governamentais vários e muita grana do orçamento oficial são a chave-mestra que travou a sangria desumana responsável pelo vicioso ciclo derivado da ignorância, do analfabetismo ou da insuficiente capacitação; foi, sim, essa baba pingada mês a mês que abriu a multidões as portas de biroscas de comida, que deu acesso a muita família às prateleiras de supermercados e que até fez gente entrar em shopping-centers, romper a barreira das vitrines e chegar no caixa da loja pagando coisa comprada.
Nesta seara que é irrigada pela semente da solidariedade, pela percepção de que o bem comum tem prioridade sobre o patrimônio do indivíduo e pela perspectiva de que a riqueza precisa ter caráter social, dúvida não há, a constância de propósitos anos a fio é fator crítico de sucesso, pois subordina os salamaleques políticos e eleitorais aos impactos positivos que os benefícios trazem às pessoas, impede que quem quer que seja meta o bedelho publicamente em desfavor, reduz a chance de que a sempre perversa descontinuidade sepulte boas iniciativas simplesmente porque vieram de outros; se é bom, tem de seguir em frente, ser mantido, ainda que efeitos colaterais danosos surjam onde exista desonestidade tão canalha a ponto de desviar o dinheirinho ao próprio bolso ou mesmo que o proselitismo mais deslavado tente se apropriar como se lhe pertencesse o que é pago pela sociedade toda.
Está bem, valeu demais até agora, o Brasil disso se orgulha.
Então, se a meta de redução de pobreza foi alcançada, a exponencial curva de beneficiados deve ter um ponto de inflexão e deve passar a ter trajetória descendente compatível, a partir de algum momento que não pode ser indefinido, ora.

FOME MORIBUNDA, PROGRAMA INCÓGNITO


Ninguém em sã consciência e fora das cegas paixões partidárias se recusaria a aplaudir a notícia veiculada mundo afora dando conta de que 10 milhões (em 1992 eram quase 23 milhões, em 2013 menos de 14 milhões) de brasileiros deixaram de passar fome, em números redondos. Qualquer contribuinte pessoa física ou jurídica certamente não se manifestaria contrário à ideia de que impostos pagos sejam transferidos como renda a quem tem nenhuma chance de ganhar algo com seu próprio trabalho, circunstancialmente, de uma hora para outra. Simplesmente, é fato, há um estoque histórico de miséria e de pobreza que vem diminuindo há anos, está bem perto de acabar, dizem as estatísticas, antes do prazo compromissado, que era 2015.
É certo, políticas públicas distintas, programas governamentais vários e muita grana do orçamento oficial são a chave-mestra que travou a sangria desumana responsável pelo vicioso ciclo derivado da ignorância, do analfabetismo ou da insuficiente capacitação; foi, sim, essa baba pingada mês a mês que abriu a multidões as portas de biroscas de comida, que deu acesso a muita família às prateleiras de supermercados e que até fez gente entrar em shopping-centers, romper a barreira das vitrines e chegar no caixa da loja pagando coisa comprada.
Nesta seara que é irrigada pela semente da solidariedade, pela percepção de que o bem comum tem prioridade sobre o patrimônio do indivíduo e pela perspectiva de que a riqueza precisa ter caráter social, dúvida não há, a constância de propósitos anos a fio é fator crítico de sucesso, pois subordina os salamaleques políticos e eleitorais aos impactos positivos que os benefícios trazem às pessoas, impede que quem quer que seja meta o bedelho publicamente em desfavor, reduz a chance de que a sempre perversa descontinuidade sepulte boas iniciativas simplesmente porque vieram de outros; se é bom, tem de seguir em frente, ser mantido, ainda que efeitos colaterais danosos surjam onde exista desonestidade tão canalha a ponto de desviar o dinheirinho ao próprio bolso ou mesmo que o proselitismo mais deslavado tente se apropriar como se lhe pertencesse o que é pago pela sociedade toda.
Está bem, valeu demais até agora, o Brasil disso se orgulha.
Então, se a meta de redução de pobreza foi alcançada, a exponencial curva de beneficiados deve ter um ponto de inflexão e deve passar a ter trajetória descendente compatível, a partir de algum momento que não pode ser indefinido, ora.